quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Clássicos do Sopão (Ceumar)


Ela está entre Virgínia Rosa e Na Ozetti – mas há vários momentos em que é muito melhor do que essa duas aí juntas. Ceumar, com esse belo nome que funde dois extremos de uma paisagem marinha, canta como uma sereia... do sertão. Mineira do interior como é, tem uma brejeirice ancestral escondida na voz que só à primeira vista parece pequena. Mas também pode ser urbanamente pop quando quer – e já quis, para nosso deleite auditivo.


Em “Achou”, o CD em que interpreta basicamente canções compostas por Dante Ozetti (em parceria com outras figuras), Ceumar coloca essa voz entre camadas de cordas de bandolins e violões de nylon e de aço. Da primeira à última faixa, embora se passe da canção até o samba e o frevo, a embalagem sonora é a mesma: jogos de violas em evolução no meio do qual sibila, segura mas aquática e verdejante, a voz e a interpretação de Ceumar.

Esse jogo é marcante na faixa de abertura, “Pra lá”, onde Ceumar sustenta com voz evocativa uma letra que sugere o poder de qualquer transcendência. Já em “Parei querer”, temos uma ligeira inflexão para o pop de que se falou – e, pudera, aqui se trata de parceria de Dante Ozetti com Zelia Ducan. Em “Partidão”, Zeca Baleiro constrói mais uma de suas freqüentes metáforas futebolísticas, numa faixa que transpira humor por baixo da levada lúdica com que Ceumar conduz o tema.

Mas o momento culminante do disco é mesmo a faixa “Parte B”, que abre – e segue – com piano e bateria em andamento mínimo e sentimento máximo, cheia de pulsos e pausas – e plena de silêncios. Interpretação colocada com um cuidado de delineador de cristais, numa performance em que Ceumar nos faz lembrar da maior de todas, Elis.

Há ainda um hino informal (“Visões”) cantado em dueto qual jogral e, entre outras, a doce ironia de “A tardinha” – canção que cita o clássico da bossa nova e o desdiz, mais ou menos como já fez José Miguel Wisnik em “se meu mundo caiu / eu que aprenda a levitar”. Nesta “A tardinha”, a negativa vem com “o meu barquinho vai / mas a tardinha não cai".

E assim prossegue esse terceiro disco gravado por Ceumar, sempre com essa vestimenta sonora meio “saia azul com blusa de flor” – verso de uma das músicas – que lhe marca o estilo e a aparência. Ceumar, que por si só já tem aquela estampa renascentista de moça extraída de um quadro clássico entre janelas e jardins, soa mesmo, ao cantar, como uma espécie de lirismo que vem de outros tempos e lugares mais remotos.

É daquelas cantoras que conquistam o nosso ouvido inexoravelmente – como se a gente se perguntasse como foi possível, até aquele momento do primeiro encontro, viver sem ouvir tal beleza. A primeira vez que ouvi Ceumar foi em Goiânia, numa loja de discos de um shopping center – o glorioso Bazar Paulistinha, que sempre reserva alguma surpresa a quem passar por lá. Entrei e parei ao ouvir aquela voz transversal refazer, com uma delicadeza cheia de graça e de sertão, as frases de “Galope Rasante”, um quase clássico nordestino de Zé Ramalho. Saí dali com o CD e a expectativa de ouvir o restante. Mais tarde, Ceumar veio a Brasília e fez um show acompanhada apenas por violão no CCBB, desafiando com sua marcante presença física a conciliação da imagem que a gente foi construindo só a partir de sua voz ternamente gravada.

Nunca mais Ceumar voltou por aqui. Deve estar fazendo shows entre Minas, Oropa e Bahia. Se ela passar por Natal, não deixem de vê-la e ouvi-la.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2009

Ligue a tevê (FINAL)


Pelos refrões visuais de Jaime Monjardim! Ao abrir o blogue, você deve ter se perguntado: mas o quê os malucos do The Doors têm a ver com a tevê aberta brasileira? Jim Morrison sempre foi meio Maysa - ou vice-versa - mas a ligação, de fato, é outra e só será revelada ao final da postagem.
Pra início de conversa, o registro é outro: todo mundo reclama do tratamento desumano que o filho da mãe - o menino danado Monjadim - deu à própria genitora na minissérie do momento. Mas, desconfio, na mesma medida em que reclama, todo mundo assiste, não perde um capítulo, para tudo na hora de começar (ainda prefico pára tudo, mas ordens são ordens), corre pra poltrona ansioso antes mesmo da primeira cena surgir na tela, negligencia jantar, filho, mulher, marido, neto e bisneto em função da atração televisiva tal como faria a dona da história (ou você também não está com peninha de Jaiminho?). Agora, falando sério, é bem melhor a gente parar com essas coisas e dizer que a postagem final da série "Ligue a tevê" não está aqui somente pra tirar sarro da inteligência de quem sobe no pedestal e desce a porrada no programa de televisão da hora.

É que escaparam algumas observações picotadas sobre "Maysa", assim como sobre Flora-Patrícia e sobre quem você já imagina mesmo - mas vamos manter o suspense que, já diz o ditado, o negócio é a alma do segredo. Então: faltou dizer que naturalmente a Maysa da minissérie é uma construção narrativa e dramática feita a partir de conceitos associados à Maysa original. Não se trata de um documentário - e nem esses estão livres dos riscos de se reinterpretar uma pessoa ou um acontecimento. Por isso não vejo muito sentido nas queixas de que o filho da mãe pegou pesado no lado meu mundo caiu da própria, negando ao telespectador uma introdução mais profunda na psique avançada daquela que o gerou. A gente vai lendo os textos nesse revistão que é a internet e às vezes fica com a impressão de que tem gente bem longe que parece conhecer Maysa mais do que o filho da própria. E um detalhe: a filiação foi nitidamente usada na minissérie como um elemento de proximidade - coisa difícil de se conceber, quanto mais de se admitir, sejamos francos - que reforçou a figura humana, a mulher menos mitificada que foi possível extrair de uma personsalidade envolta em brumas como sempre foi Maysa. Ou como sempre parece ter sido - é melhor eu me corrigir, caso contrário vai parecer que também fui íntimo daquela senhora e por isso posso sair por aí desconstruindo seriados. Fui não - isso aqui é puro pitaco de blogue sem assunto em princípio de verão.

