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quarta-feira, 24 de agosto de 2011

Shakespeare com sotaque



Sons e fúrias da estréia de "Sua Incelença Ricardo III", pelos Clowns natalenses de Shakespeare, no festival internacional de teatro de Brasília

O sotaque britânico de Shakespeare, como o de qualquer outro mortal oriundo da mesma nação e do mesmo povo, reconhece-se à distância de um oceano Atlântico. Nem precisa saber inglês e penso que mesmo um ignorante de carteira terceiromundista no bolso é capaz, mesmo incapaz de distinguir o inglês do italiano, de apontar o dedo para o falante inesperado e acusar: - Eita, sotaque britânico da porra! Vou mais longe: arrisco dizer que o mesmo se pode afirmar do sotaque nordestino. Um celta de quinhentos anos atrás, conseguisse por um efeito do tempo transportar-se para a era atual e caísse no centro de Recife, seria igualmente capaz de, abrindo as orelhas, dar-se conta de estar ouvindo, no burburinho das ruas entre pontes, o inigualável sotaque nordestino (claro que, é bom lembrar, em uma de suas versões, que são muitas, mas o detalhe aqui não compromete o inteiro do raciocínio).

Essas considerações parecem não ter nada a ver com a notícia aqui em questão, que é a apresentação de “Sua Incelença Ricardo III” na abertura do festival internacional de teatro de Brasília, o “Cena Contemporânea”, ontem à noite no pátio do Museu da República (a quem os nordestinos, quem mais senão eles, apelidaram de “Cuscuz de Niemmeyer”), ao lado da catedral, bem no início da Esplanada dos Ministérios. Pois tem tudo a ver, visse? Primeiro é preciso dizer que três arquibancadas montadas ao ar livre e de bom tamanho não foram suficientes para dar conta de um público numérico e ansioso. Sem lugar nos puleiros (que é como o bom nordestino chama a arquibancada de circo), o povo acocorou-se como pode no chão mesmo, deixando um tiquinho de espaço para os artistas encenarem esse Shakespeare com sotaque de que nos ocuparemos daqui a pouco.

Antes, é preciso mais uma observação de repórter superficial sobre a maneira como o espetáculo foi recebido: por um público brasiliense (e, sendo assim, fortemente nordestino ainda que por descendência) aquecido e sintonizado com a encenação que tinha diante de si. O público local, sabem todos de que dele tiveram notícia, é visto como frio, distante, exigente, cabreiro e não poucas vezes hostil – lembrai-vos da vaia que Rodrigo Santoro levou ao subir no palco de um já esquecido festival de cinema de Brasília quando ainda não era visto como um ator de verdade. Pois diante dos Clowns natalenses de Shakespeare, essa platéia derreteu-se em sintonia, risos, aplauso e afeição.

Não é pra menos, que o caldeirão de referências que o espetáculo mistura, a partir de uma dos mais desafiadores textos do bardo inglês (e quem o diz é quem o conhece bem, não eu que sou leitor bagunçado), atinge um ponto perfeitinho de cozimento cênico – como se fora preparado por um mestre-cuca brejeiro ciente da porção exata de cada ingrediente na harmonização do banquete. Pois um banquete teatral é esta versão com sotaque de Ricardo III: mistura de artesanato medieval-nordestino com dramaturgia clássica pontuado por enxertos de ópera pop, ele resulta divertido e instigante, provocativo e alegórico. O roteiro, pra quem não conhece o texto da peça, é pescado meio que por associação de imagens e informações dispersas, numa montagem em que o uso que se faz da situação é mais significativo do que a trama interna. O essencial, a disputa fraticida pelo poder no que esse adjetivo tem de mais literal (ou além disso, já que Ricardo III, não satisfeito em matar irmãos, assassina até crianças, seus sobrinhos, para chegar à coroa), transparece e se instala entre estandartes sépias, interpretações rubras e corais escrachados. Um Ricardo III, mais que nordestino, brazuca. Herdeiro do tropicalismo, descendente da poesia concreta, neto do cordel mais encardido. E no entanto, como estamos falando dos Clowns de Shakespeare, industrial – como é preciso para afirmar o teatro como atividade instituída e menos mambembe do que tem sido em terras potiguares.

