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quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 30 de dezembro de 2010
A cidade em chamas
Brasília está em polvorosa. Mas à maneira dela, claro. Isso significa dizer que a cidade está naquele clima de faxina doméstica às vésperas de uma festa familiar, do almoço que reúne os vários braços do clã, de primos distantes que chegam de avião aos tios do interior que trazem compotas para a sobremesa. É uma movimentação de limpeza de última hora, de ajustes finais, operários dependurados em prédios, cinegrafistas pendulando em arquibancadas improvisadas, grama sendo aparada, helicóperos batrulhentos em sobrevoos rasantes, militares e policiais ensaiando posturas e deslocamentos. Mas tudo, como dizia, à maneira local - ou seja, num clima de prévia da festa bem pouco animado. Com aquele indefectível espírito de cidade de servidor público que cumpre as normas, respeita horários, abraça padrões, sucumbe a protocolos. Brasília está em polvorosa, mas lenta como sempre nos finais de ano. Tudo por causa da posse de Dilma, como todas as posses ameaçadas pela chuvarada que nesta época do ano torna Brasília uma cidade ainda mais brasiliense, no seu silêncio de repartição e na sua arquitetura de comtemplação.
Talvez Brasília não tenha sido feita mesmo para se viver, mas para se olhar. Enquanto a gente tenta distrair uma comum e esperada depressão de fim de ano que caracteriza a cidade - todos os que podem vão embora, tiram ferias, viajam para seus torrões ou seus litorais - vendo os preparativos para a posse, fica e se impõe essa impressão de dias nublados. A feição de uma cidade que, de um urbanismo e arquitetura tão festejadas, parece que se basta em si, de maneira que se porvutura tem seus habitantes é apenas a pretexto de alguma figuração antropológica. Seríamos, seus moradores, qual avatares de uma realidade ilusória a serviço da moderna arquitura. Seríamos brinquedos vivos nas mãos do deus Niemmeyer, este homem imortal posto que é traço. E Brasília, esta cidade que só se justificaria de segunda a sexta, entre março e junho, agosto e novembro. Uma urbe sufocada por um calendário - ou por outra, por ele justificada. Sem espaço para datas vermelhas na folhinha.
Contra a corrente dos dias chuvosos e do céu branco, e sobre o cenário de clones da presidente testando esquemas para as solenidades da posse, somos salvos por uma outra expectativa, menos solene e mais sonhadora - a megasena milionária da passagem do ano. Enquanto na Câmara dos Deputados os plantonista tentam justificar sua presença dentro da gaiola de ângulos que o arquiteto criou, bolões e mais bolões de apostas circulam pelos corredores, gabinetes e demais desvãos. Há o bolão da Câmara, o bolão do Senado, o bolão da Rádio Câmara, o bolão tipo quarteto que sai a oitenta pratas - e a teimosia solitária, mas bem mais coerente com a Brasília de fim de ano, daqueles que se recusam à força coletiva da aposta conjunta e se lançam sozinhos rumo à lotérica mais próxima. Os azarados profissionais da paisagem, incapazes de acreditar na sorte das pessoas e do lugar. O habitante dos dias úteis, integrado ao céu nem sempre azulado e à arquitetura bem pouco funcional da cidade em polvorosa sob o céu aberto, embora nublado.
Talvez Brasília não tenha sido feita mesmo para se viver, mas para se olhar. Enquanto a gente tenta distrair uma comum e esperada depressão de fim de ano que caracteriza a cidade - todos os que podem vão embora, tiram ferias, viajam para seus torrões ou seus litorais - vendo os preparativos para a posse, fica e se impõe essa impressão de dias nublados. A feição de uma cidade que, de um urbanismo e arquitetura tão festejadas, parece que se basta em si, de maneira que se porvutura tem seus habitantes é apenas a pretexto de alguma figuração antropológica. Seríamos, seus moradores, qual avatares de uma realidade ilusória a serviço da moderna arquitura. Seríamos brinquedos vivos nas mãos do deus Niemmeyer, este homem imortal posto que é traço. E Brasília, esta cidade que só se justificaria de segunda a sexta, entre março e junho, agosto e novembro. Uma urbe sufocada por um calendário - ou por outra, por ele justificada. Sem espaço para datas vermelhas na folhinha.
Contra a corrente dos dias chuvosos e do céu branco, e sobre o cenário de clones da presidente testando esquemas para as solenidades da posse, somos salvos por uma outra expectativa, menos solene e mais sonhadora - a megasena milionária da passagem do ano. Enquanto na Câmara dos Deputados os plantonista tentam justificar sua presença dentro da gaiola de ângulos que o arquiteto criou, bolões e mais bolões de apostas circulam pelos corredores, gabinetes e demais desvãos. Há o bolão da Câmara, o bolão do Senado, o bolão da Rádio Câmara, o bolão tipo quarteto que sai a oitenta pratas - e a teimosia solitária, mas bem mais coerente com a Brasília de fim de ano, daqueles que se recusam à força coletiva da aposta conjunta e se lançam sozinhos rumo à lotérica mais próxima. Os azarados profissionais da paisagem, incapazes de acreditar na sorte das pessoas e do lugar. O habitante dos dias úteis, integrado ao céu nem sempre azulado e à arquitetura bem pouco funcional da cidade em polvorosa sob o céu aberto, embora nublado.
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
quarta-feira, 30 de setembro de 2009
quarta-feira, 2 de setembro de 2009
segunda-feira, 24 de agosto de 2009
Chegadas
Viajar sem expectativas é o melhor pacote que agência nenhuma oferece. Derrubado por febres vespertinas, segui para Natal e Acari achando que sofria de alguma espécie de gripe asinina. O resultado foi que passei praticamente todo o final da festa de Nossa Senhora da Guia enfurnado em casa enquanto os festejos corriam lá fora. Não que eu seja muito chegado a festejos, mas andar por aí é uma maneira e tanto de aproveitar o clima festivo que toma conta da cidade no mês de agosto. O fato é que, na casa de Sandra, no coração da rua da Matriz, mesmo incapacitado de sair pelas ruas, basta ter ouvidos atentos e olhos para ver que a festa vem até você. Como um presente inesperado - um bônus que agência de viagem alguma banca ao turista desavisado.
E assim foi: logo na chegada a Acari, antes de o carro pisar propriamente na cidade, uns clarões no céu à esquerda da BR 226 chamavam a atenção. "Seriam relâmpagos?", especulamos. Não era chuva nem raio nem trovão - eram os fogos que enfeitam o céu ao final da novena, encerrada bem na hora em que a gente chegava à cidade. E o mais incrível: nunca houve melhor visão dos fogos noturnos da festa de agosto do que aquela que tivemos, nós e os meninos (sobretudo os meninos, que aproveitaram ainda mais impressionados este momento), ali de dentro do carro, chegando ao nosso destino, exaustos depois de quatro horas de voo e duas de estrada. Um belo presente, quanto maior a coincidência proporcionada pelo momento.
Depois, na manhã seguinte, bem cedinho, desperto com os sopros da banda, tocando a alvorada. Outro presente não prometido nos planos da viagem, mas apenas uma prévia do que viria à noite. É que a minha febre vespertina de cinco dias se tornava particularmente insuportável ao cair da noite. Então, lá do quarto, tentando colocar curativos mentais nas minhas juntas doloridas , ouço a banda descendo a rua. Fico com pena - queria ir lá fora, dar uma olhada, acompanhar um pouco, levar Bernardo e Cecília. É quando a banda ataca logo "Royal Cinema", a composição que me inspirou a escrever a peça "Valsa na Varanda" - uma música que, sem qualquer ranço oficial, bem poderia ser o hino nacional do Seridó. Acontece então que o som da banda se torna cada vez mais forte, como se tivesse interrompido a descida da rua, no rumo da praça principal. Como se os músicos estivessem tocando ali em frente de casa: pois estavam. Levantei, fui até a janela e ganhei de presente um rápido concerto - pago pelos vizinhos, tenho que reconhecer (e serei sempre grato a eles).