Mude aí de canal e vamos para Flora-Patrícia: esqueci de citar, na primeira postagem da série, um dos elementos mais fortes do álbum de figurinhas da cultura pop a que se recorreu na hora de explicar a vilã do momento. Flora seria, disse alguém, um Ricardo III do vídeo - e eu recomendo aos mais ilustrados que me lêem neste momento que se segurem, porque em se tratando de dramaturgia popular, sobretudo de teledramaturgia popular, seu Ricardo III, o vilão número um do mundo criado por aquele outro senhor, seu William Shake alguma coisa, é sim ingrediente de receita de programa de televisão vulgar. Não gostou, vá pro GNT se pavonear no "Manhatan Conection"- que, aliás, já teve dias melhores.

E, pra encerrar, aquele que você espera aparecer aqui desde o início da postagem em série. Numa linha: o BBB fica enganchado no meio dessa programação e é bem possível que você, mesmo com a pausa do banheiro e do cafezinha, veja por alguns momentos. Não precisa se crucificar por isso não: é normal, é humano, é uma daquelas coisas que faz a gente lembrar do quanto é importante não levar tudo a sério demais. O programa é vulgar, repleto de exibicionismo, vitrine de uma certa burrice bem deslumbrada e bem brasileira? Sim, senhor. Mas é também, se você assistir de perna pra cima dando uma grande risada enquanto dura a atração, um passatempo curioso - um bom programa de ficção, como disse um crítico de jornal por esses dias. Afinal, disputa de prêmio e simpatias eletrônicas à parte, não deixa de ser intrigante você ver como se entende ou se desentende um punhado de seres humanos trancados durante um tempão numa casa cercada de câmeras. O gancho é esse e é simples - uma armadilha narrativa eficiente para um andarilho descuidado chamado curiosidade, que mora sem pagar aluguel lá dentro da cuca de cada um de nós. Só tem um porém: vicia é que uma beleza. Pegue leve, então.

A série de postagens termina com uma dica para quando você desligar a tevê e ligar o computador: vá à Rádio UOL e ouça, no DJ Mix, um programa com Maysa que termina com ela cantando "Light my fire", o rock do The Doors (os rapazes da foto, eis o link, afinal). É impressionante a interpretação - como se Elis e Cássia Eller estivessem morando antes de seu tempo dentro da mesma voz de uma mulher ainda mais impressionante do que elas duas. Mas tem que ouvir o programa até o final, que esta é a última faixa.

E, quando a tevê merecer, ligue de novo nem que seja só pra ver.

quinta-feira, 15 de janeiro de 2009

Ligue a tevê (3)


Se você também pretende se inocular com o vírus do vídeo da tevê aberta, previna-se: na segunda-feira, o dependente tem que ser rápido no controle remoto para não perder nem o final de "Maysa" nem o inicio do episódio do dia de "A lei e o crime", seriado da Record que emula "Cidade de Deus", chafurda na estética de tiroteio de "Tropa de Elite", recorre a referências didáticas da série e do filme "Cidade dos Homens", remete à experiência anterior da própria emissora (a novela "Vidas opostas") e, assim como a minissérie global, é filmada com equipamento de alta definição - o que confere, por si só, um visual supratelevisivo à produção.

Produção é a palavra. Assim como Maysa, sobressai de saída essa estampa de filme bem produzido, independente das esparrelas narrativas a que apele para prender o telespectador. Sim, o seriado tem sido criticado por reproduzir o esquema do "filme de favela" - a mesma acusação que foi feita a "Cidade de Deus", e sabemos que dez minutos do filme invalidam essa alegação, pela força dramática e formal do que se vê na tela. "A lei e o crime" também tem sido alvo de críticas que reclamam se seu parentesco com as novelas, de seus chavões que fazem de pobres e pretos bandidos e de patricinhas da alta burguesia heroínas da justiça. Pode ser, mas sendo um produto televisivo - embora com tratamento visual de cinema - para ser apreciado em ambiente caseiro e não numa sala de exibição, torna-se compreensível que o roteiro vá se valer de personas e situações já familitares ao telespectador. Há também um certo ranço politicamente correto nessa crítica. E há o próprio fato de que pessoas e problemas abordados no seriado, da maneira, digamos, tradicional e conservadora como ela o faz, ainda não estão esgotados de todo e se prestam, sim, a uma reflexão visual sobre o tema da criminalidade urbana, do tráfico e consumo de drogas, do controle das favelas - sem esquecer que estamos falando também de entretenimento. Enfim, tudo isso cheira a "Cidade de Deus" - ao que foi dito sobre o filme e à maneira como o próprio filme se sobrepôs ao que foi dito.

Cada dramaturgia tem o James Cagney (na foto que ilustra a postagem) que convém. No caso de "A lei e o crime", a saga ao contrário de Nandinho da Bazuca e a quase inverossímil ascenção dramática da patricinha que se torna delegada de polícia contêm, de um lado, o tom novelesco do anti-herói oprimido pelas circunstâncias e, de outro, o exagero tipo novela-das-oito que se legitima pelos próprios extremos - e prende, efetivamente, atenção de quem, para além de qualquer má vontade crítica, senta diante da tevê à noite e deixa que aquele aparelho, qual Sherazade digital, lhe conte uma história que tanto distraia quanto faça pensar antes de dormir. Trata-se apenas disso - e não é pouco.

