sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

A calçada de Sandra


Caminhões pesadíssimos passam pela rua da Matriz e a calçada de Sandra nem se abala. Segue, lavada nas manhãs, quente à tarde ou aprazível à noite, sendo aquele quadrilátero seguro e perfeito para se instalar a cadeira, que pode ser daquelas de plástico à venda no supermercado ou daquelas de fios à maneira interiorana, e observar o vai-e-vem da vida. A calçada de Sandra é mirante que, mesmo estando ao nível do chão, permite visualizar figuras e cenas elevadas em sua pobre simplicidade. Mas além de mirante e de pátria de cadeiras de plástico, também é faixa de passagem, caminho de pedras para quem vai à igreja ou vem da escola, segue à rodoviária ou retorna da casa de um conhecido. A calçada de Sandra é, como tantos lugares rebocados pela cal da poesia no interior do Brasil, um relicário vivo e aberto, de cores muito próprias, onde você pode se deixar ficar enquanto a vida, essa passageira, acena do meio-fio.

Pela calçada de Sandra, passam velhos tostados pelo sol do Seridó – do vendedor de leite ao pedinte mais dissimulado. Passam crianças em algaravia quando o clarão do meio dia se instala com seu espelho ofuscante nos paralelepípedos da ladeira. Passa sandália rider, passa japonesa gasta. Passa na calçada de Sandra o passo arrastado da carpideira mais católica da cidade. Mas passa o rastro inquieto da bisbilhoteira mais ansiosa, como passa o leva-e-traz da notícia menos importante antes ou depois da pilhéria do transeunte aclimado. Pela calçada de Sandra passa o fim da procissão, melhor dizendo as marginais da procissão de agosto – aquela parte da multidão que não cabe no espaço entre os quebra-molas do asfalto. Aquele segmento de fiéis onde a oração aqui e ali cede espaço ao cumprimento no amigo há muito não visto, à reportagem da vida dos filhos que agora moram longe e por aí vai. Pela calçada de Sandra passa menino miserável e quase passam os pneus possantes da quatro por quatro do ex-prefeito. Pela calçada de Sandra passa gente que bebe água de Natal e passa gente que engole satisfeito um copo de cianobactérias antes de passar as costas da mão na boca ainda úmida. Pela calçada de Sandra passam os padres – os velhos e os novos, esses com suas becas de novela das seis de época e seus discursos contra os riscos dos desperdícios dos farelos de hóstias.

Em agosto, a calçada de Sandra vira camarote ao nível do chão, tapete tão nobre quanto invisível que recebe os sapatos da família e dos convidados. Toda noite, é da calçada de Sandra que se tem uma visão próxima o bastante para que a festa pareça animada e distante o suficiente para que o barulho não incomode tanto. Todo ano quase dá para ouvir a voz da dona da calçada vizinha, quando viva: “Não troco esse pedacinho de chão por nada.” Nem nós, pois em agosto ou no Natal – o lindo Natal sem luxos do lugar – aquela rota de calçadas na ladeira da rua da Matriz, em Acari, no Seridó potiguar, ganha um brilho à parte, reveste-se de uma luz que o faz mais valioso do que a própria casa a quem serve de anteparo, entrada e território de boas-vindas. O mundo é imenso, a faixa de Gaza é um inferno, Cuba seja e não seja aqui, mas nesses momentos a calçada de Sandra torna-se o lugar mais sagrado do mundo, o marco zero da nossa falível e encantada humanidade.

Um comentário:

tete bezerra disse...

Só quem é do interior sabe a importãncia e a beleza da calçada de Sandra.Belo texto,poético e lírico como as serras do seridó.