Na volta a Brasília, depois da rápida temporada em Natal, chegamos ontem à noite, noite de domingo, a capital escura, silenciosa e calma como Natal não tem sido, aqueles vácuos do cerrado, aqueles desertos. Mas então, garagem aberta, bagagens descarregadas, banho tomado, cai aquela chuva sonora, constante, quase cenográfica - algo extramemente raro em Brasília neste época do ano. A chuva continuou a noite inteira, deu pra dormir com essa trilha sonora inesperada, foi possível continuar respirando por aqui um pouco da umidade que se respira por lá. Um outro presente de chegada, imprevisto e marcante, do tipo que agência de viagem nenhuma pode prometer, por preço nenhum neste mundo.
E assim foi: logo na chegada a Acari, antes de o carro pisar propriamente na cidade, uns clarões no céu à esquerda da BR 226 chamavam a atenção. "Seriam relâmpagos?", especulamos. Não era chuva nem raio nem trovão - eram os fogos que enfeitam o céu ao final da novena, encerrada bem na hora em que a gente chegava à cidade. E o mais incrível: nunca houve melhor visão dos fogos noturnos da festa de agosto do que aquela que tivemos, nós e os meninos (sobretudo os meninos, que aproveitaram ainda mais impressionados este momento), ali de dentro do carro, chegando ao nosso destino, exaustos depois de quatro horas de voo e duas de estrada. Um belo presente, quanto maior a coincidência proporcionada pelo momento.
Depois, na manhã seguinte, bem cedinho, desperto com os sopros da banda, tocando a alvorada. Outro presente não prometido nos planos da viagem, mas apenas uma prévia do que viria à noite. É que a minha febre vespertina de cinco dias se tornava particularmente insuportável ao cair da noite. Então, lá do quarto, tentando colocar curativos mentais nas minhas juntas doloridas , ouço a banda descendo a rua. Fico com pena - queria ir lá fora, dar uma olhada, acompanhar um pouco, levar Bernardo e Cecília. É quando a banda ataca logo "Royal Cinema", a composição que me inspirou a escrever a peça "Valsa na Varanda" - uma música que, sem qualquer ranço oficial, bem poderia ser o hino nacional do Seridó. Acontece então que o som da banda se torna cada vez mais forte, como se tivesse interrompido a descida da rua, no rumo da praça principal. Como se os músicos estivessem tocando ali em frente de casa: pois estavam. Levantei, fui até a janela e ganhei de presente um rápido concerto - pago pelos vizinhos, tenho que reconhecer (e serei sempre grato a eles).
Na volta a Brasília, depois da rápida temporada em Natal, chegamos ontem à noite, noite de domingo, a capital escura, silenciosa e calma como Natal não tem sido, aqueles vácuos do cerrado, aqueles desertos. Mas então, garagem aberta, bagagens descarregadas, banho tomado, cai aquela chuva sonora, constante, quase cenográfica - algo extramemente raro em Brasília neste época do ano. A chuva continuou a noite inteira, deu pra dormir com essa trilha sonora inesperada, foi possível continuar respirando por aqui um pouco da umidade que se respira por lá. Um outro presente de chegada, imprevisto e marcante, do tipo que agência de viagem nenhuma pode prometer, por preço nenhum neste mundo.
sexta-feira, 21 de agosto de 2009
A procissão
A melhor maneira de se deixar impactar pelo calor da procissão não é, necessariamente, juntar-se a ela e caminhar entre cânticos e orações pelos paralelepípedos poéticos da cidade. Há uma maneira alternativa, que é esperar por ela em qualquer ponto das imediações da igreja matriz. Quem fizer isso, de uma janela, uma cadeira na calçada ou escorado num poste de iluminação pública, vai assistir a um rico curta metragem sobre o povo brasileiro. Basta ter olhos para filmá-lo, e ouvidos para saber editar mentalmente os restos de conversas, ruídos e fiapos de música distante que também fazem parte deste momento.
Derrubado por uma virose de oito dias, o corpo esmigalhado por um dor que parecia querer me derreter as juntas, sonolência drogada causada por um antibiótico, não pude acompanhar a procissão de Nossa Senhora da Guia, o rito de encerramento da festa da padroeira de Acari, RN, onde o Sopão mantém desde a noite de quarta-feira seu posto de observação dos rituais da vida. Incapacitado para caminhar, mas não para contemplar, instalei-me entre a cadeira da calçada, a janela e o portal de casa, aqui na rua da Matriz, para esperar a procissão chegar. Dezenas de pessoas fizeram o mesmo, não sei por quais motivos. O fato é que a simples reunião destas pessoas neste lugar já fornece material áudio-visual mais que suficiente para o filme começar. Liguei minha câmera. Me acompanhe.
Velhos se reencontram, trocam abraços afetuosos. Homens e mulheres, cabelos brancos, roupas de festa, visivelmente gente que passou a juventude se não junto, pelo menos próximo. A revelação da saudade no olhar – saudade do amigo e saudade deles mesmos, algum tempo atrás. Do outro lado da rua, a família de posses escorada no carro reluzente. Cintos que combinam com sapatos. Grandes óculos de sol como os de antigamente. Os loucos do interior, a mulher que grudou uma sacola de supermercado na bolsa e distrai um grupo de crianças enquanto é motivo de chacota para um grupo de mulheres bem vestidas escoradas nas paredes. O olhar do trabalhador braçal, negro, forte e desgastado, o homem comido pelo tempo antes da hora mas ainda assim resistente e que lidera a família de caboclos no esperado dia de festa. A velhinha com cara de Madame Mim de Walt Disney que passa apressada com a roupa de festa por baixo de uma túnica azul meio transparente, uma visão meio Glauber Rocha – aquele azul berrante e no entanto translúcido, chinelas de dedo, como a última integrante de uma congregação cujos membros já foram todos para o além ou pertencem todos a um tempo que definitivamente acabou. Uma sobrevivente de Canudos desfilando sua teimosia azul nas ruas de Acari, como a praguejar silenciosamente contra os males nunca sanados da República.
E então uma chuva de foguetões anuncia que a procissão está chegando ao pátio da Matriz. A cada luz que explode no céu, acende-se uma centelha de fé no olhar do quem espera cá embaixo. A banda ataca um antigo tema de festas populares e enche a rua com um sopro de algo poderoso, como se levantasse a poeira invisível e benfazeja de um lençol de fé que a tudo deseja cobrir. Olho para Bernardo se balançando na cadeira de criança enquanto assiste comigo à chegada da procissão, lembro imediatamente do avô dele, Chico Torres, que fisicamente não está mais aqui com a gente (e, se estivesse, certamente estaria presente neste momento) e sinto os olhos cheios de água. A procissão finalmente chega, espalhando sua multidão em cada recanto do pátio e da rua da Matriz. Logo virão os sermões e os vivas a Nossa Senhora da Guia. Rejane chega trazendo Cecília adormecida no braço. Dormiu a procissão quase toda, o outro anjo daqui de casa.
Mas o momento mais verdadeiro - por espontâneo - já passou. É aquele vácuo que se dá quando a procissão ainda não chegou, criando um momento que deixa ler em todos os olhares um certo espírito de espera por alguma coisa dispersa no ar. Fé, fraqueza, esperança ou incerteza, tudo isso pode ser, chame como quiser. Mas esteja certo de que é algo que se dissolve instataneamente tão logo a imagem da padroeira surge pronta para subir ao altar. Revelador, finito, rico até em sua tristeza. É assim o momento que antecede a chegada da procissão.
