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sábado, 30 de outubro de 2010

Eu, pecador


Neste domingo, mais ou menos por essas horas, estarei pecando. Gravemente, espero. De um tipo de pecado que, ao contrário do que dizia aquele frevo pagão, existe sim ao sul do Equador. E como existe. Estarei pecando com plena consciência da infração que cometo, com os braços estendidos à disposição das algemas da instituição que quer me conter. Dizem que é tão grave a natureza deste pecado, que um novo mandamento deveria ser instituído para conter os instintos baixos de quem o comete com indecência assumida. Sou um deles, e nem um décimo primeiro mandamento me deteria. Vou pecar como um condenado que caminha para a forca com um sorriso cínico no rosto. E se há algo que posso fazer para tornar ainda mais cabeludo o meu pecado, é o que vou fazer agora: convidar você que me lê neste momento para pecar comigo.

Não vejo a hora de cometer meu sumo pecado, minha anti-eucaristia na mesa de quem se dispõe a dar ordens ilegítimas ao rebanho. Serei uma espécie de Judas sem suicídio na cena seguinte. Um coroinha que arranca fora as roupinhas brancas e bem passadas da celebração dominical, rola na poeira da rua fétida como um gato sem dono e descobre que, dependendo do ângulo pelo qual se veja o mundo, fica muito melhor com sua nova aparência de trombadinha infecto. São as faces do meu pecado, que sorri para você que está tentado, bem tentado, mas ainda não saiu da condição de indeciso. Não sou uma cantora de bolero dos anos 50, mas reforço o meu convite: eu tenho um pecado novo, venha pecar comigo.

O extremo pecado que vou cometer é de desobediência. Sua natureza está menos ligada às coisas da carne e mais à matéria da alma em si. É minha alma que clama por esse pecado de opinião – esse desvio de conduta materializado na forma de um voto eleitoral, e não um voto de romeiro como o ato de contrição aqui escrito poderia dar a entender. Vou pecar, com prazer e luxúria cidadã. Eu, pecador, amanhã ratificarei esta minha condição à qual vinha dando tão pouca importância. Amanhã, vou pecar votando em Dilma Roussef para presidente da República do Brasil, reino da terra, planeta solto no espaço em meio a sabe-se lá qual aventura mística.

Vou pecar contra a criança que eu fui, educada no catolicismo mais tradicional que, se me omitiu páginas infelizes da história desta religião, também teve a dádiva de me ensinar para sempre o valor de um sentimento chamado humildade. A Igreja, essa instituição a mais, deu-me flores e fezes na mesma bandeja – mas ao menos me deixou o livre arbítrio de fazer minhas escolhas. Agora, até isso me está sendo negado. E é por isso que eu vou pecar com uma altivez que em momento algum, ao contrário do que parece, contraria a humildade que a instituição me ensinou.

Vou pecar, com muita categoria, como diria o popular. E lhe convido a vir comigo, porque não é qualquer dia que se pode pecar contra a entidade máxima da catedral terrena que determina, aqui nas nossas instâncias inferiores aos céus desconhecidos, o que é e o que não é pecado – de acordo, claro, com os padrões de cada tempo e lugar. Você entendeu: vou pecar contra o próprio Papa – e é por isso que meu pecado não é e nem será em vão.

Por um momento, a maior autoridade da Igreja Católica pode estar tão mais errada do que eu, pecador , anônimo e insignificante seguidor, ainda que à minha maneira, como tantos outros, dos apontamentos de sua doutrina. Porque a derradeira ordem de Joseph Ratzinger pode ter sido, como nunca se esperou, a prova categórica que desmente aquela tão notória noção da infalibilidade papal.
Vou votar em Dilma e se você quiser, pode fazer como eu e Leonardo: pecar contra o erro ou pagar a penitência das abstenções.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

A avó de Inácio e sua aula de cidadania guerrilheira


Nem a Dona Benta do Sítio de Monteiro Lobato, nem a Vovó Donalda de Walt Disney. A avó mais sensacional jamais registrada por um neto de olho vivo é outra. Conheça a avó de Inácio França, do blogue "Caótico", e sua arma infalível contra o voto equivocado em eleições pretéritas. O relato é tão bom, ao mesmo tempo divertido e tocante, que merece ser copiado e colado à exaustão em e-mails voadores que a gente pode soltar por aí.

