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segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

O último mistério do Egito


No caso do Egito, o que mais intriga é o instante definidor daquela explosão. Como é que durante trinta anos vigorou, com a conformidade sólida e imóvel das pirâmides, o silêncio e as cabeças baixas e, assim, em meros 18 dias, no rastilho de um alvoroço em terras vizinhas, tudo ganha uma pressão interna tal que não há outra possibilidade de alívio que não seja o arrancar as cascas das feridas e dar vazão à secreção contida? Em que momento, com que víeis, em meio a qual substância humana e social aquela pasta de obediência se liquefaz e cessa seus efeitos, suspendendo a dormência e incrementando a dor coletiva a ponto de colocar tudo – nem tudo, é verdade, mas o essencial – abaixo?

Numa fotografia de uma edição dominical de jornal de dias atrás, lá estava sorridente na sacada do apartamento do hotel onde mora no Cairo o célebre ator Omar Sharif, um dos egípcios mais conhecidos do mundo ao lado de Cleópatra e do agora debandado Hosni Mubarak. O que ele estava dizendo no jornal? Apoiando as manifestações, defendendo a democracia na terra dos faraós. Muito bem, elogiável – mas lendo aquilo fiquei me perguntando onde estava o Dr. Jivago durante todas essas três décadas...

Mas com certeza não é a adesão da celebridade – elas que aqui e ali aproveitam esses momentos definidores da aventura humana para reafirmar suas presenças no planeta esquecido – que introduziu com astúcia e perícia o espinho no tumor. Quem há de tê-lo feito, em que circunstância especial dentro da situação maior a ponto de solapar aquela ordem que durante três décadas tão pouco incomodou a mesma imprensa ocidental pró-EUA que agora não para de se ajoelhar aos pés dessa rebelião sem rosto claro e definido?

Quem ou o quê – e como, e quando – deu-se o tranco definitivo, o sinal tão estranhamente codificado que fez dizer a todos que o cabo de força estava ganho? Como se chega a ele, eu me pergunto. E sei que há gente se colocando diante da indagação inversa – como é mesmo se que anula este mesmo, feroz, imbatível, tsunâmico impulso modificador? Perguntas e lições emanadas do Egito que a gente imaginava só haver nos velhos livros colegiais de História Geral.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

O Haiti, à distância


Até a noite de ontem, evitei deliberadamente me deter diante da televisão ou dos jornais que estamparam a catástrofe infernal que se abateu sobre o Haiti. Este país previamente arruinado que, à distância, já era uma espécie de território absoluto da mais absoluta falta de consenso, como se fora um exemplo no mapa do mundo a chamar a atenção dos demais países, em atitude de completo auto-sacrifício, sobre a importância de costuras mínimas que mantenha íntegro o tecido de uma nação. Ocorre que, na desgraça mais destituída de explicações, todos os tecidos do Haiti se romperam, em exemplo outro, e tremendamente mais nefasto e sobrenatural, de uma realidade construída – diria melhor, destruída – em desastre muito aquém da vã incapacidade humana. O Haiti parece que se quebrou em dois pedaços, como um guri arrebenda distraído um palito de picolé. Uma catástrofe natural, indigna de tal adjetivo irônico, que parece vir cimentar a calçada desfeita de um país já então lutando contra a decomposição.

Evitei até ontem, como dizia, qualquer atitude que significasse me deter sobre os vastos panoramas dessa tragédia. Não fechei os olhos para o terremoto, não desliguei a tela do canal de notícias, tampouco deixei de ler as manchetes dos jornais. Mas não sentei defronte à tevê como fiz quando o mundo acabou em Angra dos Reis, numa decisão que redundou em lágrimas silenciosas diante do Jornal Nacional do último dia do ano. Do jornal de papel não ultrapassei a primeira página, negando por um momento uma leitura que muito me agrada, independente do exercício profissional e da qualidade adjetiva da imprensa de nossos dias. Mas não foi nada decidido, estabelecido, normatizado na mente que adota resoluções de maneira praticamente automática. Só evitei, mal notando que o fazia.