Pensando bem, e ao contrário do que disse lá no início, você pode se viciar relaxado: como "Maysa" está acabando, não háverá, a partir da próxima segunda-feira, aquele problema da coincidência de horário entre o final da minissérie da Globo e o início do seriado da Record. Mas é claro que eu não iria abrir mão desse gancho narrativo para chamar sua atenção para as duas atrações quase simultâneas na tevê aberta deste início de ano.

Ligue a tevê (2)


Depois do bricabraque visual e dramatúgico de "A Favorita", outro motivo para você se reconciliar com a tevê aberta neste início de ano é a minissérie "Maysa". Está quase acabando e, se você não viu nada até agora, é bem possível que não demonstre maior interesse. Mas, se caiu na armadilha de assistir ao primeiro capítulo, capitulou, não tem jeito. Manoel Carlos e Jaime Monjardim optaram por contar a história da cantora em fragmentos dramáticos, como aquela montagem em quebra-cabeça de filmes de diretores como Roberto Altman ("Short Cuts") e o mexicano Alejandro González-Iñarritu ("Amores Brutos" e "21 gramas"), que muito sucesso fizeram em momentos diferentes do cinema das últimas décadas. Foram muito criticados por isso - que a técnica confundiria o telespectador, jogado para lá e para cá em momentos variados da trajetória da artista.

Chego lá. Primeiro tenho que dizer que, pra mim e alguns amigos, desde o final dos anos 80 Maysa é uma referência de boa música, de talento dramático (como Elis Regina) nem um pouco esquecido nos escaninhos musicais da fossa pré-bossa nova dos anos 50. Não há redescoberta, há o prazer de assistir à história dessa mulher, pontuada por suas canções e sua voz. Por volta de 1987, a Rede Globo exibiu uma minissérie, "Anos dourados", que trazia na trilha sonora uma dessas belas canções. "Você passa por mim e não olha / como coisa que eu fosse ninguém", cantava Maysa, selando com uma espécie de embalagem sonora especial um programa de televisão que por si só já era tão bom quando a minissérie em exibição atualmente, com a sua própria historia.

Na época, costumava cantarolar essa música na redação da Tribuna do Norte, formando uma improvável dupla vocal como nossa querida Célia Freira, na época chefe de reportagem. Celinha adorava Maysa e vinha com outras peças do repertório da cantora. Comprei uma fita k7 com uma coletânea - vasta coletânea, mais de vinte faixas - de Maysa, que dividia o repertório entre a fase pré-bossa nova, a fase bossa nova, o cancioneiro internacional e outra vertente explorada pela artista. A fita se perdeu, mas ficou o gosto pela voz e pela própria figura de Maysa - desde então uma espécie de anjo avesso terminal no qual nós, mortais comuns, espelhamos nossas questiúnculas. E além do mais havia os blues de Ângela RoRo - outra figura que, além de regravar divinamente a maysiana "Demais", também trazia em si mesma as referências daquele mundo outside tão representativos do momento.

Agora, Maysa reaparece na televisão, em alta definição, em quadros tão dramáticos quanto belos, ligereiramente novelizada (mas isso é quase sempre uma qualidade e não um defeito, porque sem redundância não se faz televisão eficiente). É impossível não assistir. E os mesmos críticos que reclamam da edição fragmentada - os mesmo que reclamam do viés de novela da minissérie "A lei e o crime", em cartaz na Record e da qual se falará em outra postagem - rejeitam a técnica narrativa empregada por Manoel e Monjardim. Pois a montagem em vai-e-vem, pra mim, só fortalece o impacto de Maysa na telinha: ao mesmo tempo em que não permite que o telespectador se envolva muito com a personagem, garante um distanciamento que faz sobressaltar os demônios internos de Maysa. Com tal edição, o telespectador sempre se distancia - e o faz quando já está quase cedendo totalmente aos encantos tormentosos da personagens. Na última hora, entretanto, vem um flash back, vem o corte, vem a fusão com outra fase da vida da cantora e esse instrumento eisensteiniano faz o público dar um passo a atrás e se perguntar: que mulher foi essa?
(CONTINUA)

Ligue a tevê (1)



Corra para o sofá e ligue a tevê, sem medo. Só tome cuidado para não ser atingido por um dos tiros que Patrícia-Flora dispara quando lhe batem os ventos da vilania compulsória. Se acontecer, faça como Bush: abaixe-se que o sapato - digo, a bala - passa voando e você escapa ileso. Ileso, vírgula: uma vez ligada a tevê neste início de 2009, o telespectador estará correndo sério risco de sofrer de doença similar à que acomete a grande Patrícia-Flora: televizite compulsória. Não tem tratamento nem doutor nem hospital que dê jeito. Ligou, pegou. Parece até que o velho e caquético horário nobre da antiga - antiga? - tevê aberta está de volta, com o vigor dos anos 70.