Resta a história do sotaque, que vem a propósito do comentário que ouvi de um jornalista nordestino radicado em Brasília ao final do espetáculo. Ele não gostou do que viu, achou que o Ricardo III fazia pilhéria do sotaque local, usando uma arma fácil para garantir empatia com platéias diversas. É o pensamento típico de alguém que presta as maiores reverências à mais enraizada música nordestina – de Elomar pra lá uns dez xique-xiques -, tanto que fez durante anos aqui um programa de rádio, por sinal muito bom, chamado “Canta Nordeste”. Mas é também a avaliação de alguém apegado em demasia à roupa de origem: tanto que não vê que fica nu ao fechar os olhos à capacidade de impregnação do próprio sotaque. Pois se sotaque não houvesse na pronúncia do ator, haveria na sintaxe do texto – inevitável se estamos tratando da reconstrução em um universo mais específico da via láctea constante na prosa shakespereana. Diante da opinião dessa pessoa, descobri que da aversão naturalíssima ao preconceito pode surgir um tipo de cegueira que faz o cidadão negar sua própria condição - mas fazer isso lutando para não denotar desprezo pelo povo de onde veio. Coisa de apocalíptico que não se dá conta do quanto virou integrado, pra usar os adjetivos consagrados por seu Umberto Eco. Ou então é o tal do avesso do avesso do avesso de que falava aquele compositor baiano.

O resumo da pendenga é que o sotaque é a festa da língua adaptada ao terreiro onde ela habita. Num texto que escrevi há alguns anos e acabou encenado por uma companhia do Rio de Janeiro, “Valsa na Varanda”, a produtora fez questão de me dizer, como se me cultivasse a vaidade e o orgulho, que fizera questão de não reforçar o sotaque. Bobagem: ele estava lá, caladinho e sorrateiro como sempre, na articulação das orações, na maneira crua de os personagens se expressarem, até nos silêncios – ou sobretudo neles. O Ricardo III dos Clowns, dirigido por Gabriel Vilela, escancara essa fala tanto quanto externa à sua maneira alegórica, festiva e bem humorada as entranhas dessa tragédia do poder. O grupo enfrenta com sotaque nordestino e estética idem o mais sombrio conto shakespeariano, sem se intimidar com os raios invisíveis que cortam a tempestade intelectual e impositiva da tradição.

Rir diante de Ricardo III – ainda mais numa encenação específica como a de ontem, feita em pleno centro arquitetônico do poder – talvez seja a mais brasileira forma de se apropriar do consagrado. Tratá-lo como casual, até. Arriscar-se a colocar em prática o prognóstico pretérito do bandido da luz vermelha: “quando a gente não entende, a gente avacalha”. No caso, com correções: quando a gente entende, por dentro e no completo – e de crise política somos sábios por experiência – a gente tem toda a autoridade para avacalhar. A seriedade tantas vezes é fria e infértil. A comunicação pode ter caminhos falsamente óbvios que o jornalista, com os bolsos cheios de pedras antipreconceito, é incapaz de enxergar. Shakespeare com sotaque nordestino, Clowns de Natal com inflexão britânica foi o que vimos ontem na capital das conspirações. Hoje (quarta-feira, 24-08) tem nova sessão, às 21h, no mesmo local, para quem quiser tirar a prova.

sábado, 21 de maio de 2011

A Mulher Revoltada, o espetáculo



Xico Sá, o antibrasilianista do jornalismo nativo, estréia no teatro pelas mãos de Fernando Yamamoto e convidados dos Clowns. Estreia foi esta semana em Brasília

Morreu o último macho canalha sobre a face da terra. Sem ele, tudo o que restou foi uma matilha arrumadinha de metrossexuais aloprados. É mais ou menos este o ponto de partida de “A Mulher Revoltada”, o primeiro texto para teatro do multimídia cearense-pernambucano-paulista-brasileiro-assumido Xico Sá. Dito assim, “o primeiro texto”, soa com a solenidade nem um pouco adequada ao universo paralelo desse fornicador de palavras que vive de traduzir o Brasil de verdade, verde e rosa, Fernando Mendes e Ben Jor, blindex com sarjeta, para o veículo que aparecer – livro, paródia de livro, blogue, site que ressuscita antigos hebdomadários e, agora, por que não, teatro.

