segunda-feira, 10 de março de 2008

Diário de férias - 6 (um falso guia)

APONTE...

A ponte não é para ir nem pra voltar, é somente para atravessar, ver céus listrados passando entre fios metálicos, enquanto lá embaixo o Potengi serpenteia na perpendicular dos pneus dos carros rumo ao tenebroso Atlântico. Finalmente ajoelhei-me motorizado aos pés da ponte, vi sua imponência ventilada e uma vez tragado por suas pistas, desemboquei no ruge-ruge dominical da Redinha negra, pobre, barulhenta e suada. No bar mais lotado, o cantor sintetizado relembrava hits de Raul Seixas, enquanto um navio mercante grandão e vermelho adornava o vasto vão da ponte.


ARRANQUE...

Em Acari, o problema da água é cada vez mais grave. Ai de quem não tem reais para pagar pelos tonéis de minerais ou por outros mananciais. Enquanto isso, a prefeitura ignora Kyoto e arranca pela raiz - eu disse "arranca pela raiz" e não apenas "cortar", "podar", "aparar" - metade das algarobas daquela pracinha que é quase um canteiro na avenida principal. A rua da Matriz perdeu três ou quatro algarobas que ajudavam, ainda que pobremente, a filtrar o ar que a cidade respira, absolvendo o monóxido dos caminhões que sobem - ou descem - a ladeira. As coitadas - falo das algarobas - foram acusadas de propiciar a dengue no sítio em questão. E prontamente executadas sem que a população local se dê conta do alcance do crime. À noite, sentado em minha cadeira na calçada, apalpo a brisa enquanto vejo o Jardinense subir e descer levando a bordo minhas memórias de secundarista. Vai, Jardinense, e traz de volta um cheiro de verde algarobado para a praça do Acari ameaçado.


CONSTRUA...

Pipa está virando um grande paredão que se move em direção ao mar. Um apinhado, na vila que a bem da verdade desde sempre foi feita de estreitezas em alvenaria e amplidões em negócios. A continuar assim, vai faltar espaço para o ventinho tão típico passar. Minha esperança é que sobre um beco qualquer entre as construções em estilo mediterrâneo - a moda local que os turistas estrangeiros trouxeram. Ecologistas profissionais ou aspirantes impressionam-se com a língua de água negra que tomou parte da praia. Eu, não. Lembro de já ter visto aquele riacho de maré há uns bons dez anos - e de depois nunca mais tê-lo visto. Os locais dizem que é um fenômeno natural chamado "maceió". Mas esse maceió de areia me incomodou menos que o paredão geral que estreita ruas, enfurna caminhos e subtrai ventilação. E não é que, de tão profissionalizado, o turismo de Pipa conseguiu finalmente manter visíveis e pisáveis os paralelepípedos da avenida Baía dos Golfinhos? Já lá se vão uns anos, a prefeitura de Tibau tentava, tentava mas nunca conseguia. Os locais sempre davam um jeito de espalhar areia sobre as pedras para, claro, proteger a sola dos pés que sempre preferiram andar descalços. Agora, pelo jeito, têm que suportar a quentura das pedras. Ou aderiram de vez às célebres alpercatas de plástico made in Brazil.

2 comentários:

Klecius disse...

Tião, achei a ponte assustadora, apesar da beleza inegável...

ana sua mana disse...

bom ter vc de volta por aqui, depois das férias.