Mas, como diria a psicopata Flora Picadinho, ou Flora-Patrícia, ou Patrícia-Flora, vamos por parte. Primeiro você cai na casca de banana melô-sombria que é "A Favorita". A novela chega ao final com um ar de filme de Quentin Tarantino. Não pelo amplo uso do suspense ou pelo vasto emprego de sangue cenográfico como pode parecer à primeira vista. A analogia se deve a um outro elemento também muito usado na novela: as referências do que hoje se costuma chamar de "cultura pop" - um também vasto repertório de novos clássicos estabelecido pelo cinema, pela televisão, pela literatura ligeira e afins. Logo no primeiro capítulo, já ficavam bem claras duas dessas referências. Uma vinha do cinema - era o filme "O que terá acontecido a Baby Jane", um clássico pop sinistro, meio classe C mas com aquela elegância, em que Bette Davis torturava com sadismo evidente a irmã paralítica, Joan Crawford (veja na foto que ilustra a postagem). Se aquela dupla, naquele filme, não foi a base para Flora e Donatela, eu fecho o blogue agora mesmo. É o mesmo ponto de partida - duas irmãs que se detestam, temem uma à outra mas têm que se suportar - e a mesma inteligente manipulação narrativa que fará com que, logo adiante no filme (como aconteceu na novela) o espectador seja surpreendido com uma inversão de papéis. Quem viu o filme deve ter identificado a inspiração no início da novela - era algo tão claro quanto o fato de "A malvada", outro filme de Batte Davis, ter sido o ponto de partida para outra história recente da tevê brasileira, a novela "Celebridade".
Disse que havia outra referência clara no início de "A Favorita": essa segunda citação narrativa era mais evidente ainda, pois que vinha do próprio acervo a esta altura já clássico da própria Rede Globo. É a semelhança entre a saída de Patrícia-Flora da cadeia e o momento em que Sônia Braga deixava a penitenciária no início de "Dancing Days". Só faltava mesmo repetir a trilha sonora, com Guilherme Arantes cantando "Amanhã". Isso é manipulação de ícones, administração de clichês, gerenciamento de referências da melhor qualidade para provocar o efeito desejado - confundir o telespectador até quando for possível e, nisso, sabemos todos agora, o autor de "A Favorita" foi craque.

Mais tarde, à medida em que a novela prosseguiu, outras referências foram sendo citadas, o que só confirma essa visão da história como uma colcha de retalhos bem costurada de outros momentos da dramaturgia popular, seja no cinema ou na televisão. Patrícia, a atriz, lembrou em algum momento que a novela era um thriller - o gênero do suspense e do mistério absoluto no cinema convencional. Outro ator citou Briam de Palma como referência, lembrando a nítida inspiração dos filmes deste cineasta no climão pesado de cenas como a dos mil assassinatos cometidos por Flora-Patrícia ao longo da história. A própria Patrícia Pilar vem contando, em dezenas de entrevistas e perfis na imprensa, os elementos que ela própria colecionou para construir sua personagem, numa lista que inclui até Amy Winehouse.

(CONTINUA)

domingo, 4 de janeiro de 2009

A noite mágica de Sobreira


O primeiro livro de 2009 foi um legítimo Francisco Sobreira. Há trinta anos, a editora Ática publicou, no número 43 da série "Autores brasileiros", "A Noite Mágica", do poti-cearense radicado em Natal, exemplo quase único entre os batalhões armados de poetas natalenses a remar contra a maré e navegar nas brumas da prosa ficcional. Os contos de "A Noite Mágica" funcionam bem na série da Ática, editora que, por aqueles anos do final da década de 70, fazia sucesso publicando várias séries de livros didáticos e paradidáticos. Nesta última categoria se encaixa o livro de contos de Sobreira, com uma literatura que traz para a apreciação de um público ainda escolar relatos pontuados por atmosfera ligeiramente surreal e personagens marcantes embora nascidos de narrativas breves.

Os instantâneos de Sobreira em "A Noite Mágica" iluminam rapidamente pessoas e situações que revelam apenas o necessário para se fazer notar. Como o passageiro do conto que abre o livro, "A viagem", acariciando as serifas de sua solidão num ônibus onde todos dormem e a vigília se torna uma aventura à la Antonioni. Como o amigo que tenta sem sucesso descobrir a igreja onde se dará o casamento do amigo de farra e freudianamente confunde a cerimônia com um enterro. Como os homens tontos de ambiguidades que cambaleiam entre rituais iniciáticos presentes em três dos contos do livro - "Caçado", "Enquanto o diabo esfrega os olhos" e "O caçador de nostálgicos". Há também um certo corte que mistura simbolismo surreal e Allan Poe nos parágrafos de - repare na sugestão do título - "Os pombos".

Há, ainda, grafado no discurso literário do narrador Sobreira, uma certa inflexão nordestina de tempos recentes, com o emprego de expressões que, sendo regionais, não são forçadas - e conferem aos textos uma musicalidade que só o sotaque mais involuntário pode produzir. Talvez, pelas veredas da diversidade regional, esse elemento tenha sido levado em conta na hora em que a Ática incluiu o nosso amigo na série decidada a novos autores brasileiros. Para conseguir um exemplar, a esta altura, acho que só nos sebos - que são muitos aqui, além, em Brasília e em Natal. Mas, adianto, vale a pena procurar. "A Noite Mágica" é breve, delicadamente inexato, literariamente tocante - e com uma prosa puxada às esquinas dos dias bem vividos, de quem sabe espiar a vida enquanto ela passa, na forma de instantâneos tão vagos quanto reveladores.
P.S: A imagem que ilustra a postagem é um Pollock, subjetivo e sugestivo como a prosa de Sobreira.

Mais grave, mais agudo, mais som, mais Tim Maia


O último livro de 2009 foi também o mais divertido do ano. A biografia de Tim Maia escrita por Nelson Motta é assim como um sunday de caramelo depois de uma refeição reforçada. Sobremesa pura em forma de letrinhas. Não que "O som e a fúria de Tim Maia" seja só um breviário de peripécias pop - o que também, muito frequentemente, agora sem trema, é - mas é que a superficialidade escancarada da narrativa, leveza que condiz com o peso do biografado, ameniza o lado mais sombrio da pessoa. De maneira que ler a vida de Tim Maia segundo o apóstolo de Ipanema Motta soa ligeiro e pegajoso, assim como um sucesso do hit parade. Como uma onda na biblioteca.

O livro segue certa norma editorial em voga que faz das publicações umas quase-revistas de muitas ilustrações, furulas gráficas variadas, tratamento semipublicitário. Mas o fato é que tudo isso torna menos pesado o fardo de atravessar fases da vida em que Tim, ainda muito mais Sebastião, praticamente passava fome vivendo à sombra do sucesso alheio de antigos amigos. Mas também, com aquela vocação para se autoboicotar, chega a ser difícil acreditar que algum dia o gordinho da Tijuca chegaria onde chegou. E, mesmo já estando neste tal lugar onde chegou, continuou - como uma entidade atormentada que conhece sua genialidade e se diverte em desafiar o imponderável - a praticar o nem um pouco saudável esporte de caminhar em rotas de colisão.

