terça-feira, 1 de abril de 2008

Um novo consenso

A notícia bombástica que abre o dia na telinha do computador é sobre as decisões econômicas do governo dos Estados Unidos, que dá um passo para trás e, revendo tudo o que foi dito sobre mercados pelo menos nos últimos dez anos, revolve baixar um mínimo de regulação sobre o setor financeiro. Trecho do principal editorial da Folha de S. Paulo:

"Seja qual for o resultado dessa disputa, um aperto na normatização da finança mundial tornou-se indispensável. Como disse o secretário do Tesouro, Henry Paulson: "A estrutura de nossa regulamentação não está adaptada a um sistema financeiro extremamente complexo, globalizado e heterogêneo". Mercados financeiros mal regulamentados e supervisionados tendem a exacerbar riscos na busca de ganhos extraordinários. Quando as bolhas estouram, o erário é chamado a salvar aventureiros, com prejuízos monumentais para toda a sociedade."

Li isso aí com a minha amiga pulga-atrás-dos-miolos gargalhando de rir às minhas costas (ou então dando aquela clássica risada entredentes do Rabugento, personagem do desenho animado de Hanna Barbera). É, pessoal: quem não entendeu a piada só precisa lembrar do que dizia o grosso dos economistas, políticos, presidentes, jornais, telejornais e revistas há dez anos. Um discurso como esse aí do editoral da FSP de hoje era considerado, naquela época, um absurdo completo. A própria FSP dizia, nos mesmos editoriais, exatamente o contrário - quanto menos regulamentação, melhor; regulamentação é atraso, liberação total é avanço; quem não concorda está morto e não sabe. Lembro de uma colega na redação do Correio Braziliense que, no auge daquela crise de 1999 - a da Rússia - com o mundo pegando fogo e nós também em conseqüência, dizia, conformada, sobre a dificuldade do governo FHC em tomar qualquer outra atitude além daquela mesma de não contrariar nem por um milímetro que fosse a ordem econômica mundial estabelecida. "Que opções a gente tem? Nenhuma", dizia ela.

Pois é, a decisão americana e o editorial da FSP de hoje mostram que o consenso (de Washington, que seguiremos todos que nem carneirinhos?) agora é outro - ou pelo menos, está começando a mudar. Isso quer dizer que vai ter também muita gente mudando de conversa, pra ficar em dia com a ordem, com a moda ou com a conveniência mesmo.

Um comentário:

Placido disse...

Pois é, Tião.
Faltam agora a quarentena, mecanismo para enquadrar o capital meramente especulativo, e uma taxação simbólica, tipo a CPMF, sobre os lucros do mercado.
A grana arrecadada seria destinada a acabar com a miséria no mundo, com investimento pesado em saúde e educação.
São instrumentos que só fazem sentido se forem aplicados globalmente.
Infelizmente, falta gente para empunhar a bandeira.

Plácido