domingo, 31 de março de 2013

PECADOS DA SEMANA

 



Meu Domingo de Ramos foi uma bicicleta, pra me harmonizar cristianamente com os novos hábitos de consumo-esporte-deslocamento dos que estão muito além de Deus. Adquirida em supermercado a preço de ocasião que é pra não incorrer no pecado do farisaísmo professante.

Meu jejum de esmoler literário buscou o pão essencial da palavra no anti-santo Itamar Assunção, o músico-poeta que ganhou liturgia nova via o catecismo blues da não freira Zelia Duncan, no CD "Tudo Esclarecido". Do qual recomendo pelo menos a audição - de joelhos, por favor - de "Noite Torta". Coisa para contrastar com estes dias de paixão.



Meu lava-pés foi testar minhas crendices sociais assistindo ao mais recente filme de Cláudio Assis, uma absoluta antimissa marginal filmada em branco e preto com maestria comovente pelo Papa Walter Carvalho, interpretada e protagonizada pela figura natimorta de um poeta de rua do tipo que tanto denuncia os que estão à sua volta quanto lambe a suculenta pena que alimenta em relação à sua própria pessoa. Um Cristo de outra extração, feito pelo ator Irandir em transe glauberiano - uma estranheza que agora as leis de incentivo permitem sem que o realizador precise doar a sua vida pelo irmão, digo, pela arte. Se o público não vem atrás como apóstolo excitado deste evangelho ao avesso o problema é dele, dizem. 




Minha sexta-feira santa foi festiva se comparada àquela dos meus tempos de outrora. Nada de desligar a televisão, nada de música fúnebre no rádio, nada de casas não varridas, comidas não tocadas, banhos não tomados, nada de nada de nada de nada de antigamente - que, por sinal, parece que foi ontem. Agora tudo pode: graças a Deus, somos os novos deuses da liberdade individual. 

Claro que um bispo aqui outro acolá, às vezes onde menos se espera, onde menos cabe a presença de tais bispos, atrapalha um pouquinho: mas o que seria da vida sem um obstáculo pra gente remover? Então: minha sexta-feira não foi santa, foi comum. Melhor (digo, pior): foi bem pecadora. Repleta de sons, imagens, letras, notas (musicais), percepções, contemplações.

Como a gente nunca se contenta, faltou nostalgia:  deu vontade ver a Paixão de Cristo na televisão em branco e preto. Mas nenhum canal exibiu.  Meu pecado supremo: ouvir Madeleine Perroux como quem prova uma hóstia ensanguentada no dia do sacrifício de Adonai. Madeleine é irresistível e Deus há de me perdoar. (Divida este pecado auditivo comigo dando um play num dos videos que acompanham esse não evangelho).


Meu sermão da montanha, o  pungente depoimento do quase padre de tão sofrido João Batista de Andrade, o cineasta que o Brasil parece ter esquecido lá nos anos 80. Sou seguidor de João desde que um dia, em 1984, entrei no Cine Veneza, em Recife, e esqueci quem era, quando era, onde era, o que era, ingressando sem lenço nem documento na história e nas histórias de "A Próxima Vítima", filme em que João Batista usa uma série de assassinatos de prostitutas no bairro do Braz, em São Paulo, para falar do que, diria ele, são questões sociais eternamente tratadas como se fossem problemas policiais. 

O filme mistura demandas sociais com telejornalismo viciado, uma pegada noir nunca oportunista com um ritmo de thriller que jamais perde a brasilidade. Vi e revi - e nunca mais vi outra vez porque é um desses títulos que não apareceu em DVD (desesperançado demais, só tem chance se virar cult). No filme, João insere todo o seu ideário falido, seu sofrimento professo diante dos obstáculos que a vida colocou na vida dele e do país dele - por acaso, o nosso; não olhe para o lado, leitor. O baque de 64 (golpe), a trava de 68(AI-5), o trauma de 75 (Vlado). 

E no livro, tudo isso está muito bem narrado, organizado, dissecado, estudado e só não posso dizer que está digerido, porque João Batista de Andrade (que também realizou o já clássico "O homem que vivou suco" e faria aqui em Brasília "O cego que gritava luz") tem o bom gosto de se declarar permanentemente em crise, sem nunca superar certas coisas. Um delas daria um filme que jamais foi feito - bem que ele tentou: "Vlado", a história do homem e do seu tempo. 