Derrubado por uma virose de oito dias, o corpo esmigalhado por um dor que parecia querer me derreter as juntas, sonolência drogada causada por um antibiótico, não pude acompanhar a procissão de Nossa Senhora da Guia, o rito de encerramento da festa da padroeira de Acari, RN, onde o Sopão mantém desde a noite de quarta-feira seu posto de observação dos rituais da vida. Incapacitado para caminhar, mas não para contemplar, instalei-me entre a cadeira da calçada, a janela e o portal de casa, aqui na rua da Matriz, para esperar a procissão chegar. Dezenas de pessoas fizeram o mesmo, não sei por quais motivos. O fato é que a simples reunião destas pessoas neste lugar já fornece material áudio-visual mais que suficiente para o filme começar. Liguei minha câmera. Me acompanhe.
Velhos se reencontram, trocam abraços afetuosos. Homens e mulheres, cabelos brancos, roupas de festa, visivelmente gente que passou a juventude se não junto, pelo menos próximo. A revelação da saudade no olhar – saudade do amigo e saudade deles mesmos, algum tempo atrás. Do outro lado da rua, a família de posses escorada no carro reluzente. Cintos que combinam com sapatos. Grandes óculos de sol como os de antigamente. Os loucos do interior, a mulher que grudou uma sacola de supermercado na bolsa e distrai um grupo de crianças enquanto é motivo de chacota para um grupo de mulheres bem vestidas escoradas nas paredes. O olhar do trabalhador braçal, negro, forte e desgastado, o homem comido pelo tempo antes da hora mas ainda assim resistente e que lidera a família de caboclos no esperado dia de festa. A velhinha com cara de Madame Mim de Walt Disney que passa apressada com a roupa de festa por baixo de uma túnica azul meio transparente, uma visão meio Glauber Rocha – aquele azul berrante e no entanto translúcido, chinelas de dedo, como a última integrante de uma congregação cujos membros já foram todos para o além ou pertencem todos a um tempo que definitivamente acabou. Uma sobrevivente de Canudos desfilando sua teimosia azul nas ruas de Acari, como a praguejar silenciosamente contra os males nunca sanados da República.
E então uma chuva de foguetões anuncia que a procissão está chegando ao pátio da Matriz. A cada luz que explode no céu, acende-se uma centelha de fé no olhar do quem espera cá embaixo. A banda ataca um antigo tema de festas populares e enche a rua com um sopro de algo poderoso, como se levantasse a poeira invisível e benfazeja de um lençol de fé que a tudo deseja cobrir. Olho para Bernardo se balançando na cadeira de criança enquanto assiste comigo à chegada da procissão, lembro imediatamente do avô dele, Chico Torres, que fisicamente não está mais aqui com a gente (e, se estivesse, certamente estaria presente neste momento) e sinto os olhos cheios de água. A procissão finalmente chega, espalhando sua multidão em cada recanto do pátio e da rua da Matriz. Logo virão os sermões e os vivas a Nossa Senhora da Guia. Rejane chega trazendo Cecília adormecida no braço. Dormiu a procissão quase toda, o outro anjo daqui de casa.
Mas o momento mais verdadeiro - por espontâneo - já passou. É aquele vácuo que se dá quando a procissão ainda não chegou, criando um momento que deixa ler em todos os olhares um certo espírito de espera por alguma coisa dispersa no ar. Fé, fraqueza, esperança ou incerteza, tudo isso pode ser, chame como quiser. Mas esteja certo de que é algo que se dissolve instataneamente tão logo a imagem da padroeira surge pronta para subir ao altar. Revelador, finito, rico até em sua tristeza. É assim o momento que antecede a chegada da procissão.
quarta-feira, 25 de fevereiro de 2009
A grande cidade
Equador, Junco, Soledade, Juazeirinho. Não são apenas nomes de cidades do sertão da Paraíba, são um hino cantado a plenos pulmões pela boca seca da memória. De Parelhas a Campina Grande, as notas dessa canção em branco e preto vão sendo levadas no ar, como instrumentos que tocassem à janela de velhos ônibus, margeando incríveis cercas serranas feitas de pedras pretas, bem empinhadinhas, arte sertaneja exposta em museu vivo de beira de estrada. Estou refazendo, muitos anos depois, o percurso que primeiro me despertou a ansiedade de saltar bem alto da calçada que minha rua não tinha e ir cair lá longe, no coração da metrópole ao alcance da passagem da Jardinense.
O nome do lugar era Campina Grande. E lá havia uma rodoviária repleta de placas, lojas, bancas, ambulantes, sirenes, anúncios, doces, barulhos, carros e asfaltos - lá havia a vida que a minha rua, pobre, doce e quieta, me negava. Lá havia um imenso supermercado na boca de um açude gigantesco, o Híper e o Açude Velho, marcos visuais de uma idéia de grandeza. Havia tias adotivas que compreendiam essa ansiedade - Terezinha e Maria da Luz -, como havia a diversão garantida na companhia de primos igualmente regidos pelos laços não sanguíneos das afinidades mais espontâneas- as irmãs Jeane e Roseane, mais Afonso e Augusto, este primo de verdade e interiorano como eu. Havia a luz fosca mas já então deliciosa da televisão sem cores da Tupi, como havia uma radiola de onde brotavam interessantes musicalidades bastando para tanto que se colocasse um disco de Roberto Carlos ou da Orquestra Som Bateau. "Você meu amigo de fé, meu irmão camarada." Existia, e a esta altura já deve estar claro - se não estiver, a ineficiência da crônica inviabiliza o poema, mas paciência - um pacote de lugares, pessoas, imagens, sons e manifestações que conformavam o retrato da grande cidade brasileira dos anos setenta, com seu esplendor infantil e sua inocência continental.
Refazer o percurso que me levava a esse paraíso emoldurado foi, sim, colocar em risco o patrimônio da memória. Mas, felizmente, findo o caminho, não só a boa memória foi preservada como saiu meio que remasterizada em nova edição que salienta as cores, a intensidade, o vigor de momentos vitais para o menino que fizeram mais forte e verdadeiro o homem. Nem o cinema Capitólio detonado foi capaz de estragar o processo. E ainda deu pra rever, de dentro do carro mesmo - que todas as cidades cresceram muito e agora já não é tão fácil parar em qualquer ponto só pra apreciar a paisagem - o Açude Velho. A Vila do Sesc, meu Deus, como estará? A Praça da Bandeira, onde eu me abastecia de números difíceis da revista de Tex, também ficou para outra vez. Numa estada do tipo para pro almoço e seguir pra João Pessoa não deu para ir até lá. Mas o oitão vermelho do Híper ainda me sorriu como um velho amigo enquanto o carro girava na esquina do tempo.
O nome do lugar era Campina Grande. E lá havia uma rodoviária repleta de placas, lojas, bancas, ambulantes, sirenes, anúncios, doces, barulhos, carros e asfaltos - lá havia a vida que a minha rua, pobre, doce e quieta, me negava. Lá havia um imenso supermercado na boca de um açude gigantesco, o Híper e o Açude Velho, marcos visuais de uma idéia de grandeza. Havia tias adotivas que compreendiam essa ansiedade - Terezinha e Maria da Luz -, como havia a diversão garantida na companhia de primos igualmente regidos pelos laços não sanguíneos das afinidades mais espontâneas- as irmãs Jeane e Roseane, mais Afonso e Augusto, este primo de verdade e interiorano como eu. Havia a luz fosca mas já então deliciosa da televisão sem cores da Tupi, como havia uma radiola de onde brotavam interessantes musicalidades bastando para tanto que se colocasse um disco de Roberto Carlos ou da Orquestra Som Bateau. "Você meu amigo de fé, meu irmão camarada." Existia, e a esta altura já deve estar claro - se não estiver, a ineficiência da crônica inviabiliza o poema, mas paciência - um pacote de lugares, pessoas, imagens, sons e manifestações que conformavam o retrato da grande cidade brasileira dos anos setenta, com seu esplendor infantil e sua inocência continental.