Para conhecê-la, clique bem aqui.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

A semana de um bilhão de anos-luz


Ao explicar o brilho ilusório de galáxias extintas, a astronomia, distraída, lança luzes sobre a política

O físico escreve no jornal que ao olhar para o céu, o que vemos é uma fotografia do passado. Um instantâneo do que já foi, o rastro de um espectro que não existe mais. Porque o tempo do céu, na medida da astronomia, está sempre à frente do nosso relógio terráqueo. Ou, dito de outro jeito, porque nós, aqui embaixo, estamos sempre em atraso quando o assunto é a dança dos astros e estrelas lá no alto. É tudo uma piada da luz, que demorando tanto para percorrer os vastos salões do espaço, mantém suspenso aquilo que já caiu e sugere estar vivo e fulgurante o fogo extinto de astros resfriados.

É assim que uma galáxia que acabou de ser descoberta, situada a 13 bilhões de anos-luz da Terra, pode simplesmente não existir mais. O tempo que sua luminosidade leva para imprimir a digital nos telescópios terrestres é suficientemente largo para conter sua própria destruição. O brilho que ela ainda emite, mesmo depois de morta, é só uma concessão que o universo permite aos seus misteriosos componentes. E o que a gente tem a ver com isso, deve pensar o leitor. Tudo, nada, um pouco.

A campanha eleitoral pode ser uma boa pista para encontrar essa estranha conexão entre a luz de astros mortos que permanece brilhando no céu e o nosso dia-a-dia mesquinho na superfície fosca onde caminhamos entre as manadas da Terra. Depois de meses de debates e embates, de uma temporada que parece interminável de golpes e contra-golpes, vamos chegando ao final, ao dia decisivo. Esta última semana é particularmente agoniada, no sentido de que sempre fica no ar a sensação de que alguma derradeira arma ilegítima poderá ser sacada, como vimos outras vezes no passado. O tipo da surpresa que retira da parte minimamente decente do debate eleitoral aquilo que ele tinha de mais importante – e despeja os votos na grande bolsa da reação a uma notícia, na urna eletrônica da subserviência mecânica a um apelo fabricado.

O certo é que, como as tais galáxias que morreram mas continuam enganando nossos olhos aqui embaixo, a campanha acaba mas deixa no ar por muito tempo a fumaça desagregadora de uma matéria politicamente purulenta. Votamos, voltamos para casa e, vença quem vencer, não há com arrancar da pele a toxina de certos desencantos que, em determinados momentos, parecem maiores do que a vitória ou a derrota. É o brilho invertido de galáxias que não tinham que ser ressuscitadas, se já estavam mortas há tempos e se prestavam apenas à ilusão dos telescópios viciados.

Na política como na astronomia, é preciso ser um expert para periciar luminosidades ilusórias que parecem verdadeiras. Temos eleições de dois em dois anos, mas a cada uma delas aprendemos que não é fácil fixar datas de validade para anseios e projeções políticas. As ondas vão e vem – e quem consegue manejar os remos em meio a elas paga, ainda que não queira, o preço da responsabilidade de ser visto como gênio. Marcelo Gleiser, o físico do jornal, garante que nada do que vemos no céu existe no presente. A empanada noturna cravejada de brilhos do luar do sertão é uma ilusão de ótica, um grande flashback passando diante dos nossos olhos de humanos frágeis. Um desfile falso de objetos que podem não existir mais ou terem mudado por completo. Assim no céu como na vida.

Fenômenos celestes destacados pela beleza costumam ser efêmeros, como se usassem de tal raridade para valorizar sua passagem. Eclipses solares não são eventos para todo dia – e de tão fortes é recomendável que sejam mirados com alguma proteção para os olhos. O tipo do espetáculo que revela tanto quanto cega – e afinal, passa, completando em si o tempo que cabe a todas as coisas e a todos os entes, inclusive os menos notáveis. A semana pré-eleitoral é a mais longa de todas, com seus bilhões de anos-luz de possibilidades condensadas e seu suspense entorpecido. Entre ela, a campanha; nós, os terráqueos; e eles, os astros e estrelas de brilho privilegiado ainda que pretérito, há o tempo – esse mediador cínico que destrói com prazer noções de mundo que pareciam tão bem construídas.

E amanhã, depois da apuração, sabendo que o céu noturno é um retrato antigo disfarçado de polaróide ainda quente pelo motor da máquina, acordaremos todos iguais, como não parecia ontem. Um pouco menos próximos, embora, por ironia nossa e não do universo, o momento seja propício a cada um procurar sua turma. Mas um pouco mais experientes, como velhos planetas cheios de crateras em viagem pelos espaços. Nada mais do que galáxias cansadas cumprindo a lei que considera a expansão que só distancia – e nunca aproxima – um elemento inexpugnável da natureza universal, pra não dizer humana.

