O GUARDADOR
A velha vai sair daqui a pouco. Não sei como ela consegue dirigir andando assim. É tanta roupa, tanto véu, é pano demais por cima dessa carcaça seca. Pois, veja, esse mundo é muito desigual, não é que dirige como ninguém? Segura, apruma o carrão e com duas manobras tá na vaga. Tem muito menino parrudo por aí que pena, e se não fosse o véio aqui, ia não. Olha aí, lá vem. Toda determinada. Mas é pano demais. Um no pescoço, outro nas costas, uma – aquilo é uma camisola? – arrastando no chão. Não sei como não se enforca com a roupa do corpo. Bom dia, o carro foi bem vigiado! Nem olha, parece que nem ouviu. Tanto pano e tanta antipatia. Deus guarde, miserável.
E ainda me distraiu do garotão. Pode olhar, doutor? Esse devia pagar em dobro, que é tanto mequetrefe na máquina que se eu não ficar de olho bem aberto a molecada passa a mão nos, nos, como é que diz, nos, nos i- it- ah é, nos item. É, menino, é assim mesmo. Esse negócio de trabalhar na rua obriga a gente a conhecer muita coisa nova. O povo é que não muda. O menino todo lustroso, lapa de tênis, calça mais enfeitada que a cachorra da moléstia, bonezão, cor de quem vive no bem bom, cada muque de bezerro bem criado mas na hora de gratificar o cidadão aqui, sei não. Olhe, veja mesmo! Um moedão de um real. Por essa não se esperava. É vivendo e aprendendo. A rua é escola de véi sem ofício certo, se é.
Deixe eu correr que a moça da academia acabou de sair, toda molhada, salpicante, roupa justinha, bundona boa, peixona. Precisa pagar não. Basta passar. E quando passa, viu, parece que vai atrás dela uma curriola de passarim preto cantando bonito. É uma alegria que só vendo. Deus guarde tanta saúde. E o melhor é que eu posso urubuservar à vontade, porque a sereia bombada nunca que me vê. Passa por mim como se eu fosse uma parede de vrido, entendeu? É, de vrido, transpassante. Se não me vê, também não me recompensa o serviço – e o carro dela é todo chamativo, carro de mulher jeitosa, pouco gasto, bem tratato, brinco de ladrão. Se eu cochilar, a rapaziada reboca. Mas eu não deixo – e como é que vou viver nessa merda de rua de sol a sol catando resto de troco sem nem ao menos ter a sereia pra apreciar? Vá com Deus, minha filha.
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domingo, 19 de abril de 2009
domingo, 2 de dezembro de 2007
Contículus brasiliensis
Lugar de ser feliz também pode ser supermercado
(Para Rosália Maria e colegas do Clube das Leitoras Discretas)
A cidade guarda a fama de capital do tédio, às vezes parece mesmo a pátria da rotina, mas quando a gente repara bem, há muito com o que distrair o olhar, a mente, o coração. Há dezenas de salas de cinema, palácios assinados por arquiteto de fama e uma história que, embora jovem, já produziu ótimos e consagrados músicos. Isso para ficar em apenas três exemplos.
Disso se deduz que, à sua maneira, essa é uma cidade espetacular. Mas os shows de música custam muito caro, a conta do restaurante normalmente vai além da conta e até o preço do ingresso do cinema agride o bolso do pobre estudante.
Num dia desses - um sábado? - a garota - estudante? - deixou-se surpreender por um divertimento mais barato - e aqui a palavra vale pelo sentido do custo e não pelo da suposta falta de qualidade. Ela estava no supermercado, onde havia feito compras frugais. O suficiente para uma sacolinha de plático só. Nem cheia estava.
Moça de compras moderadas e espírito vaporoso como convém a todas as moças. Blusa preta, colada ao corpo, cabelo curto de nuca exposta, saia dessas que parecem de artista de circo moderno ou teatro clássico: quatro cores, umas pontas descompassadas das outras, uma assimetria que convém a todas as pessoas.
Só a vi de costas e por isso não tenho como falar sobre o rosto. Mas achei melhor assim, pois assim pude imaginar boca, olhos e sobrancelhas macluhanianamente.
Estava de costas, eu dizia. De costas, com uma sacola branca quase vazia - e uma roupa que parecia um par de asas para o infinito que dura um claro instante.
Lá estava ela aproveitando o grande painel de vidro do supermercado para apreciar um espetáculo natural que a cidade oferece nesta época do ano.
Não era cinema, nem música, nem arquiteturas. Era isso tudo de uma outra maneira e era mais.
Ela olhava para a chuva - e eu olhava para ela.
(Para Rosália Maria e colegas do Clube das Leitoras Discretas)
A cidade guarda a fama de capital do tédio, às vezes parece mesmo a pátria da rotina, mas quando a gente repara bem, há muito com o que distrair o olhar, a mente, o coração. Há dezenas de salas de cinema, palácios assinados por arquiteto de fama e uma história que, embora jovem, já produziu ótimos e consagrados músicos. Isso para ficar em apenas três exemplos.
Disso se deduz que, à sua maneira, essa é uma cidade espetacular. Mas os shows de música custam muito caro, a conta do restaurante normalmente vai além da conta e até o preço do ingresso do cinema agride o bolso do pobre estudante.
Num dia desses - um sábado? - a garota - estudante? - deixou-se surpreender por um divertimento mais barato - e aqui a palavra vale pelo sentido do custo e não pelo da suposta falta de qualidade. Ela estava no supermercado, onde havia feito compras frugais. O suficiente para uma sacolinha de plático só. Nem cheia estava.
Moça de compras moderadas e espírito vaporoso como convém a todas as moças. Blusa preta, colada ao corpo, cabelo curto de nuca exposta, saia dessas que parecem de artista de circo moderno ou teatro clássico: quatro cores, umas pontas descompassadas das outras, uma assimetria que convém a todas as pessoas.
Só a vi de costas e por isso não tenho como falar sobre o rosto. Mas achei melhor assim, pois assim pude imaginar boca, olhos e sobrancelhas macluhanianamente.
Estava de costas, eu dizia. De costas, com uma sacola branca quase vazia - e uma roupa que parecia um par de asas para o infinito que dura um claro instante.
Lá estava ela aproveitando o grande painel de vidro do supermercado para apreciar um espetáculo natural que a cidade oferece nesta época do ano.
Não era cinema, nem música, nem arquiteturas. Era isso tudo de uma outra maneira e era mais.
Ela olhava para a chuva - e eu olhava para ela.
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