Refazer o percurso que me levava a esse paraíso emoldurado foi, sim, colocar em risco o patrimônio da memória. Mas, felizmente, findo o caminho, não só a boa memória foi preservada como saiu meio que remasterizada em nova edição que salienta as cores, a intensidade, o vigor de momentos vitais para o menino que fizeram mais forte e verdadeiro o homem. Nem o cinema Capitólio detonado foi capaz de estragar o processo. E ainda deu pra rever, de dentro do carro mesmo - que todas as cidades cresceram muito e agora já não é tão fácil parar em qualquer ponto só pra apreciar a paisagem - o Açude Velho. A Vila do Sesc, meu Deus, como estará? A Praça da Bandeira, onde eu me abastecia de números difíceis da revista de Tex, também ficou para outra vez. Numa estada do tipo para pro almoço e seguir pra João Pessoa não deu para ir até lá. Mas o oitão vermelho do Híper ainda me sorriu como um velho amigo enquanto o carro girava na esquina do tempo.
sábado, 27 de setembro de 2008
Linda Baby veio me visitar
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Linda baby tarda, mas não falha. Desta vez, nem demorou. Chegou ontem à noite e me encontrou descansando da trabalheira da semana no sofá da sala, meia luz interior, azulão de chuva e bem vindos relâmpagos lá fora. Linda Baby entrou sem fazer barulho, caminhou pisando mansinho no chão frio e, me vendo recostado e quase adormecido, naquele estágio entre a vigília precária e o sono desaba cabeça, soprou levemente em meu ouvido. “Essa é uma terra de um Deus mar, volte sempre aqui.”
Tão bom, com um sabor de dezembros que faria milionária a indústria alimentícia, tais palavras no meu cangote anunciaram a chegada daquele surto anual que invariavelmente me acomete por esses setembros com sabores antecipados de outubros. É a velha e boa saudade daquela Natal pretérita que deve assaltar todos os natalenses residentes quando das primeiras chuvas do caju. Aqui, distante mas nem tanto, ela me chega com a primeira boa, generosa, cheia e sonora chuva que encerra a seca brasiliense. E foi ontem que tais fatos se deram, razão pela qual o dia 26 de setembro ganhou um xis especial no calendário de mi vida em 2008.
Dois fatos acachapantes, rotundos e resplandescentes para demarcar o que o dia a dia apaga com sua borracha viciada, comum e automática. A chegada da tão esperada primeira chuva brasiliense de verdade que em questão de dias terá lavado da paisagem todas as folhas secas que nossos olhos foram obrigados a engolir sem saliva nas últimas semanas. E a chegada, não menos festejada embora mais agreste e sentimental, da garota Linda Baby, aquela cidade menina feita canção com nome pop de mulher, presente na composição de Pedro Mendes.
“Isso é Natal, ninguém se dá muito mal como dizem pessoas quase sem se sentir.” Será que ainda é assim – e depois do próximo domingo, ainda será?
Fique aqui comigo, Linda Baby. Mas se precisar sair, volte logo. Que seja só o tempo de votar.
quinta-feira, 11 de setembro de 2008
Olfato urbano
Natal tem cheiro de protetor solar, com uma pitada de sal. O cheiro que me leva ao Recife, esteja eu onde estiver, é aquele de uma palmeira muito caractérista de lugares à beira mar, misturado com um odor de lama mesclada a mangue. É um dos melhores cheiros do mundo. Cheiro de humanidade. Caicó cheira a café torrado - onde quer que eu sinta aquele cheiro imediatamente me transporto para a avenida Coronel Martiniano. Se esse cheiro de café moído vier com um certo mormaço seco de asfalto bem quente, então a transmutação é ainda melhor.
Se computador pudesse exalar cheiros e postagens fossem como cartas de papel, eu iria afundar esse texto nas fragâncias esparças que costumam ocupar minhas narinas durante essas caminhadas matinais que eu, como todo mundo hoje em dia, faz para compensar o lado sendentário e dominante da vida. Algumas horas atrás, lá estava eu caminhando daqui da 316 Norte para a 216 logo abaixo e, de lá, tomando o rumo para o Parque Olhos D'água, onde dei minha volta habitual. Você há de pensar que os tais cheiros surgiram nas alamendas do parque, mas não. Nem é preciso chegar lá para tanto. Na verdade, numa alamedinha nos fundos da comercial da 216 surgiu um cheirão doce de perfume usado em cidade do interior nos anos 70. Um cheiro de vidrinho de amostra grátis, um aroma de gente simples arrumado para a procissão da festa do padroeiro. Na hora - estava a caminho do parque - achei que vinha de uma moça que passou por mim, caminhando no sentido contrário, com cara, roupa e jeito de quem segue para o ponto de ônibus. Mas, na volta para casa, passei pelo mesmíssimo lugar e o cheiro reapareceu em toda sua intensidade.
Domingo, enquanto assistia ao show das bandas aqui na quadra de esportes da 316 (vide postagem anterior, "316 Musical"), senti, pouco depois do cheiro, pra mim muito agradável e evocativo, da velha "canabis", um outro sabor olfativo, diferente, meio seco, meio áspero, bastante rústico, um cheiro que eu diria amarelo como a paisagem da cidade nesta época. Também não sei de onde vem. Imagino que tanto este quanto o outro, adocicado, que senti hoje, venha das árvores que se espalham por todo o Plano Piloto, um dos espaços urbanos mais arborizados do país. Você passa sob as árvores e elas, junto com as folhas secas - e em muitos casos flores também - que delicamente enviam ao chão, liberam também seus perfumes particulares, essências de madeiras e fibras e pétalas meticulosamente trabalhadas pela química da natureza.
Dizem os espíritas que sentir cheiros inexplicáveis é também uma forma de mediunidade - que tais perfumes vêm de entidades iluminadas ocasionalmente presente entre nós. Uma vez, cumpri uma promessa que fiz a mim mesmo e, durante um mês, toda noite, por volta das 22h, saía de casa para dar comida aos gatos de rua. Na época, morava na 212 Norte - e por toda a Asa Norte o que tem de gato faminto nas quadras e entrequadras não é brincadeira. Pois bem: houve uma noite, noite de chuva, em que, passando por uma pracinha improvisada na esquina da 412 Norte (não estranhe: aqui tem esquina sim, só que um pouco diferente do convencional) senti um cheiro inesperado e inesquecível. Na hora, lembrei da tese dos espíritas e gostei da sensação. Mas não vi espírito nenhum. Se houve mediunidade, foí só olfativa mesmo. E não foi pouco. E se não veio de espírito propriamente dito, veio da alma da natureza mesmo. O que também nunca é pouco.
segunda-feira, 8 de setembro de 2008
Folhas secas
Nestes dias inclementes de setembro, Brasília não é só a capital do país. É a capital da folha seca. É como se todas as folhas secas do mundo repentinamente decidissem se reunir aqui, em congresso de amarelo-cinza. Dispensam aeroportos, mas chegam pelo céu. Em torrentes calmas, num desabar que muitas vezes lembra uma valsa dançada sem música. Uma chuva, de outra natureza. E que não cai em espirro líquido sobre o chão, mas resvala em câmera lenta, embora em massa, como se fora uma frota de objetos voadores não identificados em efeitos especiais de filmes de ficção científica. Uma vez pousadas no barro vermelho do planalto, as alienígenas e invasoras folhas secas têm curiosamente a capacidade de fazê-lo mais telúrico ainda, esmaecendo tudo com uma colocação meio sépia, muito seca. Amarelo nem um pouco manga - amarelo deserto.