Acontece que a desgraça em escala também precisa ter suas gradações. Depois do choro da também distante Angra, não queria mergulhar meu auspicioso início de ano em outra bacia de sangue e clamor. Talvez eu tenha o coração fraco, além do miolo mole. Mas consultei minha humanidade e ela me disse para não ter vergonha deste tipo de autopreservação. Meus filhos estão de férias, é preciso que eu dê para eles um pouco mais da minha companhia, que invente passeios, que aproveite os dias de sol que enfim se instalaram sobre o solo despovoado deste janeiro brasiliense. Que eu não negue o sofrimento, mas que não deixe que ele me paralise. Que não me torne refém do noticiário mais triste desde muito tempo, embora compreenda a natureza desse noticiário que se alimenta do grito do soterrado e da mais dura imagem, aquela que mostra o rosto da nova leva de órfãos que o mundo acaba de parir. Corro para os meus filhos, fujo com eles para o parque de diversões mais próximo, o reino infantil deles me abriga na manhã ensolarada, não tenho como não fazer isso. Reajo à maneira que me está mais à mão. E confirmo involuntariamente minha humanidade tensa e temerosa diante da catástrofe – qualquer catástrofe mas sobretudo esta última, que muito bem poderia fazer jus ao adjetivo e efetivamente ser, mas sabemos de antemão que não o será, a derradeira.

Ontem à noite, finalmente, o dique se rompeu, como haveria de acontecer mais cedo ou mais tarde. Para me inteirar sobre a terrível notícia do terremoto, a indesejada reportagem sobre o segundo fim do Haiti, resolvi ler o texto da revista “Veja” que, longe de ser a melhor fonte jornalística em assuntos outros, sobretudo os pátrios, ainda tem a vantagem de consolidar melhor em poucas páginas este tipo de evento que surpreende e choca o mundo. O que eu buscava, de fato, era um breve resumo, aprofundado e ao mesmo tempo suficiente, para me colocar a par do terremoto e seguir em frente, sem me expor a um sem número de videos diante dos quais muito pouco se pode fazer além de exercitar uma perplexidade já tão curtida por eventos outros. Com a revista na mão e os olhos nas palavras, não precisei ler muito para sentir o estômago embrulhado, o remorso revirado, a incredulidade dando saltos.

A fotografia em página dupla do homem procurando pessoas da família entre corpos já inchados pelo processo de decomposição; a notícia terrível do pesadelo que se seguia à sobrevivência, pela falta de qualquer lugar para onde voltar e qualquer hospital onde calar a dor; a narrativa dos últimos momentos de Zilda Arns, rodeada por sacerdotes interessados em uma fórmula simples para melhorar a vida de quem já é o próprio sofrimento em forma de pessoa; tudo isso é muito mais do que aquela mão pendente na capa da revista poderia sugerir. E ainda há as pequenas biografias dos militares brasileiros mortos, quase todos da mesma idade – 23 anos – e com idêntica disposição de servir a um país carente de qualquer forma de reconstrução.

Era tudo isso o que eu estava evitando e que, a esta altura, quase 24 horas depois, já se encontra assimilado em meio a uma sensação de torpor esclarecido. Outras catástrofes virão, polêmicas pré e pós-carnavalescas, os jornais e revistas mais uma vez reabastecidos de futilidades que nos fazem esquecer e seguir em frente. Ontem, um vôo turbulento sobre o oceano Atlântico. Amanhã, uma garota de vestido curto que vira do avesso uma universidade particular. Anteontem, uma menina de seis anos morta aos pés de um prédio e uma história de pais estressados que não bate com a sensibilidade normal do ser humano. Daqui a pouco, o relógio roubado de um apresentador de tevê ou os erros gramaticais de uma celebridade no twitter.