João foi amigo de Vladimir Herzog e integrou a equipe do telejornal revolucionário que o jornalista assassinato pela ditadura militar colocou  no ar pela TV Cultura de São Paulo. Alguém poderia retomar o projeto e filmar "Vlado": até mesmo alguém com um olhar tipo ano 2000, como Fernando Meirelles, que vem de outra tradição no cinema brasileiro. Outro dos novos realizadores poderia seguir a onda e tirar do papel o projeto "Os Demônios", outro filme que João Batista não conseguiu fazer, sobre um tema que palpita na ordem do dia: as limitações da lei de anistia expostas no roteiro feito com Lauro Cesar Muniz a partir da volta de um exilado ao país na brisa política de 1979. 

Filmes que não foram feitos, no livro de João Batista editado pela Imprensa Oficial de São Paulo e organizado por Maria do Rosário Caetano, ganham força muito maior do que tantos que já entraram e já saíram de cartaz sem deixar rastros. É preciso dar atenção a eles, esses outros sacrificados da semana das oferendas mais sofridas. 


Domingo de Páscoa, cá estou eu, esperando o suor da caminhada evaporar do corpo pecador enquanto atualizo a sopa amarga que o jejum frequentemente me serve. Todos continuam sendo muito bem-vindos a tal banquete, meus irmãos em lástimas, glórias e registros docemente macerados.

sábado, 5 de novembro de 2011

Novo endereço

O SOPÃO mudou para www.novosopaodotiao.blogspot.com. Pegue o atalho clicando aqui.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Considerações em torno do "Palhaço"

Meu Holden Caufield foi Pedro Bala. Meu "Apanhador no campo de centeio" foi "Capitães da Areia". Meu Chaplin, Renato Aragão. Meu Lennon, Zé Ramalho. Porque no interior nordestino dos anos 70, tudo era mais lento. Mas não se engane, tudo era mais sólido. Tudo rendia mais, possibilitava muito - e desse tudo não se costumava desprezar nada. Era como a metáfora escolar preferida pelas professoras primárias da época, a da carnaubeira, palmeira da qual nada se perdia, dos frutos às fibras. Essas notas me chegam a reboque de filmes vistos recentemente, como a adaptação do "Capitães da Areia" pela neta de Jorge Amado, que traz de volta um livro fundamental e iniciático; e o segundo Selton Mello, "O Palhaço", onde a atmosfera é de um certa urbanidade de hora do ângelus no interior do Brasil que transpira anos 70 por todos os frames. . Leia o post completo no NOVO SOPÃO DO TIÃO: http://novosopaodotiao.blogspot.com/ Pegue o atalho clicando aqui.

terça-feira, 1 de novembro de 2011

Nas cercanias da Ribeira

Da ultima temporada em Natal, no país do elefante manso. Clique numa das fotos para ampliar e ver todas no slide show.

Leia na Hamaca

"Preenchido por essa mistura de sensações, ninguém deixa a missa da manhã de domingo aos tropeções: é uma saída mansa, algo etérea, quase em câmera lenta, como se as almas redesenhadas pela purgação ritualística dos pecados voltasse à vida normal com cuidado e calma, ciosa de não cometer novas infrações pelo menos nas primeiras horas da semana que se reinicia. Todo mundo sai um pouco santificado da missa matinal do domingo, quase da mesma maneira indecisa e trôpega como o bebum oficial da cidade deixa o último bar ao alvorecer do dia – e era isso que aquela visão mostrava. Um instante do tipo que não vai figurar jamais nos roteiros consagrados dos guias turísticos, da qualidade daquelas atrações que não tem preço, da modalidade de fruição que depende muito mais da disponibilidade do viajante do que da ansiedade do turista." Do post "Nas Brumas de Pirenópolis". Leia o texto completo clicando aqui.

Valsa desesperada



Esta é a Sinfonia de Praga, a música que enche as paredes do refúgio de Luca Rossini nas cercanias da cidade do Vaticano quando ele quer distância do mundo e a proximidade de si mesmo que aquele mundo nem sempre permite. É ao som dessa valsa atormentada que ora envolve e nina o ouvinte e ora o arremessa na parede com a força de suas cordas que o cardeal Rossini mitiga suas danações pessoais em mais um daquelas típicas narrativas dramáticas do autor de best seller Morris West.