Nas ruas, você só precisa ir à esquina (elas existem, cuidado com as lendas), à padaria ou ao ponto de táxi para notar que a invasão se consumou. Folhas secas dão seus rasantes indiferentes ao deslocamento da população local. Nos bosques urbanos que são muitos, entre edifícios e postos de gasolina, que também são muitos, as folhas secas vão se acumulando em camadas como se tivessem o plano traçado e muito bem arquitetado de encobrir, lenta mas inexoravelmente, tudo, até o último andar das torres do Congresso. A verdadeira guerra dos mundos - há mais vida inteligente numa inerte folha seca do que supõe o vã Orson Welles que há em cada um de nós. Indiferentes ao perigo extraterrestre, as crianças gostam de brincar de escorregar nas muitas camadas deste segundo chão de folhas secas - solo farfalhante de colchão de secura, o algodão que tal estação planta sob os 15 por cento de umidade a que cada morador de Brasilia tem direito todo setembro de cada ano.
Não é incomum que o habitante local, sitiado por ar tão seco e chão tão desidratado e quebradiço, veja-se tomado por mirações psicodélicas - fenômeno perfeitamente natural quando se está nas ruas no horário compreendido entre 12h e 16h. Nessas horas, já me aconteceu de imaginar que cada uma daquelas tantas folhas secas seja, na verdade, um punhado de palavras disfarçadas que, agregadas no chão dos canteiros, formam frases de tradução impossível para quem não domina as cem mil forças da natureza, terrestre ou não. Quando é assim, leio de tudo na folha que cai ou na folha que descansa no chão. Sentenças sobre a vida e a morte em forma de gravetos a um estalo da decomposição total. Poemas vegetarizados em fibras esturricadas do que um dia foram folhas vívidas de boas intenções verdes. Ramos emagrecidos e vacilantes que ensaiam um discurso sobre o tempo mas desistem ante a seca constatação de que não vale a pena procurar palavras para expressar tamanho e feliz desânimo. Livros são escritos neste rumorejar hermético de antiflorações de setembro. Livros são apagados pelo mero poder de uma simples lufada de vento quente. Um escrevinhar que dura até meados de outubro - e lava seu palavreado de vez com as chuvas verdadeiras de novembro.
P.S: Cecília, dia desses, na caminhada que faz da nova escola onde agora freqüenta o Maternal II, atravessando calçadas simpáticas, mendigos bacanas, pequenos bosques planejados e uma avenida movimentada, olhou para o alto e disse que as árvores choram quando as folhas caem. É a segunda imagem que ela organiza na cabeça. A outra, quem leu aqui deve lembrar, é a "lua quebrada", como ela chamou a meia lua de uma noite especial.
segunda-feira, 1 de setembro de 2008
Dança da chuva em Brasília
Na postagem anterior, o Sopão sugeria, com alguma sutileza, que uma visita a Brasília pode não ser exatamente uma passagem para o tédio como supõe a vã e gasta imagem que a capital do país transmite aos cidadãos que não moram aqui. Pois bem: tem mais. Neste final de semana, se a gente tivesse encomendado a Rejane uma bela programação urbano-cultural para toda a família, talvez ela não tivesse caprichado tanto. Duvida? Experimente ler esta outra postagem até o (distante) fim.
Sábado de sol forte, umidade baixa e um estranho ar de que, sim, apesar da seca inclemente típida desta época, havia uma possibilidade de chuva no ar. Veremos. Saímos de casa na hora do almoço, devidamente resolvido numa churrascaria acessível do shopping Pátio Brasil. Para digerir, o primeiro item da agenda providenciada por Rejane: visita à Feira do Livro, um evento já tradicional em Brasília, que acompanhamos desde que aqui chegamos, já lá se vão uns 13 anos. A Feira do Livro acontece, já há algumas edições, nas amplas calçadas desse mesmo shopping onde almoçamos. Ao contrário dos eventos do tipo que acontecem em Natal, por exemplo, tenho que dizer que é mais uma oportunidade de adquirir livros interessantes por um bom preço do que um espaço para discussões literárias ou afins. Há palestras, homenagens, sempre um escritor tomado como tema (este ano foi o poeta Thiago de Melo), mas o forte mesmo é o consumo.
E não é que seja ruim: saí da Feira do Livro deste ano com um exemplar do Dicionário de Cineastas de Rubem Ewald Filho (um crítico que não está entre meus preferidos, mas é sempre uma referência) por módicos R$ 10,00. Também comprei uma coletânea de textos de teatro de Miguel Falabela e Maria Carmem Barbosa (tenho grande curiosidade pelos textos porque das poucas peças de teatro a que assisti, uma foi "A Partilha", de que gostei e que infelizmente não está no livro) por ainda mais módicos R$ 5,00. E ainda levei, de lambuja, por igualmente módicos R$ 5,00, um exemplar de "O quieto animal da esquina" - coisa fina, biscoito gaúcho de João Gilberto Noll, que é pra vocês não largarem a leitura por aqui achando que meu nível de consumo, embora econômico nos gastos, está anêmico nos conteúdos.
Depois da Feira do Livro, aí pelas 17h, já tínhamos outro compromisso marcado por Rejane: ir ao Conjunto Cultural da Caixa Econômica para assistir ao espetáculo "Cantigas de Trabalho", do grupo de artistas e pesquisadores "Cabelo de Maria". Como o nome indica, é um pocket show tão mínimo e artesanal quanto verdadeiro e próximo de quem o assiste, feito todo sobre canções tradiconais usadas em comunidades pelo Brasil afora enquanto se realiza algum trabalho - debulhar milho, pilar sementes. Uma apresentação de ar brejeito e sonoridade toda acústica, quase uma canção de ninar para adultos, poucos mas entusiasmados, reunidos num espaço único que rende um parágrafo.
Há 13 anos em Brasília, o fato é que nunca havíamos ido ao Conjunto Cultural da Caixa, composto por teatro e café num prédio e, no outro, logo em frente, espaço para exposições e, como vimos no parágrafo anterior, palco improvisado. Ficamos espantados com a beleza do interior do prédio-sede da Caixa Econômica em Brasília. Por fora, é um prédio meio feio, redondo, que pela forma se destaca na paisagem da cidade - meio que compondo um paralelo com o prédio do Banco Central, aquele que parece formado por caixotes pretos suspensos. O da Caixa parece uma... caixa d'água comum. Isso por fora, porque lá dentro a coisa muda de figura.
Acontece que os blocos de concreto gigantes que, superpostos, dão uma forma arredondada ao prédio da CEF, são na verdade molduras para um conjunto de imensos vitrais. Por fora isso passa derpercebido, mas quando você entra - especialmente se for no final da tarde, com o sol naquele amarelado típido da seca brasiliense - a impressão é de que se está penetrando numa catedral de cristais coloridos. Sombras de vários tons preenchem o largo vão interno, de onde parte uma escadaria em espiral. Lembrei, assim de relance, do Mercado Municipal de Fortaleza. Mas aqui na CEF há os vitrais gigantes, cada um representante um estado brasileiro. O de Minas é de babar, com aqueles profetas do Aleijadinhos estilizados se derramando em acrílicos trespassados pela luz da tarde. O do RN, dada a idade do prédio que, não sei mas imagino datar dos anos 70, mostra apenas pescadores, jangadeiros, salinas e afins - ícones de uma era pré-Ponta Negra e turismo de massa.