E, nisso, alguém pode perguntar: de que a gente estava falando mesmo? Ah, do Haiti, o país daquele terremoto – onde fica mesmo? A porta por onde entraram relatos, fotos e imagens de tamanho cataclismo já terá se fechado, lentamente, com os poderes da memória humana que tanto garante a lembrança que machuca (mas alerta) quanto o esquecimento que consola (mas subestima). Nossa imensa insignificância estará refeita e intacta, embora a gente não se dê conta disso. Até que outro apocalipse nos sacuda, in loco ou ao longe, pelos jornais, pela tevê, cutucando nossa humanidade latente, este apicentro de plantão dentro de todos e de cada um de nós.

quarta-feira, 23 de setembro de 2009

O sono dos injustiçados


Manuel Zelaya é mais ou menos como seria Hugo Chavez amanhã, caso este não tivesse conseguido conter o golpe que quase o derruba do poder alguns anos atrás. É mais que isso - é a imagem refletida e refratada dos líderes à esquerda que tanto quanto respondem a uma necessidade social e econômica de Latino América, também o fazem de uma maneira algo antiquada. Manuel Zelaya, quero dizer, é um espelho onde se miram - e obtêm impressões diferentes - os países todos da América do Sul, na tentativa plenamente justificada de enxergar um futuro desligado dos grilhões que tradicionalmente se agarram aos nossos pés. Líderes como Zelaya, Chavez e Lula podem não ser perfeitos - como ademais perfeitos não poderiam ser nenhum dos senhores à direita que em nosotros tanto mandaram até um dia desses - mas são a maneira possível como esse mesmo futuro se desenhou em cada recanto dessas terras descobertas por europeus e colonizadas por Espanha e Portugal.

A imagem de Zelaya dormitando sob um chapelão na embaixada brasileira, que está em todos os jornais e todos os portais de ontem para hoje, sugere um Zorro em repouso entre uma batalha e outra. Zelaya, nas feições tortas como essa forma de poder e representação popular chega ao topo tão tardiamente, lembra assim uma espécie de Ratinho que tenha trocado os porretes na tevê por uma causa de popularidade mais genuína, depois de ter lido, apressada e impaciente, umas apostilhas sobre colonialismo, imperialismo e noções de marxismo do tipo abra em qualquer página e reflita sobre o que está escrito. De outra maneira, Manuel Zelaya somos nós, eternos pisoteados que ainda conseguimos tirar uma soneca deitados em um berço esplêndido qualquer que nos emprestam os tradicionais donos do poder enquanto lá fora gira enlouquecido o olho do furacão. Manuel Zelaya é mais um protótipo do justiceiro confuso, ainda que sobejamente justificado. Um personagem de "Terra em Transe", glauberianamente fixado na mitologia cinematográfica e dela decalcada por realidades quem teimam em conservar o pior do passado. Por isso e por tantos outros motivos, aquele sono, daquela foto, se não é o sono dos justos, pode-se dizer, é o sono algo sonambulizado de todos os injustiçados.

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

A Crise

Eram três da tarde dessa segunda-feira, 29 de setembro, quanto ela saltou a janela da minha casa e, sem que nenhum vizinho percebesse, invadiu meu sacrossanto lar. Uma vez lá dentro, encheu um saco enorme – desses de ladrão tipo irmãos Metralhas – com meus valiosos eletroeletrônicos, dólares falsos, mercadorias made in China e centenas de providenciais bobinas de DVDs virgens. Suja, feia e ambiciosa, ela espalhou por todos os cômodos um mau cheiro nauseabundo. Pichou as paredes límpidas dos meus aposentos com frases do tipo "Entendeu, otário?", gramaticalmente corretíssimas com o uso da inicial maiúscula e a providencial separação entre verbo e vocativo, indício marcante de que ela continua sendo uma criatura muito superior e preparada.

À noite, quanto cheguei em casa exausto do trabalho, passei a chave na porta – sou sozinho, não sei por que sou incapaz de dividir a casa ou o que quer que seja com outra pessoa, ainda que seja uma pessoa igualzinha a mim – e, surpresa! Lá estava ela, abancada na poltrona que mandei projetar especialmente para as minhas medidas. Desavergonhada, de pernas abertas esticadas para o alto, comendo como uma porca faminta minhas pipocas de microondas e embebedando-se com minhas bebidas energéticas enquanto pulava de canal em canal entediada com a bosta da programação. Ensaiei um protesto mas, antes de abrir a boca em impropérios, lembrei assim por uma fração de segundos que não adiava espernear. Por que expulsá-la da minha poltrona personalizada se a esta altura eu já nem sei se ela – a poltrona – ainda me pertence? E o que dizer das pipocas, das bebidas? Se o mais importante, a casa, hipotecada, naturalmente, fugiu das minhas mãos e dos meus bolsos, eu ia dizer o quê?