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

Que mistério tem Micarla?


Será a busca por mais verbas que salvem a gestão no tempo que lhe resta? Serão ressentimentos resultante de algum fogo amigo? Será um recado cifrado para alguém, um interesse impublicável contrariado? A pergunta do momento em Natal é: que mistério tem a prefeita Micarla de Souza que explique seu apoio a Dilma - e não a Serra, como seria natural - na campanha para presidente? Como é que alguém apoia, defende, se engaja e bate nos peitos em favor de Rosalba, um dos dois raros casos de governador eleito pelo DEM que tanto se opõe a Lula, e agora, naturalmente depois de alguns dias de "dilema", desembarca na campanha de Dilma, aquela da corja petista?

Sim, porque pelo que está nas agências agora à noite, a prefeita de Natal não só declarou apoio a Dilma como foi além e fez um discurso "inflamado", é o adjetivo que os repórteres usam, em defesa da petista. Como dizia o preconceituoso do Paulo Francis, uau...! Micarla, leio aqui e ali, diz que Dilma está sendo "injustiçada" e que o povo vai lhe fazer justiça. Eu lendo isso me lembro do tipo de campanha que tomou certos setores do eleitorado natalense quando Micarla estava nas ruas contra o que dizia representar Fátima Bezerra, na disputa pela prefeitura. E todo mundo ainda está lembrado de que o que se propagava na surdina sobre a adversária petista era alguma coisa bem próxima desse "debate" sobre o aborto que tivemos recentemente.

O certo é que Micarla pode berrar seu apoio a Dilma de Natal a Parelhas, das Quintas a Nova Parnamirim, que não tem jeito. Nada mais desemelhante do projeto de Lula e Dilma - em uma palavra, do projeto "petista", para usar aquele que pra muitos virou o mais nefasto adjetivo da vida brasileira - do que jeitinho mimado de Micarla exercer a política. Micarla é deslumbramento, competição, negligência com os movimentos sociais organizados ou não, maquiagem do que vem a ser a representatividade política, populismo no sentido mais clássico, sem falar no poder mais arbitrário de quem detém um canal de televisão para usar como bem entender - quer dizer, em benefício próprio embora, claro, com um falso discurso que tenta dizer justamente o contrário. Em resumo, à sombra da figura política de Micarla rasteja um cordão de posturas contrárias a tudo o que Dilma/Lula buscam representar, ainda que nem sempre com sucesso, o amigo pode dizer. Mas buscam - e isso não é pouco.

Enquanto os blogueiros, cronistas e notistas políticos não nos dão a explicação devida, a gente tem de se contentar com algo ainda mais inesperado do que o apoio de Micarla a Dilma. Que é o fato, incrível, de estarem cobrando de Fátima Bezerra a explicação para esse apoio. Cobrando só, não. Estão praticamente responsabilizando Fátima por isso, como se a deputada é que estivesse rasgando sua biografia e se expondo ao ridículo em praça pública devido ao apoio de Micarla a Dilma. Assim: Micarla apoiando Dilma? Então é Fátima - e não Micarla - quem tem de se explicar!

É realmente uma distração enquanto a questão principal não vem. Mas o que ninguém respondeu ainda - e, a depender da coragem e das conveniências da crônica política potiguar, suponho que não terá resposta - é: que mistério tem Micarla para tomar tal decisão, contrariando inclusive aquele que, independente de sua "nova" postura, o senador José Agripino, permanecerá sempre como seu padrinho eleitoral? Tantos blogues de política, tanto colunista de jornal, quem terá o senso de responsabilidade de analisar a origem deste posicionamento. Quem analisa isso? Á guisa de análise, aqui no meu canto me contento com a informação, colhida em tais blogues, de que a Prefeitura de Natal decretou ponto facultativo naquele feriado que coincide com o segundo turno de votação. Ah, bom.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Fala, Kotscho


Imprensa e Igreja, os grandes derrotados da eleição de 2010

Ganhe quem ganhar a Presidência da República no próximo dia 31, já dá para saber quais foram os grandes derrotados desta inacreditável campanha eleitoral de 2010: a imprensa da velha mídia, mais engajada e sem pudor do que nunca, e as igrejas em geral, com amplos setores medievais de evangélicos e católicos transformando templos em palanques e colocando a religião a soldo da política. Por acaso, são as mesmas instituições que se uniram em 1964 para derrubar o governo de João Goulart e jogar o Brasil nas profundezas da ditadura militar por mais de duas décadas. Como naquela época, os celerados e ensandecidos combatentes das redações e dos púlpitos acenam com novas ameaças às liberdades democráticas, outra vez o perigo vermelho, de novo a degradação dos costumes. Só falta uma nova “Marcha da Família, com Deus pela Liberdade”.

