terça-feira, 13 de julho de 2010

Gângsteres no saloon


“O Pagamento Final” é um faroeste disfarçado de filme de gângster. Ou um filme de gângster que presta homenagem aos faroeste. Vide a sequência da estação ferroviária – estações parecem ser mesmo um fetiche visual para o diretor Brian de Palma, mas isso é outra conversa. Tanto quanto remete à cena da escadaria em “Os Intocáveis” – que, por sua fez, como deus e o mundo sabem, é uma referência ao cinema de Eisenstein – o tiroteio e a perseguição dessa sequência, de fato a última do filme, reproduz os divertidos cacoetes dos westerns mais manjados. A diferença é que, no lugar de balcões de saloons e cavalos que passam disparados escondendo pistoleiros de mira microscópica, temos escadas rolantes e modernos empurra-empurras.

Al Pacino, vocês lembram, era Carlito Brigante, um criminoso porto-riquenho com a vaga aspiração de cair fora da bandidagem. E o que o filme mostra é a infrutífera luta dele para atingir esse aparentemente singelo objetivo. Claro que ele não consegue: não só porque estragaria a premissa da história, mas porque, enquanto Carlito mofava na cadeia, lá fora nas ruas tudo estava mudando. E é ele quem constata a mudança, na frase que traduz o filme, logo depois de um assassinato brutal como convém ao cinema de Brian de Palma: de organizado o crime não tem mais nada; agora é só um bando de cowboys atirando a esmo. A frase, claro, não é literalmente esta – mas o sentido está claríssimo como o sangue que jorra de mais de um pescoço nos filmes de De Palma.

Há, entrementes, uma interessante troca de papéis a ilustrar a contramão em que vive Carlito Pacino. Enquanto ele tenta, tanto quanto pode, cortar os laços com as máfias portoriquenha, italiana e de nacionalidades outras, seu advogado viajandão Sean Penn faz o caminho inverso, trocando cada vez mais a estampa de cêdêéfe do direito para investir na carreira de consumidor e negociante de drogas, até matar um chefão daqueles de responsa. O diálogo verbo-visual – o bate-bola cinematográfico – entre Pacino e Penn é um mimo à parte que o filme oferece à platéia sedenta por mais um subproduto da era “O Poderoso Chefão” que, via-se ali, ainda dava no couro.

P.S: Mais sobre o cinema de Brian de Palma na postagem abaixo.

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