E assim, não me restou nada além de tentar estabelecer uma convivência mínima – e, tanto quanto possível, civilizada, com a tal da Crise. Hoje de manhã ela trouxe as amigas – a Carestia (nunca vi moça mais cu doce), a Decadência (esnobe como ela só), e a pior de todas, uma tal de Ansiedade. Pense numa mulher de lhe tirar o juízo: é daquelas que falam sem parar, emendando um assunto no outro. Se você disser que tem um parente anão que canta igualzinho ao Julio Iglesias e ainda por cima é casado com uma mulher muda porém sensual como Maddona, pode ter certeza de que Ansiedade vai arranjar um caso parecido na família dela para lhe contar também. Para o almoço, a Crise, que já descobri ser uma pessoa muito coerente, preparou uns sanduíches de mortadela e discursou enfastiada dizendo que era pra todo mundo comer como se fosse caviar.

Isso tudo foi ontem. Hoje, e notem que não foi preciso mais do que um dia para isso acontecer, não é que já estou me acostumando com ela? Se servir como tranqüilizante para o mundo, declaro: diga ao povo que a Crise pode ficar. É perfeitamente possível conviver com ela. Com disse Marta, se a presença da Crise – aérea ou terrestre mesmo – é inevitável, relaxe e goze. Por falar nisso, convivendo assim sob o mesmo teto, posso dizer que a Crise nem é tão feia quanto parece. Pensando bem, até que ela tem umas perninhas...

segunda-feira, 1 de setembro de 2008

Obama segundo Veríssimo

Daqui de baixo, o gaúcho espia os acontecimento de lá de cima e traduz como ninguém o que se passa:

"Obama como hipótese era um candidato diferente, mais diferente do que qualquer outro na história do partido e do país. Obama confirmado provoca especulações sobre a viabilidade política do sonho. Especula-se que talvez ele seja diferente demais.

(...)

"a novidade que ele representa é a de um jovem com outras idéias, em contraste com o velho McCain, e não a de um enigma que se aproxima da Presidência para fazer ninguém sabe o quê. Esta última alternativa é a que a propaganda dos republicanos enfatizará, numa campanha que - segundo comentaristas americanos - já é uma das mais sujas da história. Pode-se imaginar que até as eleições de novembro um lado insistirá que Barack Obama é normal e outro que ele é um mistério de quem se pode esperar tudo, até o sacrifício de galinhas no Gabinete Oval"

terça-feira, 1 de abril de 2008

O rumo da manada

Na mesma FSP de hoje, Clóvis Rossi explica didaticamente aquela mudança de que falava na postagem anterior. Reproduzo para permitir a leitura pelos não assinantes, mas sobretudo para que você já passe a prestar atenção na forma como se dá o fenômeno da mudança de opinião. Repare como - Clóvis Rossi mesmo é um exemplo - o rebanho geral opinativo já vai mudando de caminho, com os colunistas à frente da manada:

"Do ponto de vista político, marca, claramente, alguma inflexão no "laissez-faire" cada vez mais absoluto que foi tomando conta do mundo desde que o Muro de Berlim caiu sobre a cabeça do intervencionismo estatal, cujos apóstolos nunca mais conseguiram sair com vida inteligente dos escombros. A partir daí, tornou-se virtualmente consensual que o Estado-empreendedor era um redondo fracasso. Mas deu-se também um passo adicional, o de supor que a incapacidade do poder público estendia-se à regulamentação, à vigilância da atividade econômica, em especial a financeira, e até à formulação de políticas."

Um novo consenso

A notícia bombástica que abre o dia na telinha do computador é sobre as decisões econômicas do governo dos Estados Unidos, que dá um passo para trás e, revendo tudo o que foi dito sobre mercados pelo menos nos últimos dez anos, revolve baixar um mínimo de regulação sobre o setor financeiro. Trecho do principal editorial da Folha de S. Paulo:

"Seja qual for o resultado dessa disputa, um aperto na normatização da finança mundial tornou-se indispensável. Como disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson: "A estrutura de nossa regulamentação não está adaptada a um sistema financeiro extremamente complexo, globalizado e heterogêneo". Mercados financeiros mal regulamentados e supervisionados tendem a exacerbar riscos na busca de ganhos extraordinários. Quando as bolhas estouram, o erário é chamado a salvar aventureiros, com prejuízos monumentais para toda a sociedade."