O livro é "A Eminência", mais um da série vaticaniana que contém também o bom "As Sandálias do Pescador" e o excelente e subestimado "O Advogado do Diabo", primeiro a cair nas mãos do projeto de leitor que eu fui e continuo tentanto melhorar. Luca Rossini é um cardeal ítalo-argentino torturado da maneira mais escandalosa e que, acolhido no Estado da igreja católica, lambe lá suas feridas incicatrizáveis, abanando-se com uma folha corrida que envolve, além da perseguição política sob a ditadura militar argentina, um caso de amor e uma filha não autorizada. E, mesmo assim, o homem vê-se na iminência de ser eleito papa - o sucessor mais heterodoxo possível de um morto com todas as caracteríticas de João Paulo II.

Um virtual e possível papa do terceiro mundo, marcado polticamente pelas sangrias desse pedaço do planeta e demarcado pessoalmente por uma crise de fé na igreja e nas pessoas que não encontra qualquer pararelo no Bento XVI em vigor. Morris West, que apontou para a emergência de Karol Wojtyla antes do João Paulo II que não veio da Itália ocupar o trono de Pedro, escreveu de olho em mais uma previsão. Ainda não foi desta vez, mas a dramaticidade - descontados os jorros contidos nos diálogos que são tão a cara da prosa bestsélica de West - está toda lá, neste "A Eminência" onde a citação da Sinfonia de Praga é parte do pacote de circunstâncias, crises e possibilidades exploradas pelo livro. A música na íntegra você encontra grátis no YouTube e livro completo está disponível nos sebos da esquina.

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Linchamento e chantagem em série



"Como era de se esperar, o ministro do Esporte, Orlando Silva, foi para o chuveiro antes do término da partida. Pesou demais contra ele o fato de o Supremo Tribunal Federal ter autorizado abertura de inquérito para investigar seu estilo administrativo.

Como sempre, a partir de agora o noticiário deve ficar mais ameno, até os fatos denunciados cairem no esquecimento das notas de pé de página. A rotina do noticiário permite até mesmo fazer um gráfico de intensidade: como na Sinfonia número 1 de Gustav Mahler, em que a música começa com instrumentos de sopro que só se tornam perceptíveis no crescendo quando entram em cena os violinos, o enredo dos escândalos tem uma lógica.

Flautas, fagotes, oboés e clarinetas servem para envolver o ouvinte no ambiente intencional da composição. Quando ele se dá conta, a sinfonia se torna a realidade dominante.

No noticiário sobre “malfeitos” no governo, alguém sopra uma suspeita, que vai se reforçando num crescendo até o ataque maciço com todos os instrumentos. Então, como numa avalancha, o acusado é arrastado para fora de sua cadeira. Nesse processo, tem-se a certeza de que o acusado, em algum momento, será expelido do cargo. Mas não há garantias de que haja justiça. Como existe o pressuposto de que em todo cargo público sempre haverá uma irregularidade a ser descoberta – mesmo porque as auditorias são permanentes –, a safra de escândalos é garantida.

Mas talvez seja hora de se questionar o efeito dessas denúncias no varejo: caem ministros mas não se altera o esquema que parece dominar toda a política, em todas as instâncias.

O jornal O Estado de S.Paulo, por exemplo, já criou o selo “troca na Esplanada” para acompanhar o rodízio de ministros em Brasília e o selo “emendas secretas”, para acompanhar o caso das propinas na Assembléia Legislativa paulista. A Folha de S.Paulo já olha para o retrato oficial do Ministério, abrindo apostas sobre quem será o próximo acusado.

O Ministério do Trabalho é tido como a bola da vez.

Como o processo de “fritura” de ministros sempre envolve, além do barulho da imprensa, intensas movimentações de bastidores na eterna competição partidária por bons cargos, torna-se impossível afirmar quanto do que se publica representa a verdade e quanto é denúncia vazia, a ser confirmada por investigações oficiais.

O pote cheio de mágoa

O fato concreto é que o sistema funciona como uma teia de aranha: apanhado na armadilha, quanto mais se debate a presa, mais enredada fica. Assim, ao responder no varejo a acusações que lhe são despejadas no atacado, o acusado apenas dá mais instrumentos aos seus adversários de fora e de dentro do governo.

Tem essa natureza o noticiário escandaloso: como há uma convicção generalizada na imprensa de que todos os indicados pelos partidos aliados para cargos no governo – em qualquer governo – estão ali para desviar dinheiro, o trabalho jornalístico consiste apenas em confirmar o pressuposto de culpabilidade. Por mais que esperneie e repita seus argumentos, o acusado acaba soterrado nos escombros de sua própria reputação.