Há um mês, um mês e pouco, escrevi no Novo Jornal um artigo que tinha como título "A Imprensa perdeu a eleição". Depois do resultado do primeiro turno da eleição presidencial, até pensei que tivesse me precipitado, que meu título e minhas idiossincrasias fossem chute emocional de patrulheiro petista. Hoje, na minha ronda diária pelos blogues que importam, encontrei o texto acima no Balaio de Ricardo Kotscho. Até com um título quase idêntico àquele que eu cometera no jornal potiguar.

Para ler a postagem completa do homem, clique aqui.

Fala, Marília Gabriela


LIgo a tevê na noite de segunda-feira, o aparelho está sintonizada na TV Brasil (a quem gostam de chamar de "TV do Lula"). O canal está em cadeia com a TV Cultura (que não tem, mas poderia ter, um apelido correspondente), exibindo o Roda Viva. Todo mundo que lê este blogue certamente conhece o Roda Viva, mas não sei se já assistiram ao programa na nova roupagem, com apresentação de Marília "Gabi" Gabriela. Um doce para quem advinhar quem era o entrevistado desta semana: Aloysio Nunes Ferreira, o tucano campeão de votos para o Senado.

Até aí, nada a registrar além do esperado. A surpresa feio por meio da apresentadora, um segundinho ante de o programa terminar. Neste momento, no novo formato, entrevistadores e entrevistado avaliam a própria entrevista que acabou de acontecer. Tipo autocrítica. E vem a despedida do senador eleito, quando ele diz que espera honrar com o mandato no Senado a votação expressiva que obteve.

Aí Marília Gabriela quase salta da cadeira, num pulo de entusiasmo distraído, e completa, com dedo em riste:

- Se não for para a Casa Civil!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Fala, Chico


"Venho aqui reiterar meu apoio entusiasmado à campanha da Dilma. A forma de governar de Lula é diferente.Ele não fala fino com Washington, nem fala grosso com Bolívia e Paraguai. Por isso, é ouvido e respeitado no mundo todo.Nunca houve na História do país algo assim."

Palavras de Chico Buarque, no ato dos artistas em apoio a Dilma, ontem à noite no Rio de Janeiro.

Leia a notícia completa no Globo mesmo. Pegue o atalho clicando aqui.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Papo de colega (2)


"Disse hoje lá no Twitter que Serra não conta mais como o meu respeito. Perdeu-o quando assumiu o discurso e a prática do que há de pior, mais medieval e hodiento na política brasileira. Lastimável que ele tenha jogado na lata do lixo o seu passado de militante de esquerda e líder da UNE.

Independente de quem vencer, o mal já está feito e a laicidade do estado brasileiro terrivelmente comprometida. Pressionada pelas igrejas, Dilma assinou hoje uma carta onde dá satisfações de suas posições sobre temas delicados, como o aborto. Um retrocesso lamentável.

Mas, com Serra será ainda muito pior. Porque além dessa submissão religiosa referida acima (reforçada pela Opus Dei, do governador Alckmin), teremos o fim das políticas sociais (Bolsa Família etc), a criminalização das demandas sociais, o retorno das privatizações e sucateamento da educação, entre outras bandeiras caras aos programas do DEM e PSDB.

É o pior cenário possível para o Brasil. Se você pode fazer algo para impedir isso faça. Se não pode ou não quer não venha reclamar depois. Lembre-se que a fatura será cobrada de todos e omissão não isenta ninguém de responsabilidade."


Quem diz tudo isso, corajosamente como tem que ser no seu Substantivo Plural, é o jornalista Tácito Costa. Para ler o texto inteiro, corte o caminho e clique aqui.

Papo de colega


"O jornalista parece ser o profissional de classe média que melhor incorporou a agenda neo-liberal dos anos 90, e que mais se identifica com os patrões, tendo dificuldade enorme de se enxergar como trabalhador."