Vistos de longe, o conjunto de vitrais enche os olhos do visitante. Vale a pena passar por lá mesmo que não esteja em cartaz um show como o "Cantigas de Trabalho". Infelizmente, não levei a máquina fotográfica para completar a postagem com uma imagem que leve o leitor do Sopão visualmente a este espaço. Se encontrar na internet, prometo colocar. E se eu disser que, à noite, ali ao lado, no teatro, iria acontecer mais um espetáculo da "Cena Contemporânea", o festival de teatro que nesta época movimenta a cidade você vai entender melhor porque aquela história de capital do tédio é coisa dos anos 80 (se é que era mesmo, vide o rock brasiliense de então).
Mas a programação cultural não acabou aí, não. Noite instalada, seguimos para o final da Asa Sul, onde acontece durante todo este mês a tradiconal quermesse do templo budista da cidade. Brasília, é preciso que se diga antes de mais nada, adora uma quermesse. Aqui, quermesse não é algo visto como festa de carolas como acontece em qualquer outro lugar do país. Aqui, quermesse é pop, meus amigos. Nada mais pop, então, do que uma quermesse promovida por um templo budista. A fila do macarrão ia-qui-sso-ba era quilométrica - mas você olhava para as caras das pessoas esperando e elas tinham aquele arsinho de riso meio dalai-lama. No palco, garotos e garotas faziam exibições de karatê. Nas bancas, toda sorte de mercadorias de ascedência oriental.
E, acreditem, no céu, inesperados pingos de chuva em plena seca de Brasília. O dia seguinte, domingo, amanheceu brancão. Logo o brancão, qual espuma redentora apertada pelas mãos de um deus piedoso, transformou-se em chuva em pontos localizados da cidade.
Choveu lá em casa, choveu forte ali em frente ao Conjunto Nacional, o ar da noite estava bem melhor. Quem sabe, resultado da dança da chuva que foi a programação que Rejane bolou pra gente no fim de semana.
Sábado de sol forte, umidade baixa e um estranho ar de que, sim, apesar da seca inclemente típida desta época, havia uma possibilidade de chuva no ar. Veremos. Saímos de casa na hora do almoço, devidamente resolvido numa churrascaria acessível do shopping Pátio Brasil. Para digerir, o primeiro item da agenda providenciada por Rejane: visita à Feira do Livro, um evento já tradicional em Brasília, que acompanhamos desde que aqui chegamos, já lá se vão uns 13 anos. A Feira do Livro acontece, já há algumas edições, nas amplas calçadas desse mesmo shopping onde almoçamos. Ao contrário dos eventos do tipo que acontecem em Natal, por exemplo, tenho que dizer que é mais uma oportunidade de adquirir livros interessantes por um bom preço do que um espaço para discussões literárias ou afins. Há palestras, homenagens, sempre um escritor tomado como tema (este ano foi o poeta Thiago de Melo), mas o forte mesmo é o consumo.
E não é que seja ruim: saí da Feira do Livro deste ano com um exemplar do Dicionário de Cineastas de Rubem Ewald Filho (um crítico que não está entre meus preferidos, mas é sempre uma referência) por módicos R$ 10,00. Também comprei uma coletânea de textos de teatro de Miguel Falabela e Maria Carmem Barbosa (tenho grande curiosidade pelos textos porque das poucas peças de teatro a que assisti, uma foi "A Partilha", de que gostei e que infelizmente não está no livro) por ainda mais módicos R$ 5,00. E ainda levei, de lambuja, por igualmente módicos R$ 5,00, um exemplar de "O quieto animal da esquina" - coisa fina, biscoito gaúcho de João Gilberto Noll, que é pra vocês não largarem a leitura por aqui achando que meu nível de consumo, embora econômico nos gastos, está anêmico nos conteúdos.
Depois da Feira do Livro, aí pelas 17h, já tínhamos outro compromisso marcado por Rejane: ir ao Conjunto Cultural da Caixa Econômica para assistir ao espetáculo "Cantigas de Trabalho", do grupo de artistas e pesquisadores "Cabelo de Maria". Como o nome indica, é um pocket show tão mínimo e artesanal quanto verdadeiro e próximo de quem o assiste, feito todo sobre canções tradiconais usadas em comunidades pelo Brasil afora enquanto se realiza algum trabalho - debulhar milho, pilar sementes. Uma apresentação de ar brejeito e sonoridade toda acústica, quase uma canção de ninar para adultos, poucos mas entusiasmados, reunidos num espaço único que rende um parágrafo.
Há 13 anos em Brasília, o fato é que nunca havíamos ido ao Conjunto Cultural da Caixa, composto por teatro e café num prédio e, no outro, logo em frente, espaço para exposições e, como vimos no parágrafo anterior, palco improvisado. Ficamos espantados com a beleza do interior do prédio-sede da Caixa Econômica em Brasília. Por fora, é um prédio meio feio, redondo, que pela forma se destaca na paisagem da cidade - meio que compondo um paralelo com o prédio do Banco Central, aquele que parece formado por caixotes pretos suspensos. O da Caixa parece uma... caixa d'água comum. Isso por fora, porque lá dentro a coisa muda de figura.
Acontece que os blocos de concreto gigantes que, superpostos, dão uma forma arredondada ao prédio da CEF, são na verdade molduras para um conjunto de imensos vitrais. Por fora isso passa derpercebido, mas quando você entra - especialmente se for no final da tarde, com o sol naquele amarelado típido da seca brasiliense - a impressão é de que se está penetrando numa catedral de cristais coloridos. Sombras de vários tons preenchem o largo vão interno, de onde parte uma escadaria em espiral. Lembrei, assim de relance, do Mercado Municipal de Fortaleza. Mas aqui na CEF há os vitrais gigantes, cada um representante um estado brasileiro. O de Minas é de babar, com aqueles profetas do Aleijadinhos estilizados se derramando em acrílicos trespassados pela luz da tarde. O do RN, dada a idade do prédio que, não sei mas imagino datar dos anos 70, mostra apenas pescadores, jangadeiros, salinas e afins - ícones de uma era pré-Ponta Negra e turismo de massa.
Vistos de longe, o conjunto de vitrais enche os olhos do visitante. Vale a pena passar por lá mesmo que não esteja em cartaz um show como o "Cantigas de Trabalho". Infelizmente, não levei a máquina fotográfica para completar a postagem com uma imagem que leve o leitor do Sopão visualmente a este espaço. Se encontrar na internet, prometo colocar. E se eu disser que, à noite, ali ao lado, no teatro, iria acontecer mais um espetáculo da "Cena Contemporânea", o festival de teatro que nesta época movimenta a cidade você vai entender melhor porque aquela história de capital do tédio é coisa dos anos 80 (se é que era mesmo, vide o rock brasiliense de então).
Mas a programação cultural não acabou aí, não. Noite instalada, seguimos para o final da Asa Sul, onde acontece durante todo este mês a tradiconal quermesse do templo budista da cidade. Brasília, é preciso que se diga antes de mais nada, adora uma quermesse. Aqui, quermesse não é algo visto como festa de carolas como acontece em qualquer outro lugar do país. Aqui, quermesse é pop, meus amigos. Nada mais pop, então, do que uma quermesse promovida por um templo budista. A fila do macarrão ia-qui-sso-ba era quilométrica - mas você olhava para as caras das pessoas esperando e elas tinham aquele arsinho de riso meio dalai-lama. No palco, garotos e garotas faziam exibições de karatê. Nas bancas, toda sorte de mercadorias de ascedência oriental.
E, acreditem, no céu, inesperados pingos de chuva em plena seca de Brasília. O dia seguinte, domingo, amanheceu brancão. Logo o brancão, qual espuma redentora apertada pelas mãos de um deus piedoso, transformou-se em chuva em pontos localizados da cidade.
Choveu lá em casa, choveu forte ali em frente ao Conjunto Nacional, o ar da noite estava bem melhor. Quem sabe, resultado da dança da chuva que foi a programação que Rejane bolou pra gente no fim de semana.