Se é que alguém ainda não leu "O som e a fúria de Tim Maia", o livro pop por excelência de 2008, preciso arrumar tempo e espaço aqui para dizer que há no livro a experiência do artista como praticamente um sem-teto nos EUA (lá e então, um bicho resultante muito mais de certa loucura underground do que das necessidades sociais que tanto conhecemos aqui abaixo da linha do Equador), a doença que detonou os testítulos do autor das melhores canções mela-cueca, as chagas das privações que fizeram Tim implorar por uma esmolinha a Roberto - ele mesmo -, sem falar nos coquetéis formados por bauretes-brilho-uísque-mulheres-noitadas tudo ao mesmo tempo agora como convinha ao estilo mais grave, mais agudo, mais som, mais tudo de Sebastião Maia, esse meu xará.

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

Feliz Natal e um belo 2009

Cecília, Bernardo e os ares azul-natalinos da Esplanada nestes dias de chuva em Brasília falam por nós. O Sopão faz uma pausa, segue para esquentar um pouco o espírito nos piscinões de Caldas Novas e retorna ao batente, espera-se, logo nos primeiros dias de 2009, aí pelo dia 5, mas não vamos marcar nada que é pra não criar obrigação. A gente se encontra para novas batalhas, outras descobertas, futuras aventuras do ano que nos espera. Obrigado pela companhia e até lá.

Prêmio Sopão 2008

Blogue que se preza não passa sem uma lista. E como durante todo o ano o Sopão sonegou esse que é um direito de todos os leitores - listas são divertidas, fáceis de ler, podem ser apreciadas no trabalho sem que o chefe importune e ainda servem como dicas de livros, filmes e afins - agora a gente vai descontar. Com vocês, os melhores de 2009 segundo o Sopão - uma lista mais autoreferente do que qualquer outra que você tenha lido na internet. Tão autoreferente que comporta itens que nem têm a ver com 2009, porque o que importa aqui não é ter "acontecido", mas ter sido "citado" no Sopão no ano que está terminando. Permacultura literária é com a gente mesmo. Segue a lista:

1- MELHOR LIVRO DE ENSAIO: "Eu não sou cachorro, não", de Paulo César de Araújo.
2-MELHOR BIOGRAFIA: "Roberto Carlos em detalhes", de Paulo César de Araújo.
3-MELHOR LITERATURA: "Moby Dick", de H. Melville.
4-MELHOR ANTROPOLOGIA: "Velhos costumes do meu sertão", de Juvenal Lamartine.
5-MELHOR LUGAR MAIS QUENTE E CENOGRÁFICO DO MUNDO: Goiás Velho (GO).
6-MELHOR FILME MAIS BRUTO DO ANO: "Sangue negro", de Paul Thomas Anderson.
7-MELHOR E ÚNICA PEÇA DE TEATRO ASSISTIDA NO ANO: "Cada qual com seus pobrema", monólogo com Marcelo Médici.
8-MELHOR LIVRO DE FOTOGRAFIA DO ANO: "Seridó - Paisagens de um sertão encantando", de Fernando Chiriboga.
9-MELHOR E ÚNICO FILME DE GÂNGSTER DO ANO: "O gângster", de Ridley Scott.
10-MELHOR FILME ANTIGO EM DVD DO ANO: "O homem que odiava as mulheres", com um monstro chamado Tony Curtis
11-O MELHOR E PIOR LIVRO DE NÃO FICÇÃO DO ANO (é isso mesmo, melhor e pior): "O mundo é plano", de Thomas L. Friedman
12-A MELHOR SURPRESA NUMA SALA DE CINEMA DO ANO: "O banheiro do papa", de César Charlone e Enrique Fernández.
13-A MELHOR SÉRIE DE TV MAIS CRUA VISTA EM DVD: "Deadwood"
14-AS MELHORES POSTAGENS EM SÉRIE DO ANO: "Minha viagem com Amy" em quatro partes
15-A MELHOR POSTAGEM SOBRE ASSUNTOS COMEZINHOS MAS DE SUMA IMPORTÂNCIA: "Geléias, calções e o aquecimento global" (falando nisso, agradecimento à Iolete, que acaba de me enviar um potão de geléia feito por ela especialmente pra mim, suspendendo - vejam a honra - temporariamente sua promessa de não mais chegar perto do fogão de doces. Obrigado, mesmo.)
16-MELHOR POSTAGEM EM TERMOS ABSOLUTOS: "Deserto amado" (acabo de repassar tudo pra fazer essa retrô e cheguei a essa conclusão. Vou reprisar pra quem não leu)
17-MELHOR LIVRO SOBRE A CONTRACULTURA (li vários este ano): "Longe daqui aqui mesmo", de Antônio Bivar.
18-MELHOR VIAGEM DE FÉRIAS: São Miguel do Gostoso, mas a concorrência foi pesada.
19- MELHOR DESCOBERTA DISCOGRÁFICA ATRASADA: Charles Brown Jr.
20-MELHOR REDESCOBERTA DEPOIS DE TODO MUNDO: O show "Cê", de Caetano Veloso, em DVD
21- MELHOR POSTAGEM NÃO ESCRITA POR FALTA DE TEMPO: sobre o Natal movido a LEDs, a tecnologia da iluminação que dá novo colorido a este fim fim de ano em Brasília (na foto que ilustra a postagem, a árvore da Esplanada)

E mais:

1-PRÊMIO ACONTECIMENTO À DISTÂNCIA DO ANO: a sangria de todo os açudes do Seridó.
2-PRÊMIO MOMENTO NOSTALGIA DO ANO: a descoberta dos LPs do conjunto Flor de Cactus à disposição para baixar num blogue na internet (Som barato).
3-PRÊMIO MOMENTO ESPECIAL NO CINEMA DO ANO: "Um beijo roubado", de Kar Wai Wong
4-PRÊMIO MOMENTO ESPECIAL EM DVD DO ANO: "Amor à flor da pele", de Kar Wai Wong
5-PRÊMIO MOMENTO MAIS HILÁRIO (E PERIGOSO) DO ANO: o vazamento de gás nos subterrêneos da Câmara dos Deputados, onde trabalha este escriba e mais umas cem mil pessoas.
6-PRÊMIO MOMENTO FESTA DO ANO: a festinha de aniversário de 1 ano de Bernardo.
7-PRÊMIO MOMENTO MEIO TRISTE MAS TUDO BEM DO ANO: A ida de Plácido para BH.
8-PRÊMIO MOMENTO ALEGRÃO DO ANO: a passagem rapidíssima mas muito divertida de Carlão (de Souza) por Brasília.
9-PRÊMIO MOMENTO ESPORRO COM DOÇURA DO ANO: a postagem "Recado à morena Marina", quando ela desistiu do Ministério do Meio Ambiente.
10-PRÊMIO MOMENTO SOU SOLIDÁRIO A QUEM É SOLIDÁRIO AO GOVERNO LULA DO ANO: a postagem "Betto e Gilberto", sobre as diferenças irreconciliáveis entre Frei Betto e Gilberto Carvalho.
11-PRÊMIO ACONTECIMENTO DO ANO: o lançamento de "O poema do caminhão" em livro pela editora de Flávia e Adriano, a gloriosa "Flor do Sal"
12-PREMIO ORÁCULO DO ANO: Tácito Costa, não tem pra ninguém, com o texto "Mentiras e mistificações", sobre a campanha eleitoral em Natal.
13-PRÊMIO POSTAGEM MAIS COMENTADA DO ANO: "Borboletas", também sobre a campanha eleitoral em Natal (foram 9 comentários, o que prova o baixo índice de coments do Sopão, mas a gente assobia, olha pro lado, faz que não é com a gente e segue em frente batucando no teclado).

A anfitriã

Novo seriado do canal Sony, ficou no ar por quase uma semana, estrelando Cecília, Flávia e Adriano, fotografia paterna, roteiro materno, campeão de audiência. Breve, quem sabe, novas temporadas. O pacote, pra quem não viu, a gente ainda está providenciando.

café sertanejo - 2





O segundo café sertanejo da velha casa nova reuniu Adriano e Flávia, nossos primeiros hóspedes, mais Nina e Sérgio e as respectivas filharadas, contando com Bernardo e Cecília fazendo aquela figuração que criança nenhuma dispensa. São eles com Flávia lá no alto. No terraço, Bob pai e Bibo filho que até hoje juram não ter combinado o figurino forever young.

"A Cor Púrpura" para 2009



(Esta postagem é especialmente dedicacada à nossa amiga Marcya Reis)

Nos primeiros cinco minutos desse filme que, tantos anos depois, ainda é a cara do Cine Nordeste, no centro de Natal, somos apresentados a uma série de fatos e situações repugnantes, violentas, abusivas, intoleráveis. Celie - negra, pobre, feia e mulher - como dirá mais tarde um de seus tantos algozes, é ainda uma criança, mas já é uma adulta retirada a fórceps de uma infância estupidamente fatiada. Ficamos sabendo, somente naqueles cinco minutos iniciais, que ela está grávida pela segunda vez. E o pai do bebê é seu próprio pai que, assim como fez com o primeiro filho, também some com o segundo mal ele acaba de sair da barriga da mãe-menina. Mais uns dez minutos e Celie será praticamente vendida a um desconhecido de quem se torna um híbrido de criada e escrava sexual. Temos aqui violência contra criança, estupro seguido e seqüênciado, incesto, miséria material e moral. Em 1985, era demais para um filme americano convencional - e mais ainda quando se sabia, de antemão, que o diretor era o ex-E.T Steven Spielberg, o magnata do entretenimento que sabia fazer chorar sem que doesse tanto.



Pois em "A Cor Púrpura", tudo doía, você deve estar lembrado - sobretudo naquele início que compactava em poucas cenas um volume enorme de lixo humano e degradação social. Ontem eu revi o filme que há tempos não apreciava outra vez. Numa cópia em DVD lançada recentemente, cores estalando, brilho fervente em cada linha da tela caseira, os poros dos personagens conferindo ainda mais vida a cada situação, cada recuo e cada enfrentamento. E, ainda que impressionado com a condensação de desgraças apresentadas no início do filme, o que me saltou aos olhos acabou sendo outro elemento - este sim, spielberguiano por natureza, e normalmente a parte que, já percebi, é o que mais me faz apreciar o cinema desse moço forjado pela indústria mas capaz de renová-la mesmo enquanto máquina de fazer diversão e produzir dinheiro.



Este elemento chama-se "encantamento": está presente nas fantasias sobre a guerra que distraem o menino-herói Christian Bale em "O Império do Sol"; está impregnada na relação entre o garoto que abriga o só a princípio repugnante extraterrestre em "E.T."; está marcada qual DNA na seqüência de "Parque dos Dinossauros" em que cientistas, crianças e nós, o público, vemos pela primeira vez os dinos sobre a superfície da terra; está impressa em todo e qualquer momento daquela jornada fantástica que é "Os caçadores da arca perdida" e suas continuações. No caso de "A Cor Púrpura", a história era outra. Na época, vocês lembram que Spielberg estava tentando ganhar aquele Oscar sempre negado a ele - e, para tanto, buscava fazer o que chamam de "filme adulto".