Li isso aí com a minha amiga pulga-atrás-dos-miolos gargalhando de rir às minhas costas (ou então dando aquela clássica risada entredentes do Rabugento, personagem do desenho animado de Hanna Barbera). É, pessoal: quem não entendeu a piada só precisa lembrar do que dizia o grosso dos economistas, políticos, presidentes, jornais, telejornais e revistas há dez anos. Um discurso como esse aí do editoral da FSP de hoje era considerado, naquela época, um absurdo completo. A própria FSP dizia, nos mesmos editoriais, exatamente o contrário - quanto menos regulamentação, melhor; regulamentação é atraso, liberação total é avanço; quem não concorda está morto e não sabe. Lembro de uma colega na redação do Correio Braziliense que, no auge daquela crise de 1999 - a da Rússia - com o mundo pegando fogo e nós também em conseqüência, dizia, conformada, sobre a dificuldade do governo FHC em tomar qualquer outra atitude além daquela mesma de não contrariar nem por um milímetro que fosse a ordem econômica mundial estabelecida. "Que opções a gente tem? Nenhuma", dizia ela.

Pois é, a decisão americana e o editorial da FSP de hoje mostram que o consenso (de Washington, que seguiremos todos que nem carneirinhos?) agora é outro - ou pelo menos, está começando a mudar. Isso quer dizer que vai ter também muita gente mudando de conversa, pra ficar em dia com a ordem, com a moda ou com a conveniência mesmo.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Afasta de mim esse cálice


Caminhei por esquinas variadas do mundo blogueiro e, enfim, encontrei uma voz a fazer frente à comemoração unânime. Estou falando do tal do "cala a boca" que o rei espanhol, Juan Carlos, passou no meu herói, vocês sabem quem, o camarada Chávez.
Encontrei mais rápido até do que esperava. E o inesperado é que vem de um sujeito com quem convivi durante um bom período. Eu trabalhava na sucursal da Bandeirantes aqui em Brasília quando, um certo dia, a redação passou a ser frequentada por um mineiro de cabelos brancos, fala mansa e observações sempre apropriadas, inesperadas (já naquele tempo a unanimidade barrava observações divergentes) e instigantes. Era Mauro Santayana, a quem me acostumei a chamar de "professor".
Hoje, trabalhando na Câmara, de vez em quando vejo o professor pelos corredores ou na lanchonete. Ele nem me reconhece, claro, o que só comprova o meu talendo para me fazer quase sempre uma critura invisível.

Santayana é uma das poucas coisas que ainda valem a leitura do Jornal do Brasil. E foi no seu artigo que ele comentou o "cala a boca", no texto transcrito abaixo. É meio extenso para o espaço de uma postagem, mas vale a leitura. Vejam, vejam:

A arrogância colonialista
O presidente Hugo Chávez é descuidado e franco no que fala. Usa, em sua retórica antiimperialista, metáforas quase divertidas, como chamar Bush de diabo. Mas não exagerou ao qualificar o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar de fascista. Aznar, produto típico da Opus Dei, que se reorganiza com novo alento na Espanha, sempre tratou a América Latina com desdém. Em 2002, em Madri, atreveu-se a dar ordens ao presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.
Conforme disse o próprio ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.
Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El País, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como "segunda conquista". A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente - longe dos jornalistas.
Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola - conforme o El País critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.
Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o "cala a boca" de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento - o que seria lógico no incidente.
Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale.

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Toque de recolher também vale para os poetas (mortos)


Meses atrás, o Blog de Adriano (de Sousa) publicou uma foto do enterro do poeta Pablo Neruda. O título era alguma coisa como "como morrem os poetas" e chamava a atenção, na foto - que não era propriamente do enterro, mas da caminhada rumo à sepultura - a pequena quantidade de pessoas presentes. Um cachorro sarnento metido ali no meio da triste caminhada também dava uma dramaticidade a mais à cena. Neruda, não custa lembrar, era um Nobel.