Há bandidos notórios, é claro, mas no tribunal de rua estabelecido pela imprensa não se faz justiça – faz-se primeiro o linchamento. Acontece que depois da execução moral não se pode enterrar o cadáver simbólico em algum ponto perdido no deserto. Eventuais injustiçados em geral se isolam no anonimato, distantes do poder, e a imprensa os esquece. Mas alguns retornam à cena, como fantasmas a clamar por justiça.

O ex-diretor do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes, Luiz Antonio Pagot, por exemplo, tenta se fazer ouvir para dizer que está magoado com a presidente Dilma Rousseff. Ironicamente, o primeiro veículo que lhe deu ouvidos foi a revista Veja, ao reproduzir, no começo de agosto, informações de deputados do Partido da República dando conta de que ele estaria se queixando publicamente pela forma como foi demitido.

Posteriormente, em setembro, a mesma informação voltou a circular em blogs de jornais, como se fosse um recado querendo chegar aoPlanalto. Nesta semana, o mesmo texto, com a mesma declaração, chega ao Estadão, sem maiores explicações, em reportagem curta publicada na terça-feira, dia 25..

Há claramente uma articulação por trás da repetição dessa mesma notícia.

Ora, se os jornais acham que ele foi injustiçado, seria o caso de rever as denúncias que a própria imprensa publicou contra o ex-diretor do DNIT e limpar sua reputação, em vez de dar curso a comentários que cheiram a chantagem.

Simples assim."

O texto acima é a análise desta quinta-feira sobre todo o processo que levou à derrubada do ministro Orlando Silva. O clipping do Sopão destaca e recomenda: leia, emoldure, pregue na parede e espere sentado a confirmação do que está dito aí. Se enjoar, bote um filme que acaba de sair no DVD player: Militância Dispensada. Direção: Dilma Roussef. Produção: PIG. Lançamento: Abril Vídeo.

quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Orlando no lixo


A paciência de Orlando, a expressão do ministro, o olhar deixa-estar do homem do PCdoB, a caneta que ele tamborila entre os dedos, o suspiro que vem quando nada mais – nem o olhar, nem o tamborilar e tampouco a paciência – dão conta de oferecer qualquer resposta possível. Toda vez que a câmera da TV Câmara mostrava o ministro Orlando Silva no depoimento dessa terça-feira numa das comissões da casa era como se Ingmar Bergman tivesse voltado à vida, desistindo das angústias internas do seu país de origem e ressuscitado só para rodar um último curta-metragem em Brasília.

Um rosto marcado, um Orlando cansado, vencido, derrubado mas com uma gota de dignidade negada ali diante de netinhos dos ditadores brazucas, mostrando involuntariamente o que é ser atacado por todos os lados – a visão do ser humano acuado no país de Tiradentes, antes do político da “Veja”.

O leitor pode me jogar na cara a reclamação da ética, da honestidade, do brio com a coisa pública, pode me cobrar a falta de suposta imparcialidade, pode devolver pra mim a mesma queixa que alimento em relação aos analistas políticos dos jornais quanto a torcer mais do que analisar, que eu não me entrego, não mudo de opinião. Não perco por nada a louvação daquela visão do cachorro morto pisado com lascívia e reagindo com a menor porção de integridade a que um cidadão – qualquer um, e não ria porque em outra circunstância você que me lê agora pode ser o próximo a se ver cercado e indefeso a não ser pela própria expressão do seu rosto no banco dos réus – tem direito.

Um monge, aquele Orlando Silva no paredón da comissão. Um São Sebastião flechado até o último músculo, inocente ou não, sujo ou injustiçado, num caso que tipifica tanto o grau das coisas que faz a gente pensar: e por que os deputados que mamaram nas tetas do dinheiro fácil da ditadura brasileira (mamaram mesmo, eram bebês beneficiados pela ordem arbitrária das coisas, a imagem aqui é mais que uma metáfora) não declaram logo este João Dias, o novo e festejado Cabo Anselmo, um deputado com mandato de lisura igual a eles? Ou por outra: por que não substituem de uma vez por todas o Judiciário pela velha imprensa? Para ministro do Supremo, o editor-chefe da “Veja”. Para compor o STJ, a cúpula do aquário da “Época”, essa que, fazendo  coro à manchete do “Estado de São Paulo” – “Comunistas crescem à sombra do poder”, e você não está numa bolha paranóica pré-Estado Novo – demoniza com a covardia dos poderosos um partido político sem estrelas no peito nem anunciantes na carteira?