Esse trecho de um texto completo foi, claro, colocado aqui pelo Sopão, propositadamente fora de contexto, para chamar a atenção mesmo. Para ler a análise completa, vá ao blogue "Escrevinhador", do jornalista Rodrigo Vianna, uma das novas indicações ali ao lado na lista dos Outros Cardápios.

Para cortar caminho, clique aqui e leia tudo.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Dilma está cansada


Na falta de qualquer novidade - o que não é um mal em si - o que mais me chamou a atenção no tão esperado debate da Rede Globo, ontem à noite, foi a expressão nítida de cansaço de Dilma Roussef. Dilma que, esclareço se ainda for preciso, é a minha candidata por dar continuidade ao projeto de construção do país iniciado por Lula, está cansada. E você, que me lê agora, admita: também estaria se estivesse no lugar dela. Dilma enfrentou um câncer linfático, quimioterapia que não é pouca coisa, a necessidade de se impor e se fazer acreditar e respeitar como candidata à sucessão de uma figura com a expressão de Lula e agora, depois de tudo isso - fico cansado só de escrever esta frase longa e necessária - ainda precisa vencer a eleição no primeiro turno, coisa que nem o próprio Lula conseguiu fazer.

É muito para uma pessoa só. Assistindo a trechos do debate comigo, Rejane comentou que para a sorte de Dilma a eleição está bem pertinho - porque se não estivesse, ela iria engordar quem nem um balão. É verdade: além de cansada, Dilma parece mais gorda. E as duas coisas têm tudo a ver - nada com a estética, tudo com o estresse. Com a onda de denúncias envolvendo auxiliares bem próximos - pessoas por quem, pelo que a gente lê por aí, ela de fato tinha um afeto pessoal, como Mamãe Erenice - a situação fica ainda mais pesada nos ombros da candidata. Talvez fosse o caso de tirar dos ombros dela pelo menos o fardo de ter de vencer logo neste domingo. Claro que, vencendo, ela se livra de um encargo tão mais cansativo quanto o que já carrega, que é o fato de enfrentar um segundo turno. Mas há algo no momento político que mostra como a ordem natural das coisas tende a ser seguida - e a ordem natural agora, com ou sem segundo turno, é Dilma vencer, pelo simples fato de que aprovação e a satisfação com a gestão de Lula sustenta essa vitória sem maiores sustos. Então, se houver segundo turno, que venha sem seja preciso implodir os nervos de Dilma.

Alguém que, como ela, jamais enfrentou qualquer outra eleição, não poderia chegar ao final desta campanha menos estafada do que aparenta estar. É preciso entender isso vendo tudo menos pela perspectiva da análise política fria das redações e mais pela sensibilidade humana de qualquer brasileiro comum, acostumado a saber que certas batalhas da vida são mesmo de desafiar as nossas forças. Coisas que nada tem a ver com eleição, como conseguir um emprego, cuidar de um filho gravemente doente, pagar uma dívida, mudar de cidade. Tudo isso estressa o cidadão comum como a Dilma está estressando a reta final da campanha. Natural, esperado, compreensível. Dilma vai vencer, porque o projeto que ela representa foi entendido, aceito e aprovado pela maioria. Se vai ser amanhã ou depois, é questão de tempo. Mas a gente não devia cobrar dela essa vitória de imediato que ela até pode ter, se tal cobrança significar uma agressão que ela não precisa sofrer.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Teste seu grau de pureza eleitoral


Testes em jornais e revistas costumam ser pouco mais do que picaretagens inócuas, embora muitas vezes soem divertidos. Não é o caso deste aqui que, diversão à parte, pretende ser muito sério. É uma série de perguntas e respostas que surge da necessidade, cada vez mais premente, de o cidadão se enquadrar no vale tudo que virou o espectro político partidário nestas eleições. Nunca antes na história deste estado bacuraus pareçam tão araras e bicudos soaram tão terceira via, seja lá o que isso quer dizer.