Toda classificação é inútil nessas horas, todo mundo sabe. Mas o fato é que o cineasta recorreu a um tema forte - aquele congregado de misérias do Sul racista de um EUA primitivo - e não fugiu dele na hora de filmar tudo. Mas há uma lei no mundo do cinema convencional que vale por um Estatuto de Proteção aos Expectadores Mais Arredios à Reconstrução da Realidade na Arte. E foi dela, visivelmente, que Spielberg se valeu para tornar seu filme adulto mais palatável, embora tecendo considerações sobre aquele punhado de temas desagradáveis que estão listadas no primeiro parágrafo deste texto. Se você assistir ao filme hoje, sem a ansiedade dos tempos em que ele foi lançado, vai notar que Spielberg recorreu a imagens líricas que pontuam cada cena - mesmo as mais violentas e exasperantes, ou sobretudo estas.

Visto deste ponto de vista, "A Cor Púrpura" é, como o próprio nome já sugere, um belo poema visual composto como uma harmonia à parte de uma bela música enquanto a gente acompanha as desgraças contadas pela melodia convencional. Estou falando, por exemplo, das flores púrpuras que surgem logo no início do filme, à frente do foco das duas personagens principais que aparecem ao fundo, brincando. Estou falando da brincadeira infantil de bater as mãos, essa singeleza que abre e fecha o filme, pode reparar. O mundo é cruel, meu amigo, a negra Celie come o pão que o Diabo deixou queimar no forno de propósito, é jogada daqui para acolá e separada abruptamente da irmã que tanto ama, apanha durante o filme inteiro mas, note, no início e no final de sua jornada o que sobressai, o que fica é uma sublime brincadeira infantil de bater as mãos na seqüência certa, entre risos e sorrisos. Apesar de tudo - e todo mundo hoje em dia tem idéia do que seja esse "tudo" - o que fica é a graça de uma brincadeira de criança. Lembro da expressão usada por minha cunhada Titina, falando sobre uma lembrança de infância, ela e as irmãs deitadas sobre a barriga do pai, seu Chico. "Isso fica, viu!", costuma dizer Titina. É verdade - mas isso de presentir o que fica e o que passa é para quem tiver olhos para ver, como Titina e as irmãs têm, como Celie teve, como o filme celebra.

É bom que o Sopão encerre o ano falando desse filme já esquecido, porque ele nos dá um motivo de falar de poesia na acepção mais rica da palavra: esse sentimento que independe mesmo da capacidade de escrever e se abriga também na astúcia e no desprendimento de saber ver. O que tem de poeta que não precisa publicar por aí não é brincadeira - eles "são" poesia, e pronto. Outro dia, a cronista gaúcha Martha Medeiros escreveu algo na sua coluna do jornal "O Globo" que a gente deveria pendurar na parede para lembrar a toda hora: era uma mera, banal, comum lista de coisas que ela vê em casa todo dia e que têm alto poder de sugestão poética: o pedaço de bolo que sobrou e ficou num pires na geladeira, uma velha foto dos avós no porta-retrato, essas coisas. Aqui em casa tem um negócio assim de que eu gosto muito: a pintura gasta no muro que aparece ao fundo da janela da cozinha. Lembra o interior, o ritmo e a cor da vida no interior. Relutarei muito em pintar esse muro - parece que, assim, desenhado pela natureza que a cada chuva vai dando suas pinceladas, fica melhor. Neste fim de ano, pare e olhe em torno você também - há matéria de poesia que vai dar mais significado para a sua vida aí pertinho mesmo de onde você lê este texto agora. Pelo menos um, nem que seja um. Basta ter astúcia e desprendimento para ver. Muito provavelmentes sera algo ordinário, esquecido, que a graça da vida também passa pela aparente banalidade das coisas quietas.



Voltando ao filme: ao longo de "A Cor Púrpura" temos aquela sensível cena em que Celie, limpando a casa do novo "marido", vai retirando a casca de poeira que encobre uma parede e surge, surpresa, a pintura antiga de uma flor; temos os manuscritos em papel de cartas que vêm e vão ao longo de toda a história; temos as compotas límpidas na cozinha que é o mundo que restou para Celie e no qual ela circula tão à vontade embora cercada de desprezo por todos os lados; temos o exemplar de "Oliver Twist", com aquela gravura antiga na capa, com o qual Celie acaba de aprender a ler; temos a cortina de renda tremulando levemente como pano de fundo de uma das cenas em que a personagem é mais humilhada; temos, primor das delicadezas, o velho papel amassado onde está escrito "sky", outra peça de seu aprendizado da leitura, e que torna-se um vestígio dos tempos em que Celie ainda não havia sido separada de sua irmã. Um pedaço de papel velho, desbotado, encarquilhado, despeja no filme, quando aparece, um caminhão de poesia visual. Você há de ter um desses aí pelas suas gavetas. Apegue-se a ele e despeje uma poesia a mais na sua vida.

E tem mais: a luz que entra pelas portas e janelas da capela na cena do casamento de Harpo e Sophia (Oprah Winfrey, estonteante, carregando o filme para si sempre que aparece); o canteiro de girassóis, o blues que Shug canta para Celie ("Sister..."), assim como a dedicatória que faz antes de começar ("Ela cuidou de mim quando eu estava doente"; uma maneira terna de dizer "ela teve paciência comigo quando eu estava de porre"); o enfeite de vidro que fecha a cena do beijo de Shug em Celie; o boneco de neve que surge por trás de um aperto de mão; a canção de trabalho dos homens que constroem a ferrovia.