De uma hora para outra, tudo que se refere ao PCdoB virou suspeito, ilegítimo, praticamente clandestino como gostariam, de fato, os setores que alimentam este estado de coisas. Se o partido se construiu por meio do domínio do movimento estudantil, é condenável. Se aliou-se na história recente ao PT dando sustentação a mais de um governo de esquerda, idem. Mas se nasceu de uma cisão com o antigo PCB, o partidão, é uma nota final no último parágrafo de uma matéria de meia página – que importância tem a circunstância histórica diante do interesse imediato dos donos do veículo de comunicação envelhecidos pelo tempo e pelas posturas? Com a colaboração dos novos jornalistas, quase todos produtos de uma classe média igualmente velha e anestesiada pelo tédio da própria desimportância, a história só poderia mesmo ir para o lixo.

Orlando Silva, com seu rosto de ator político e humano repleto de expressões do abandono e do sacrifício em praça pública, bem pode ser a máscara feita sob medida pra um país de papel com data de validade vencida. O olhar pesado que ele joga sobre sua platéia de denunciantes seria só o reflexo involuntário do que esta porção do Brasil consegue dirigir ao espelho. É um olhar de despedida – de um longo e dolorido mas efetivo adeus que vamos dando ao que fomos. O cargo vai para o lixo, mas alguma coisa mais também terá o mesmo destino. É este refugo o que dá pra ver no fundo do olhar do ministro decepado.

Rompimentos



Casais rompem. Amigos também. Políticos, quase sempre. O que seria da política se não fossem os rompimentos? Os grandes, os pequenos, os autênticos, do tipo que tiram tudo do lugar, ou os de oportunidade, que apenas fingem uma mobilidade inexistente? A partir daqui, vai cada um para o seu lado, num rearranjo do estado das coisas, as definitivas ou as impermanentes, num movimento que deixa rastros, abre feridas e depois joga variáveis porções de sal no interior de cada uma delas só pelo prazer de parecer prevalecer intacto sobre o outro com quem se rompeu, embora seja de impressão geral que as cisões são democráticas em questões de perdas e danos. Pelo menos quando há cisões de fato – e não as intempéries de zum-zum-zum que quem vive delas semeia para festejar nas colheitas vãs dos antifatos da vida.





Vem da pequena, imutável, circular e impermeável política local do país do elefante a notícia espetacular de mais um rompimento tão drástico quanto o parto de uma formiga. Ouriços, fogos, perplexidades autofabricadas, um vasto e novo veio de fofoca disfarçada de jornalismo que se abre no falso minério dessa terra tão infértil no terreno do avanço cidadão.  Um vice corta os laços, uma titular atira-lhe de volta as tesouras do rompimento escandaloso, uma eminência parda subitamente ganha cores – e a vida cá embaixo continua, com os súditos da prefeita de fantasia tratando de ganhar a vida longe dos alvoroços dos colunistas remunerados.


O rompimento, aqui neste estágio, é apenas ingrediente de conversa no balcão do comércio, na mesa de bar, na calçada enluarada do Vale do Pitimbu, na orla onde os ambulantes estão preocupados mesmo é com a nova variação do forró-padrão capaz de interessar à clientela em férias. Há, claro, subscrições – algumas extremadas – a um lado ou ao outro, mas tudo não passa de uma simulação de conflito que de fato não existe, de um exercício pessoal em que cada projeto de cidadão não realizado precisa ter a sensação de importância. Desconhecem que os verdadeiros rompimentos são outros, muito mais distantes da terra dos elefantes acomodados.



O rompimento real e necessário refaz os conceitos, apara arestas onde muita gente se feriu sem perceber, assim como quem passa correndo pela sala e enfia o joelho na quina da mesa. Constrói novas pontes e explode outras. Desmente noções estabelecidas e injeta verdade nova em algo que só  os visionários enxergavam e, coitados, sozinhos anunciavam. Os  rompimentos têm essa capacidade de construir com as mesmas peças um novo quebra-cabeças, durável até o ponto em que este, por sua vez, esteja já gasto de tanto ter sido jogado pelos adversários e aliados. Os rompimentos também são traiçoeiros, e muitas vezes mostram mais as semelhanças das partes que se apartam do que as diferenças que elas querem fazer crer que levaram a tal arrebentação.