Lembro disso a propósito da postagem lá embaixo sobre o golpe no Chile. É que, na minha sessão de leitura de revistas velhas, achei, numa edição de pouco depois da derrubada de Salvador Allende, uma outra reportagem, sobre a morte de Neruda.

Pois é: Neruda morreu poucos dias depois do golpe, enquanto o Chile ainda se encontrava em estado de sítio. O Palácio de La Moneda foi bombardeado em 11 de setembro (essa data fatídica) e Neruda morreu no dia 23. Tinha câncer de próstata. Foi enterrado sob toque de recolher.

O mártir e o herói


Esta semana passei boas horas metido na biblioteca da UnB, lendo velhas publicações enquanto esperava Rejane prestar uma das muitas provas de admissão ao mestrado. Peguei uma encadernação pesada com edições da revista Manchete do ano de 1973. Tenho essa mania de gostar de ler textos datados publicados na imprensa em geral. Se me cai nas mãos uma edição da Folha de S. Paulo de qualquer dia do ano de 1984 sou capaz de traçá-lo todo com garfo, talher e muito pó de inseto de sobremesa.

Parei de folhear logo nas primeiras páginas porque achei de cara a reprodução da reportagem da revista Time, em que a publicação norte-americana narrava as circunstâncias, os bastidores e as primeiras e mais imediatas reações ao golpe com que Pinochet derrubou - dizem, assassinou - Salvador Allende. Pois é, era uma edição de setembro de 1973 e não havia, naquele momento, notícia internacional mais bombástica.

Matéria extensa, detalhada e - levando em conta o estado atual do jornalismo - bastante equilibrada. A revista especulava sobre o que esperar de Pinochet que, lembrem, era ministro de Allende, a cobra criada dentro de casa. Também destacava o caráter secreto e inesperado do golpe que, segundo o texto, ninguém previra. E ainda levantava as primeiras suspeitas de que os Estados Unidos de Nixon estavam por trás daquilo tudo (informando que os zéua vinham há tempos fornecendo armamentos para os militares chilenos, ao contrário do que acontecia com os outros "setores" da economia, submetidos a boicote branco).

Li tudo isso o tempo inteiro lembrando de... quem advinha? Hugo Chavez, claro, que pode ser considerado uma espécie de versão revisitada de Allende e, como tal, está sempre na alça de mira dos inimigos de qualquer mudança abaixo da linha do Equador. A diferença: ao contrário de Chavez, que tem seus poços de petróleo, o Chile de Allende estava, do ponto de vista puramente financeiro, na lona.

Isso também diz alguma coisa sobre Lula: moderados ou não, os novos líderes latinos de esquerda se preocupam antes em garantir um quadro econômico o mais equilibrado possível antes de arriscar qualquer forma menos ortodoxa de divisão do bolo.

Ficaram espertos Lula, Michelet e até o doidão do Chavez, a quem costumo chamar de "meu herói" (no que apenas imito nosso amigo Augusto Luiz, que ironizava a satanização de Sadam Hussein chamando-o assim).

Ficaram espertos, como dizia. Já não era sem tempo. Enquanto isso, no mundinho do PSOL...

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Segura essa

Lembra do alerta feito pelo professor Luiz Felipe de Alencastro no "entreblogs" lá embaixo? Se não leu, desça e passe os olhos. Depois, experimente segurar a batata quente abaixo, que deu o que falar mas eu, contumaz leitor de jornal velho, só agora vi na folha dos Marinho:

"James Watson, ganhador do Prêmio Nobel de medicina e um dos descobridores da estrutura do DNA, declarou sentir-se pessimista em relação ao futuro da África porque 'as políticas sociais (aplicadas lá) são baseadas no fato de que a inteligência deles (os africanos) é igual à nossa, embora todos os testes demonstrem o contrário'. Em entrevista, disse ainda que existe o desejo natural de todos os seres humanos sejam iguais, 'mas as pessoas que lidam com empregados negros descobrem que isso não é verdade'."