Pelo que se deduz das entrevistas publicadas no site do Centro Cultural Banco do Brasil de Brasília e reproduzidas pelo SOPÃO aqui, é texto de encomenda, para esse projeto sobre novos dramaturgos que está em cartaz desde a semana passada na capital do país. “A Mulher Revoltada” caiu nas mãos do encenador Fernando Yamamoto, o cara dos Clowns de Shakespeare, o grupo potiguar que projeta o teatro feito no RN pelo país afora. Os atores são Titina e Paula, Joel e Dudu – que o público já conhece como convidados dos Clowns. E o resultado – bem o resultado Xico Sá deixou a critério de Yamamoto, que repartiu o texto em esquetes quase autônomos e colou tudo
com uma iconografia cênica e sonora de certo mundo bem abaixo da Classe C. Um cult brega de muito bom gosto, marcado a giz no chão, levado em embalo de boleros e Nalva Aguiar e embrulhado em papel de jornal popular – que os personagens vêm todos das redações reais ou imaginárias por onde Xico Sá passou, passa ou vai passar.

O resultado é um caleidoscópio de situações, frases e antirreflexões que misturam Pimenta Neves com Matinas Suzuki, Tarso de Castro com Sandra Anemberg – todos, naturalmente, entortados, distendidos, repuxados pelo botox do teatro vivo que distorce para melhor espelhar. A estréia oficial foi na quinta-feira, mas como Paulinha teve problemas de saúde, Titina ficou só em cena com os dois marmanjos em crise, no que o espetáculo teve que ser refeito em questão de horas. Na sexta, afinou-se esta versão alternativa (e, em se tratando do caos necessário do pensamento de um Xico Sá, é de se pensar que imprevistos assim talvez tornem a coisa até mais interessante, por menos demarcada como se viu na estréia de fato, chego lá). Ontem, finalmente, o elenco completo, Titina e Paula dividindo o escracho da mesma personagem, a dita mulher revoltada que cutuca as varas desnorteadas dos machos em cena, deu-se a estreia de fato. Se a platéia do CCBB-BSB ajudasse, teria rendido mais: enquanto assisto, imagino que link pode haver entre aquele brasilzão pop-nordestino-reieira do texto e aquele público de classe média de plástico entupida de bom gosto fabricado. Mas isso é outra história.

Bom vai ser quando chegar a Natal, Recife, Salvador e mesmo Rio de Janeiro. Chega já – aguarde aí que o projeto vai andar. E todo mundo vai poder tirar um sarro junto com Xico Sá e Yamamoto da dançinha do macho cornofóbico da qual Joel/Pereira se desvencilha muito bem, dublando mambo como se fora uma Ângela Guadanin comemorando sem pudor a própria e ridícula queda. Ou o momento em que Paula e Titina quase fazem sexo explícito com o canalha morto e falante via um monitor de tevê algo anos 80, meio Wim Wenders meio Boneca Suzi da TV Tupi Recife, que deus a tenha – as duas. Ou ainda curtir a barbicha metrô que Dudu cultiva em imagem e metáfora durante todo o espetáculo, nossa vingança contra a estupidez bem-pensante que ilustra grande parte do jornalismo cultural em voga.

“A Mulher Revoltada”, que traz de volta ao palco aquele clima de botequim que os Clowns mostravam em “Roda Chico”, é também um semimusical – se é que isso ainda não ficou claro até agora. Deve muito àquele espetáculo de sucesso – e pode tirar ainda mais dessa herança: um pouco mais do ritmo frenético que ele tinha e não faria mal à recriação no palco do estilo Xico Sá de realizar a crônica de um Brasil revirado sobre si mesmo. Neste ponto, os esquetes truncam um pouco. Mas o espetáculo que vi ainda é – como se diz? – uma “obra em progresso”. Ou “buraqueira em atraso” como seria mais apropriado quando a gente está falando de Xico Sá e da boa bagunça cênica que sua nova investida pode proporcionar para o bem de platéias bem mais quentes do que a do inverno local.