Em torno dos rompimentos, também estão os coadjuvantes. Aqueles que, na ansiedade de tirar proveito da briga de casal, produzindo novos e impensados casamentos, terminam por inocentar a violência de um cônjuge que até bem pouco tempo era visto como intolerável. É preciso paciência, tempo, uma certa periodicidade muito própria dos rompimentos para que se mostre a reação apropriada a eles: caso contrário, o suposto beneficiado entra na festa e, perdendo a chance de mostrar a vulgaridade do casamento desfeito, termina por legitimar o falso – e temporário – divórcio. Calma: os rearranjos não se fazem de uma eleição para a outra; mesmo quando os rompimentos se dão menos de um ano após a vitória de algo que parecia tão sedimentado.

Os rompimentos também podem ser estágios, parte de uma escadaria de etapas que a vida vai colocando sob seus pés sem que você se dê conta, como num desenho animado surreal e imperceptível a não ser no nível do sonho. Você vai subindo – ou descendo, conforme o tempo, a idade ou a pessoa – e nada pode permanecer exatamente como estava. Falhas no corrimão de repente ameaçam a segurança de uma subida – ou descida – antes vista como tão normal. Um pedestal que parecia sóbrio como mármore imperial começa a parecer manchado. Mesmo assim você ainda aprecia aquela escadaria e reconhece a importância de cada degrau. Mas vê se romper o ritmo daquela escalada antiga, a elegância de lorde da ascensão, e acha por bem caminhar em passos mais pausados, que a idade traz o cansaço, a maturação, as memórias e o bom senso – tudo junto, como essa massa caótica de mágoas que produz um rompimentos. Você não quer julgar ninguém e muito menos se declarar puro e superior ao final da subida, mas os rompimentos sem espetáculo desnecessário fazem parte do processo e por isso mesmo não precisam ser definitivos. Há uma etapa em curso.

Mas tudo isso é uma imagem vaga demais para quem vive dos rompimentos políticos, precisa deles, tira deles o tostão publicitário de suas notas, alimenta com eles as bolas de cristal de suas previsões batidas, faz cara de portador de muitas fontes e conhecimentos secretos que lhe garante, se não o acerto jornalístico sobre a cena do próximo capítulo, ao menos a tranqüilidade de saber que optou pelo lado certo na hora da decisão: depois tudo volta ao normal, mas no instante do cisma, isso é muito importante e precisa ser muito bem pensado. Com quem você vai romper para ser coerente sem perder o trânsito com a parte preterida?   

Lennon rompeu com MacCartney, Sarney rompeu com os militares, João Bosco rompeu com Aldir Blac – ou terá sido o contrário, a mesma ilustração na ordem inversa. Ou talvez não existam rompimentos unilaterais: assim como dois bicudos não se beijam, tanto quanto se um não quer o outro não se aproxima, é possível que os rompimentos reais só se dêem quando por acordo mútuo. E ainda assim são variáveis como o multiculturalismo brasileiro. Convém nunca generalizar, mesmo que a dissolução Rosa-Robson pareça um exemplo tão estandartizado dos falsos cismas. E além do mais, Aldir Blanc e João Bosco já voltaram a se entender – sinal de que o rearranjo se completou, por mais que tenha demorado para acontecer. Na política, costuma ser bem mais rápido – e intelectualmente desonesto. Na vida real, leva o tempo que uma pedra em formato idêntico a um elefante gasta para, triturada pelos ventos e pela chuva, reduzir a pedregulho o que parecia montanha.

Falando nisso, será que um dia Dilma vai romper com Lula, como querem, torcem e cada vez menos analisam os articulistas políticos do ex-país do Carnaval?

quinta-feira, 20 de outubro de 2011

Fala, PCdoB



Pois é, o SOPÃO também tem horário eleitoral - gratuito, mas não obrigatório: aqui só passa o programa de quem tem realmente o que dizer. E o PCdoB, o alvo da vez da velha imprensa, tem muito a falar neste momento. Além do mais, o partido tem a inteligência de não ficar somente na defesa e partir para o ataque que politicamente muito mais válido: mira direto nas eleições municipais do ano que vem. Nisso, o programa tem Olinda, tem Porto Alegre (da bela foto acima), tem Manuela (essa força de beleza e renovação política que atua dentro do sistema sem perder de perspectiva o que está fora dele), tem Jorge Amado, tem a São Paulo dividida do Netinho Classe C. São dez minutos dignos de se ver, bem menos tempo que se gasta lendo páginas e páginas de acusações todos os dias na internet, no jornal ou na tevê.