Enfim, atendendo a pedidos de muita gente que está mais perdida que voto de papel em tempos de urna eletrônica, segue o teste. Pense bem antes de marcar um "x" em cada questão e descubra se você é bicudo, foi bacurau ou será arara. Veja finalmente se você se identifica com a direita envergonhada ou com a esquerda confusa. Saiba de uma vez por todas se você, mesmo não tendo admitido ainda nem pra você mesmo, é dilmista de última hora, lulista por interesse econômico inconfessável (porque, apesar da popularidade do cara, ainda pega muito mal ser lulista em certos ambientes), serrista do tipo que chora ao lembrar do pai verdureiro ou agripinista do tipo perco o discurso mas não abaixo a cabeça. Às questões:

O candidato(a) a deputado em campanha para se reeleger está em passeata no seu bairro. Para diante da sua casa, estende a mão e lhe pede o voto. Você...
A – Engole em seco, esquece o discurso político-moral dos últimos anos na tevê e cumprimenta o candidato(a) pelo belo trabalho em defesa da ética pública realizado por ele(a) nos últimos quatro anos, seja lá o que ele(a) tenha feito (ou não);
B – Bota o candidato pra correr debaixo de desaforos que aprendeu no Jornal Nacional do tipo ficha-suja etc etc;
C – Cobra algum pra não falar mal dele no blogue que pilota no quartinho dos fundos;
D – Apresenta o valor monetário do seu voto – ou do seu “apoio” – e abre espaço para negociação;
E – Nenhuma das anteriores;
F – Todas as anteriores.

O adversário daquela candidata a presidente da República a acusa, por meio de outras pessoas – e também em jornais e revistas, pra dar um tchan na denúncia – de ter sido “terrorista” na época dos governos ditatoriais. Você...
A – Assina embaixo, começa imediatamente um discurso sobre os horrores de Cuba e, ato contínuo, corre pra olhar debaixo da cama pra ver se tem algum comunista vivendo lá clandestinamente, há umas duas décadas, sem que ninguém da família tenha se dado conta;
B – Analisa, assim bem por alto, a biografia do autor da acusação, pergunta-se onde ele estava no mesmo período, indaga-se sobre qual o real interesse de quem faz do medo – não se sabe medo do quê – um fator de decisão ou indecisão eleitoral;
C – Lembra da injustiça póstuma que aquela acusação representa diante de tantos brasileiros que morreram nos porões dos governos ditatoriais e que, desaparecidos, não podem dizer uma palavra sequer em defesa da candidata em questão, quanto menos deles mesmos. E considera que, antes de tudo, isso é uma covardia;
D – Preocupa-se com o assunto por breves e exatos dois minutos, justo o tempo que tem entre engolir o cafezinho matinal, sair de casa correndo e pegar o ônibus para aquele emprego recém-conquistado;
E – Nenhuma das anteriores;
F – Todas as anteriores.

No palanque armado no seu bairro, a noite é de festa. Comício grande, como nos velhos tempos. Antigos adversários abraçadinhos como novos namorados. Diante deste espetáculo de conciliação desinteressada, você...

A – Toma um goró que é pra ter certeza de que está sóbrio e não sendo vítima de um surto de ilusionismo político que provoca vertigens e miragens;
B – Pensa no quanto é bonita a união de todas as correntes e o quanto isso pode contribuir para o fim do aquecimento do planeta;
C – Encomenda à costureira uma bandeira feita de retalhos dos diversos candidatos, partidos e correntes, de maneira que haja pano suficiente para que você esteja coberto em qualquer situação – ainda que, no final, o lábaro tremulante pareça tão indefinido quanto uma página de classificados no jornal;
D – Encomenda a um matemático amigo seu um jeito de conciliar, no mesmo voto, a preferência por linhas políticas diversas e em alguns casos até opostas, embora o discurso dos candidatos diga o contrário. E não esquece de pedir a um programador também amigo uma proteção qualquer para que a urna eletrônica não dê pau diante de um voto politicamente tão absurdo.
E – Nenhuma das anteriores
F – Todas as anteriores

A diferença entre este teste e os demais que fazem a festa dos leitores de revistas de entretenimento é o fato de que aqui não adianta virar o jornal de cabeça pra baixo. Porque, pra começar, não temos as respostas prontas: você, eleitor maior de idade, é que vai ter de quebrar a cabeça para avaliar o quanto a veemência de suas próprias respostas desvenda – ou por outra, esconde – o grau de amadorismo ou amadurecimento política da sua pessoa. A julgar pelos resultados eleitorais mais recentes na capital e no estado, anda bem crítico este indicador. Mas sossegue: sempre há um jeito de ajustá-lo a cada quatro anos e, assim, invalidar o serviço mal feito na eleição anterior. O teste pode ajudá-lo. Basta você considerar menos a brincadeira que ele parece ser e mais a seriedade que ele oculta sob cada uma das questões.

*Publicado no Novo Jornal (Natal-RN)