segunda-feira, 31 de março de 2008

No "pobrema"


Sábado à noite voltei a estar numa sala de teatro, numa das raríssimas vezes em que assisto a um espetáculo. Nas férias, em Natal, quase consegui ver "O Casamento", peça do repertório dos Clows que ainda não conheço, mas optei por antecipar a viagem ao interior e terminei sem ir à Casa da Ribeira. Aqui em Brasília, já desisti até de entender por que, quase não vejo espetáculos teatrais (que têm uma regularidade muito maior do que em Natal, embora eu sempre desconfie que a cena potiguar tem muito mais qualidade). Enfim, Rejane ganhou convites e fomos assistir um desses espetáculos bem convencionais - você diria, comercial, mas acho que essa palavra restringe demais, as coisas são mais complexas se você tiver olho para enxergar. Fomos assistir ao monólogo "Cada um com seus pobrema", que o ator Marcelo Médici sustenta brilhantemente durante mais de uma hora, sozinho e deus em cena. São vários personagens compondo um mosaico de esquetes que costuram temas atuais, personagens da cultura pop, ocorrências do planeta Brasil. Com destaque para "Tia Penha", uma anti-Xuxa com um bom extrato do politicamente incorreto, para o divertidíssimo "depoimento" de um esnobe mico-leão dourado (tão bom que encerra o espetáculo) e, encaixado inteligentemente "antes" de o show começar, a "faxineira do teatro" que varre o palco antes de o "ator inseguro" entrar. O ator inseguro é a espinha dorsal que dá harmonia ao espetáculo todo - um tipo ansioso que não consegue se sentir à vontade num palco de teatro lotado (como, aliás, estava a sala Vila-Lobos do Teatro Nacional) e se vira contando histórias de sua vida, os micos que pagou, as dificuldades da profissão.

É um gênero de teatro e se você recolher seus pruridos e relaxar, pode se divertir um bocado. Não é, naturalmente, um Shapekespeare (e o monólogo se vale dessa constatação, pois essa era a ambição do suposto ator inseguro em cena) nem um texto de Nahum Alves de Souza. Também não se alinha a um - para "descer" um pouco no patamar - Miguel Falabela & Maria Adelaide Amaral, autores do "comercial" que aqui e ali até "transcende" - esse difícil objetivo da grande arte. "Cada um com seus pobrema" está mais para Tom Cavalcanti e até para o nosso saudoso Espanta Jesus, a quem nunca vi no palco, mas muito vi na TV Potengi, fazendo a hilária "Bastinha Procês" (naturalmente com uma produção mais pobre, mas de propósito idêntico). E, enquanto dava risadas com Marcelo Médici (é aquele ator que fazia um açougueiro gago - e também inseguro - na novela Belíssima) eu pensava um pouco sobre esse gênero de teatro. Será que ele também não merece o lugarzinho dele? Bárbara Heliodora chamaria isso de "retrocesso teatral", mas aqui embaixo, onde todos se misturam e cada um merece a diversão particular que lhe apraz e - também - faz pensar, entendo o apelo e o agrado proporcionado por atrações como "Cada um com seus pobrema". Também fiquei matutando sobre a sala lotada - algo que não deveria, mas me surpreendeu (eu também subestimo coisas evidentes para quem sabe manter o olho bem aberto). Mas é isso: um ator exposto na tela global + uma aparição dele, encenando um dos esquetes, no programa de Jô Soares (que eu abomino, mas compreendo que tenha grande audiência) + (e aí é que vem o fundamental, o inovador nessa história) o YouTube, onde, nem me dei ao trabalho de checar, tenho certeza de que estão trechos do espetáculo (como estão os da Teça Insana, outro filiado ao gênero de sucesso acachapante).
P.S: Na mosca. Passeio no YouTube e tá assim de esquete do "Cada um". Segue o link para ver a "Tia Penha": http://www.youtube.com/watch?v=jzQ-FNY7mOo

Um comentário:

titina disse...

Tião esse cara é muito bom ator. E o teatro que ele faz também, pura crítica social. Nunca assisti nada ao vivo mas todos falam que é bom e vi cenas no youtube. Tia penha é tudo que há. Maravilhoso.
Acho que o teatro dele é mesmo é " popular", muito mais que comercial. Isso é muito bom, coisa boa que chega a todo mundo.
Massa!!
Que bom que vocês foram ver.
E vá mais ao teatro, aí já tem uma cena muito massa, a cidade tem até mostra internacional. Quase tudo passa por Brasília.