Assista ao programa que está sendo antecipado pelo portal Vermelho clicando  bem  aqui.

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Filmes que você ainda ver ver em 2011








Do alto para baixo: 1) "Inquietos", o novo Gus Van Sant que explora inusitado casal - ele com fixação em funerais, ela com doença terminal -; 2) "A dangerous method", em que David Croneberg filma os embates entre Freud e Jung; 3) "Tudo pelo poder", com George Clooney investigando agora os bastidores de uma campanha eleitoral e finalmente 4) "O palhaço", o segundo filme dirigido por Selton Mello. Até dezembro, entra tudo isso em cartaz; alguns já nas próximas semanas.



Muito além do laboratório



"Diretas Já, Diretas Já, Diretas Já! Se você, caro leitor, nunca teve a oportunidade de participar de um coral formado por 1 milhãos de vozes, eu certamente recomendo a experiência. Nada pode nos preparar para o som penetrante que nasce dessa sinfonia de anseios e desejos e nada desse lado da Via Láctea fará você esquecer essa música, esse quase pranto, pois ela, com ele, carrega o tipo de som que entalha memórias para toda uma vida. Para enquanto durar o sempre de uma vida mortal."

"Neste livro, eu proponho que, assim como o universo que tanto nos fascina, o cérebro humano também é um escultor relativístico; um habilidoso artesão que delicadamente funde espaço e tempo num continuum orgânico capaz de criar tudo que somos capazes de ver e sentir, como realidade, incluindo noso próprio senso de ser e existir."

Os trechos acima são da lavra do cientista Miguel Nicolelis, no seu "Muito além do nosso eu", um livro que de tratato científico hermético não tem nada. Nicolelis vai de um comício das Diretas, o movimento popular que marcou o ano de 1984, às intricandas conexões do cérebro humano como quem dá um passeio na praia - a praia da curiosidade científica, da especulação em busca do  conhecimento. Como já dava para desconfiar, o Nicolelis escritor que surge no livro é assim como um Steve Jobs: um cara que, tanto quanto se decida à pesquisa e à interrogação científica pura e ao mesmo tempo aplicada, também se faz um comunicador de primeira das descobertas que consegue. 


A narrativa ensaística que ele faz neste livro é de uma leitura não menos do que saborosa, ainda que o tema seja mais propício à dificuldade do que à fruição: mas justamente isso é que multiplica ainda mais o valor da aventura escrita para quem, do lado de cá, submerge nas páginas do lançamento da Companhia das Letras.

Mas é cedo para deixar aqui no Sopão uma impressão geral, embora a inicial seja a melhor possível. Enquanto a leitura não finda - oba! - vamos com aquele trecho acima e com a transcrição, em video, da não menos instigante entrevista que Miguel Nicolelis deu ao programa Canal Livre, da rede Bandeirantes. Vale cada minuto que você passar diante desta tela aqui assistindo a esta conversa.


domingo, 16 de outubro de 2011

Pirenópolis em sépia

Para melhor apreciar a jornada fotográfica abaixo (mais informações no pé das imagens), clique aqui, dê play e ouça Royal Cinema, a mais bela valsa jamais composta pelo bicho homem, feita pelo seridoense Tonheca Dantas.
O Sopão acaba de chegar de um fim de semana em Pirenópolis, no velho e bom sertão goiano, para onde foi numa excursão em parceria com o não menos afamado blogue "Fragata Suprise", pilotado por Cínthia Campos, com seu fino senso de avaliação cultivado em sem número de viagens de trabalho ou a pretexto de mera curtição. Se você ficou curioso, visite a Fragata clicando aqui. Se você quer saber o que tanto o Sopão vê em Pirenópolis - além da óbvia localização próxima a Brasília, um lugar, ademais, que parece sempre longe de tudo - passe a vista na galeria acima assim a título de teaser do que vem po aí. Em breve, um post completo sobre as nossas andanças pelos domínios pirenopolinos, um lugar onde sempre se encontra um jeito novo de apreciar aquela velharia que a gente estima tanto.