Legenda: na foto, já meio antiga, o setor bancário com destaque para os caixotes negros do BC
Utopia no museu
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Arquitetura moderna e tropicalismo, estandartes coloridos e concreto recortado, mosaicos que ganham movimento e anos dourados em fotos de tamanho natural. Está tudo na exposição "Utopia da Modernidade", que reúne no mesmo espaço registros do arrastão estético que gerou Brasília e ícones reprocessados da jornada pop-antropofágica dos tropicalistas. É um programão caso você, por um motivo qualquer que a providência providencie, veja-se na iminência de - programa de índio? olha lá, pode não ser - visitar Brasília.A exposição tornou ainda mais interessante o visual urbano do Conjunto Cultural da República, formado pela biblioteca (ainda sem livros, até quando?) e pelo museu, aquele vastamente conhecido como "Cuscuz de Niemmeyer" (para Cecília, que acompanhou a gente, traduzi como o "museu da bolona"). Acontece que parte das "peças" da exposição - como o seu próprio nome, "escrito" em garrafais caracteres de concreto em tamanho gigante - estão dispostas naquele pátio imenso que cerca a bola-museu. Você passa na rua - no caso , numa das seis pistas do Eixo Monumental - e é impossível não esticar o rabo do olho para entender melhor o que são aquelas letronas, aquelas molduras imensas de concreto, aqueles portais que até um dia desses não faziam parte da paisagem da cidade.
E vale a pena voltar no final de semana para ver de pertinho cada uma das intervenções concreto-paisagísticas que compõem a exposição, viajar pelas imagens que recuperam os movimentos vários daqueles tempos de explosão e implosão estética - tempos que pariram uma cidade e fermentaram tendências culturais (e comerciais, na conexão pop inevitável) várias.
Assim, um mosaico de Athos Bulcão ganha vida - no que parece uma dança sincronizada de andorinhas estilizadas no céu de Brasília. Uma tevê em preto-e-branco simulada transporta o olhar para outro tempo, um cone vai buscar no passado a música urbana da era JK e despeja sobre você a trilha sonora incidental de uma cidade em formação, um país em afirmação.
Se você tiver tempo, ainda pode aproveitar a visita ao Museu da República e percorrer, no andar de cima, outra exposição em cartaz - embora radicalmente diferente da que ocupa o primeiro piso e o pátio de cimento. É trabalho de artistas poloneses sobre tema bem menos inspirador, embora, vamos fazer o quê, igualmente legítimo sob a perspectiva das indagações humanas. O tema é a morte - e mesmo que o material de divulgação não informasse, você iria perceber assim que pisasse no primeiro ambiente onde há, no chão, projetada e continuamente repetida, a imagem de um pássaro debatendo-se em agonia.
Cecília e Bernardo estavam com a gente, ficamos enbatucados. Mas percebemos que as crianças têm um filtro: elas vão no que interessa a elas, ignorando nus do tipo "decadance avec elegance" e outras expressões sobre a finitude do pobre humano. Bernardo e Cecília, na verdade, propriciaram pra gente um momento-intervenção (como diria um artista plástico dos mais modernos): se divetiram mesmo foi com uma projeção interrompida, que apenas exibia aquele "protetor de tela" de DVD vazio, com a marca (Sansung? não lembro) batendo nas extremidades do quadro, quicando como uma bolinha. O que os garotos correram, pularem e riram enquanto tentavam "pegar" a sombra da marca que quicava na projeção não foi brincadeira. Foi arte - espontânea, viva, inquieta.
Breve, aqui, mais fotos da "Utopia da Modernidade".
sexta-feira, 15 de agosto de 2008
O novo Ribeirão
Em Pipa, o idioma extra-oficial é o italiano que a gente ouve na rua, nas mercearias, na barraca da praia. Em São Miguel do Gostoso, o dialeto dominante é o mesmo do interior paulista. Fala-se "ribeirês" no Quintal, sossegado, escurinho e aconchegante recanto próximo à praia da Xepa, onde se sorve um doce açaí e se saboreia pizzas servidas já em porções individuais, massa fina, gosto bom. Atendimento dez, conversa fora entre o cliente e o proprietário, ex-atendente de loja que trocou o trabalho em um shopping center de Ribeirão Preto pela vida semiselvabem, no bom sentido, sob o luar e sobre as areias de Gostoso.
Pois Gostoso, descobrimos, vem se tornando um enclave de Ribeirão Preto na costa oeste potiguar. O sogro do dono do Quintal é, por sua vez, dono de um pousada à beira-mar e foi quem arrastou a família para a mística desse lugar ainda tão marcado pela luz humana que só as praias de pescador têm. Lugar que lembra Exu Queimado (ou seria Enxu, como vi nos guias? Não sei) – outra praia, esta mais primitiva no melhor sentido, que fica um pouco além de Gostoso e onde estive um dia, no alvorecer dos anos 80.
Mas a descoberta de Gostoso pelos paulistas de Ribeirão faz a diferença. Se há um símbolo dessa ocupação silenciosa, é a super-casa à beira do mar, ao lado da Pousada dos Ponteiros – a mais famosa do lugar – equipada com um gramado de matar de inveja o mais burlemarxiano dos jardineiros, com um lago artificial digno de figurar em um daqueles quadros da pintura primitiva e coqueiros taitianos ondulando a visão. Convive com os ribeirões exilados o povo local, gente de boa conversa que trata de igual para igual com os turistas mais descolados. O dono de um restaurante local conta que a super-casa pertende a um usineiro de Ribeirão que, para aferir o valor do imóvel, anunciou a propriedade via internet pela bagatela de R$ 6 milhões – e apareceram, rapidinho, três interessados.
História de pescador – ou a façanha é mais uma pérola verbal de um bom pescador de histórias? Prosas de Gostoso, onde a palavra corre solta e livre pelo vento com os grãos de areia da praia que você não resiste e experimenta fazer correr entre os dedos.
Pois Gostoso, descobrimos, vem se tornando um enclave de Ribeirão Preto na costa oeste potiguar. O sogro do dono do Quintal é, por sua vez, dono de um pousada à beira-mar e foi quem arrastou a família para a mística desse lugar ainda tão marcado pela luz humana que só as praias de pescador têm. Lugar que lembra Exu Queimado (ou seria Enxu, como vi nos guias? Não sei) – outra praia, esta mais primitiva no melhor sentido, que fica um pouco além de Gostoso e onde estive um dia, no alvorecer dos anos 80.
Mas a descoberta de Gostoso pelos paulistas de Ribeirão faz a diferença. Se há um símbolo dessa ocupação silenciosa, é a super-casa à beira do mar, ao lado da Pousada dos Ponteiros – a mais famosa do lugar – equipada com um gramado de matar de inveja o mais burlemarxiano dos jardineiros, com um lago artificial digno de figurar em um daqueles quadros da pintura primitiva e coqueiros taitianos ondulando a visão. Convive com os ribeirões exilados o povo local, gente de boa conversa que trata de igual para igual com os turistas mais descolados. O dono de um restaurante local conta que a super-casa pertende a um usineiro de Ribeirão que, para aferir o valor do imóvel, anunciou a propriedade via internet pela bagatela de R$ 6 milhões – e apareceram, rapidinho, três interessados.
História de pescador – ou a façanha é mais uma pérola verbal de um bom pescador de histórias? Prosas de Gostoso, onde a palavra corre solta e livre pelo vento com os grãos de areia da praia que você não resiste e experimenta fazer correr entre os dedos.