Por tudo isso, essa digressão quase paulocoelhiana sobre "A Cor Púrpura" se presta bem ao objetivo quase involuntário dessa postagem: desejar Feliz Natal e Ano Novo realmente renovado aos amigos leitores do Sopão. No início, não era bem esse o propósito - mas o filme, a lembrança do filme, o texto, a lembrança dos amigos, foi levando para esse lado e achei melhor não bloquear. Miremo-nos todos no exemplo daquela Celie tão triste e tão doce que nos deram Spielberg e Whoopi Goldberg. E espalhemos entre nós e quem nos quer bem esse espírito benfazejo de saber valorizar as pequenas coisas mesmo em meio ao maior sofrimento. Ou, como é muito mais desejável, quando tudo parece e está indo muito bem.

café sertanejo - 1




O primeiro café sertanejo da casa reuniu a turma que cursa o mestrado com Rejane na UnB. Na primeira foto, lá no alto, o professor Luiz Martins, orientador da aluna. E, já mais abaixo, Plácido e Marleide, que também vieram já devidamente equipados com Manoela, que foi dormir num quarto longe dessa algaravia boa.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Na tela, velhos homens do mar


O que seria do cinema de aventura sem a abnegação e a teimosia dos velhos comandantes dos navios? No fim de semana, à guisa de filmes de profundidades submarinas, saquei da estante de DVDs dois flutuantes representantes da esquadra do entretenimento para combinar com os pés d'água que lavam os jardins brasilienses sem dó, sem sol e sem piedade. "O Grande Motim", comprado a preço de banana num feirão de supermercado da Estrada de Ponta Negra, é a versão divirta-se da histórica rebelião a bordo de embarcação inglesa nas brumas do século XVIII, com um enfezado Clarke Gable mandando para aquele lugar um empedernido Charles Laughton.

No andamento das seqüências, na costura do roteiro, na amplitude da paisagem mas também nos comentários da fotografia, nota-se claramente que se trata de um híbrido - meio diversão sem compromisso, meio documento histórico. Destaca-se, contudo, a visão dos rostos - essa qualidade que o cinema dificilmente consegue nos negar: há closes espalhados ao longo do filme, geralmente closes de personagens pra lá de secundários, quase figurantes, que comentam a tragédia em curso melhor do que muita seqüência "de ação", como se diz. São respiros neorealistas antes do neorealismo sequer pensar em existir, que o filme é de 1935 - e o espírito é de Sessão da Tarde.

O cartaz da segunda sessão foi o bem mais recente "Mar em fúria" que, além do tema marítimo, guarda em comum com "O Grande Motim" o fato de também reconstruir um "fato verídico", como se diz. A semelhança prossegue: fato verídico reconstituído num tom que precisa fazer de uma tragédia notória uma matriz de entretenimento - no que, diga-se, sai-se muito bem. Resultado favorecido pelo fato de se tratar de um registro muito mais real, por força da tecnologia dos efeitos especiais. Nos seus momentos mais marcantes, "Mar em fúria" é um filme quase tátil, de maneira que, quando tudo vai por água abaixo - e todo mundo sabe que no caso desse filme isso não é força de expressão - o espectador praticamente se afoga junto. As montanhas revoltas formadas pelas águas marinhas em tempestade têm o poder tecnológico de envolver o público do filme, a esta altura já devidamente encharcado pelos dramas humanos apresentados na primeira parte da história.

Em ambos, temos a figura - meio óbvia? - do comandante de navio inflexível a um ponto quase sobrenatural. George Clooney ou Charles Laughton, não adianta: o autoritarismo mora no mar e vive de caçar Moby Dicks por aí, para a nossa desgraça ou para a nossa diversão.

De lua e de estrelas

Há duas semanas ou três, que a precisão nunca foi o forte do Sopão, deu-se nos céus do planeta uma conjunção de astros deveras curiosa. No alto, uma meia lua daquelas dos brincos das garotas dos anos 80 e, abaixo dela, alinhadas, duas estrelas brilhantes, Marte e Vênus, bem próximas. Quando a mão invisível do nosso olhar traçava, quase inevitavelmente, uma linha reta entre as estrelas, formava-se como que o assento de um balanço, desses de divertir menino, suspenso na meia lua caso, claro, o mesmo olhar desenhista completasse o esboço e traçasse outras duas linhas - cada qual saindo de uma estrela para a lua lá no alto. Um triângulo luminoso no céu da Terra, espichado como aqueles que vinham em forma de régua nos estojos escolares.

Posicionados no céu como desenho de caneta bic em papel de pão, lua e estrelas pareciam um presente para marcar um final de tarde daqueles. Era sábado e a casa esteva cheia. Nina e Sérgio vieram com a garotada para um café sertanejo com a gente e mais Adriano e Flávia, que passavam uns dias em Brasília - e levaram o invejável título de nossos primeiros hóspedes na casa nova. Depois de horas de comilança e conversa, de esgotada a série "de A a Z" dos velhos tempos da TV Cabugi, das avaliações sobre a recente campanha eleitoral em Natal, a noite foi se chegando e, em meio às despedidas na varanda, Sérgio, não por acaso um arquiteto, chama a atenção de todo mundo para o diagrama inspirador no céu - o triângulo de lua e estrelas que acabou noticiado nos jornais do dia seguinte como um fenômeno raríssimo. Fenômeno raríssimo para a ciência - que, naquela hora, pra nós, foi mais um presente a sacramentar o encerramento de uma reunião de amigos.

Dias atrás tivéramos outro café sertanejo lá em casa, desta vez com a turma do mestrado de Rejane, com direito a professor da UnB ajudando Bernardo a manejar a colher na degustação de um prato de cuscuz. Mas o Nordeste velho de guerra, resistente como ele só, também estava lá: a desculpa do encontro era promover uma despedida do colega paraibano de Rejane que está concluindo o doutorado em Brasília e vivia reclamando dessa cidade onde ninguém chama ninguém pra tomar uma. Pois chama, rapaz. E os dois encontros serviram ainda para apresentar a velha nova casa, ou nova casa velha, a um punhado de amigos que comemoraram com a gente a mudança de endereço. Breve aqui as fotos que confirmam a postagem.