Bastidores

Com dona Sebastiana e dona Izabel na plateia do show de Roberto Carlos no ginásio Nilson Nelson, em BSB citi.

Novo diário de férias

Desde as 21h da última terça-feira e até o presente momento, num processo que em algum momento chegará à sua plenitude, o autor deste Sopão encontra-se em férias de dez dias. Digo que dá-se um processo em curso porque, ao contrário de muita gente, não me coloco, me sinto ou me reconheço em férias no exato momento em que acabo de dar minha última gota suada de trabalho no período regulamentar e anterior à validação jurídica do dito período. Pra mim, as férias vão chegando devagar - e aí já se imagina o problema quando se trata de férias curtas, como essas, de dez dias, dou-me o direito de repetir e reafirmar. Até a poeira elétrica e persistente do estresse da rotina profissional flutuar, preguiçosa, até a base do chão, é tempo, viu? De maneiras que é nesse intervalo em que estou: nem de férias nem batendo meu ponto (o que, no meu caso, não vão fazer pouco da minha condição de meio servidor público/ meio jornalista, significar trabalhar pesado).

Dá-se então, com a solenidade das próclises menos usuais, uma espécie de pico de estresse movido a puro deleite. Assim, ó: durante uns dois ou três dias logo que as férias oficiais se iniciam, ativa-se o vulcão interno da minha pessoa, este liquidificador embutido nas entranhas do corpo e da mente que não está nem aí para a urgente e necessária placidez a que deve corresponder qualquer descanso digno dessa palavra, e no lugar de me acalmar, acabo me danando, como diz aquele bolero de Angela Ro Rô. O início das férias, mesmo das férias de curtíssima duração, é esse pequeno inferno de querer fazer tudo, ver todos os filmes, ler todos os livros, assistir a todos os programas de televisão, tuitar com todos os amigos, blogar até acabarem os itens todos anotados na cadernetinha, ouvir todos aqueles CDs que relembram essa ou aquela fase do passado, além dos novos recém-comprados e cujos plásticos sequer foram abertos, ver tudo quanto é filme gravado no HD da televisão etc etc etc etc etc etc.

E ainda ter que administrar os filhos que, como os de William Bonner e Fátima Bernardes, estão de folga o resto da semana (cadê a ética das escolas? se fosse o Congresso já tava na porrada), além de dar conta de uma série de pequenas demandas que a gente adora deixar para fazer... nas férias! Cortar o cabelo, mandar lavar o carro, pagar aquela conta, mandar consertar aquele aparelho enguiçado etc etc etc etc etc. De maneira que esta postagem completamente inútil - tanto quanto costumam ser os meus primeiros dias de férias, mesmo que sejam férias breves como essas - é só pra dizer que, bem, a gente parece ter mesmo uma índole de trabalhador que demora pra se acostumar com a idéia de parar tudo por uns dias. Diante dessa situação, a gente entra em estado de alerta - quando deveria ingressar em situação de desleixo.



De terça à noite para cá, assisti a um filme no cinema - "Meu País", esse que fez certo sucesso no recém-encerrado Festival de Cinema de Brasília -, terminei de ler o "Solar da Fossa", a "biografia sentimental" de um prédio feita por Toninho Vaz (com certo desleixo mais recomendável a quem está de férias e não escrevendo um livro, devo dizer), levei as crianças ao clube da Câmara somente para suportar a barulheira de uma comemoração dispensável do Dia das Crianças (além da maior chuva, mas chuva aqui é sempre coisa boa), ganhei um bônus para piruetar por duas longas horas na livraria Fnac e adjacências, o que me permitiu ouvir um tantão de músicas e ao final comprar uns poucos CDs, dei umas caminhadas (ao longo das quais encontrei, aqui nas cercas e muros do Sudeste mesmo, esses belos paineis que ilustram a postagem) cortei o cabelo, mandei lavar o carro e li a introdução do livro de Miguel Nicolelis, o "Muito além do nosso eu" que, bênçãos e aleluias científicos, é de uma redação capturante se vocês me permitem usar um adjetivo menos usual.

E se mais nenhum outro desnecessário motivo houver, a postagem se jusfitifica pelo mero hábito sopalino de registrar em posts vagos como redação de isopor as férias do autor. Câmbio, desligo, prometendo voltar em brave com novidades vencidas sobre essas férias picotadas.