Areias de Gostoso
Todo mundo fala do pôr do sol sobre o mar quando quer contar sobre as belezas naturais de São Miguel do Gostoso. Mas o que mais chama a atenção quando se chega e se permanece por uns dias nessa praia que vai seguindo a tradição de Pipa na atração de estrangeiros brasileiros ou não é outro elemento, bem mais telúrico. São Miguel, litoral norte potiguar, a uma hora e meia de carro de Natal, ex-distrito de Touros, praia emancipada, é a pátria das areias.
Sua faixa de terra, entre a vila de casas e pousadas esparsas e a forte arrebentação no mar da maré alta, é de perder de vista. Um saara umidificado, praticamente deserto em dias de semana, pontuado por rústicas choupanas com estrutura aberta em toras de madeira e cobertura de palha para o pescador ou o visitante se refugiarem do sol forte do lugar. E é só, e basta. O mar de areia domina tudo em volta, determina sua emoção e sua reação a este lugar.
Pôr do sol, sim – que é bonito mesmo, naquele recanto de mar. Mas a areia é que é soberana em Gostoso. Areia fofa, limpa, amarelo-areia, daquelas que dá vontade de nunca mais parar de pisar. Como a extensão da faixa à beira mar é farta, você escolhe onde prefere praticar o esporte local de pisar no chão - sem sombra de chinelos, naturalmente. Quem pisa mais perto dos quintais das casas pega uma areia fofa, quente, mais grossa e esparsa. Na faixa intermediária, pressente-se a firmeza incipiente que envolve o pé na quentura da terra ou na umidade da chuva da noite passada. Já mais ali, perto da arrebentação da brava maré cheia de praia de pescador, o pisado é sentir a firmeza do coração da terra onde ser apóia o mar. Quando mais perto da água, mais terra firme para a polpa curiosa do seu, do meu, do nosso querido pé.
É verdade que o esporte local que está fazendo a fama e o sucesso de Gostoso é o kitesurf, coisa boa para quem tem grana sobrando e pode investir despreocupado em equipamentos caros que tiram dos ventos do local tudo o que ele pode oferecer em termos de aventura. Mas quem não tem idade, coragem ou tutu para bancar o comercial do cigarro hollywood – "o sucesso", lembram? – pode se contentar muito bem em fazer da caminhada à beira mar um exercício sensorial de contato com a natureza em estado bruto. E gratuito.
Gostoso deixa, permite, estimula. De manhã cedinho, ao cair da tarde, ou ao anoitecer banhado por um luar que não tivemos a sorte de conhecer – caprichos da natureza que o visitante precisa respeitar – o quente é pisar. Areiaterapia para os seus humores, meu bem. Terra de ampulheta para vazar entre as mãos dos seus filhos pequenos. Deserto doce à beira de um mar salgado. Costa do sal, faixa de areia. Assim é São Miguel do Gostoso, areia nos olhos seus e dos outros - refresco, pode acreditar.
Sua faixa de terra, entre a vila de casas e pousadas esparsas e a forte arrebentação no mar da maré alta, é de perder de vista. Um saara umidificado, praticamente deserto em dias de semana, pontuado por rústicas choupanas com estrutura aberta em toras de madeira e cobertura de palha para o pescador ou o visitante se refugiarem do sol forte do lugar. E é só, e basta. O mar de areia domina tudo em volta, determina sua emoção e sua reação a este lugar.
Pôr do sol, sim – que é bonito mesmo, naquele recanto de mar. Mas a areia é que é soberana em Gostoso. Areia fofa, limpa, amarelo-areia, daquelas que dá vontade de nunca mais parar de pisar. Como a extensão da faixa à beira mar é farta, você escolhe onde prefere praticar o esporte local de pisar no chão - sem sombra de chinelos, naturalmente. Quem pisa mais perto dos quintais das casas pega uma areia fofa, quente, mais grossa e esparsa. Na faixa intermediária, pressente-se a firmeza incipiente que envolve o pé na quentura da terra ou na umidade da chuva da noite passada. Já mais ali, perto da arrebentação da brava maré cheia de praia de pescador, o pisado é sentir a firmeza do coração da terra onde ser apóia o mar. Quando mais perto da água, mais terra firme para a polpa curiosa do seu, do meu, do nosso querido pé.
É verdade que o esporte local que está fazendo a fama e o sucesso de Gostoso é o kitesurf, coisa boa para quem tem grana sobrando e pode investir despreocupado em equipamentos caros que tiram dos ventos do local tudo o que ele pode oferecer em termos de aventura. Mas quem não tem idade, coragem ou tutu para bancar o comercial do cigarro hollywood – "o sucesso", lembram? – pode se contentar muito bem em fazer da caminhada à beira mar um exercício sensorial de contato com a natureza em estado bruto. E gratuito.
Gostoso deixa, permite, estimula. De manhã cedinho, ao cair da tarde, ou ao anoitecer banhado por um luar que não tivemos a sorte de conhecer – caprichos da natureza que o visitante precisa respeitar – o quente é pisar. Areiaterapia para os seus humores, meu bem. Terra de ampulheta para vazar entre as mãos dos seus filhos pequenos. Deserto doce à beira de um mar salgado. Costa do sal, faixa de areia. Assim é São Miguel do Gostoso, areia nos olhos seus e dos outros - refresco, pode acreditar.
quinta-feira, 7 de agosto de 2008
Chamada
sexta-feira, 25 de julho de 2008
terça-feira, 15 de julho de 2008
terça-feira, 1 de julho de 2008
Jardim de inverno
Pelos coletes de Carlos Minc! Sobrevoando Natal pouco antes do pouso, eu já notava que alguma coisa na atmosfera geral havia mudado. Abaixo do avião havia uma massa quase compacta, embora vaporosa, de nuvens que mais pareciam ondas do mar congeladas no justo momento em que quebram na praia. Um segundo chão, suspenso entre o peso do avião e a planície opaca do solo. E era preciso atravessar aquela cortina de vapor d'água para rever a cidade.
Eu me sentiria como um astronauta a reentrar na atmosfera da terra, exceto pelo fato de que, surpreendentemente, a tal transposição da camada vã soou mais como algodão doce desmanchando na boca da criança surpresa ao provar desse bocado pela primeira vez. Tudo suave, como nunca dantes imaginado. E a cidade abaixo, com seu calor, sua umidade pegajosa, seu outro vapor d'água suspenso na pele.
Qual nada: a cidade que encontrei era outra. Nada a ver com aquecimento global, tão na moda que agora é tema até de out-door de butique nas ruas da mesma cidade. Antes, resfriamento local. Natal, que em fevereiro/março era uma estufa, agora é uma esponja. Chuva sim, sol não, dia sim, nublado é, encoberto quase sempre. Dei sorte e numa tarde em que vi o céu limpo, debandei para Ponta Negra antes que o cobertor vaporoso rapidamente tomasse cada pedaço do latifúndio céu. Ganhei de presente um ocaso vermelhão, uma tela a óleo natural feita por raios de pequena extensão - e por isso mesmo tão encarnados - somente para meus olhos e de quem mais se dispusesse a ver.
À noite, no Guaíra, janelas são vedadas, frestas tapadas com pedaços de papelão, esquadrias tremem os dentes de frio por causa da temperatura dos ventos, novamente tão diversa dos dias de verão. E as águas de Ponta Negra, resfriadas como se cubos de gelo boiassem bebendo o - agora - pouco sal do mar? E a textura da pele, sem o "preguento" dos veranicos mais abrasivos? Duas estações, duas cidades.
Para completar o panorama, só mesmo a ausência de turistas brazucas ou estrangeiros - algo inimaginável pelo menos nos últimos cinco anos. Pois, pois - assim foi. Ponta Negra ocupada por natalenses em férias, babás banhando crianças, pais de família jogando futebol, maré baixa, retraída como um doce oceano tímido, estirão dourado no sol poente refletido no chão lambido pelas ondas. Antiturística paisagem, benfeitora sensação.
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