quinta-feira, 11 de setembro de 2008

Olfato urbano


Natal tem cheiro de protetor solar, com uma pitada de sal. O cheiro que me leva ao Recife, esteja eu onde estiver, é aquele de uma palmeira muito caractérista de lugares à beira mar, misturado com um odor de lama mesclada a mangue. É um dos melhores cheiros do mundo. Cheiro de humanidade. Caicó cheira a café torrado - onde quer que eu sinta aquele cheiro imediatamente me transporto para a avenida Coronel Martiniano. Se esse cheiro de café moído vier com um certo mormaço seco de asfalto bem quente, então a transmutação é ainda melhor.

Se computador pudesse exalar cheiros e postagens fossem como cartas de papel, eu iria afundar esse texto nas fragâncias esparças que costumam ocupar minhas narinas durante essas caminhadas matinais que eu, como todo mundo hoje em dia, faz para compensar o lado sendentário e dominante da vida. Algumas horas atrás, lá estava eu caminhando daqui da 316 Norte para a 216 logo abaixo e, de lá, tomando o rumo para o Parque Olhos D'água, onde dei minha volta habitual. Você há de pensar que os tais cheiros surgiram nas alamendas do parque, mas não. Nem é preciso chegar lá para tanto. Na verdade, numa alamedinha nos fundos da comercial da 216 surgiu um cheirão doce de perfume usado em cidade do interior nos anos 70. Um cheiro de vidrinho de amostra grátis, um aroma de gente simples arrumado para a procissão da festa do padroeiro. Na hora - estava a caminho do parque - achei que vinha de uma moça que passou por mim, caminhando no sentido contrário, com cara, roupa e jeito de quem segue para o ponto de ônibus. Mas, na volta para casa, passei pelo mesmíssimo lugar e o cheiro reapareceu em toda sua intensidade.

Domingo, enquanto assistia ao show das bandas aqui na quadra de esportes da 316 (vide postagem anterior, "316 Musical"), senti, pouco depois do cheiro, pra mim muito agradável e evocativo, da velha "canabis", um outro sabor olfativo, diferente, meio seco, meio áspero, bastante rústico, um cheiro que eu diria amarelo como a paisagem da cidade nesta época. Também não sei de onde vem. Imagino que tanto este quanto o outro, adocicado, que senti hoje, venha das árvores que se espalham por todo o Plano Piloto, um dos espaços urbanos mais arborizados do país. Você passa sob as árvores e elas, junto com as folhas secas - e em muitos casos flores também - que delicamente enviam ao chão, liberam também seus perfumes particulares, essências de madeiras e fibras e pétalas meticulosamente trabalhadas pela química da natureza.

Dizem os espíritas que sentir cheiros inexplicáveis é também uma forma de mediunidade - que tais perfumes vêm de entidades iluminadas ocasionalmente presente entre nós. Uma vez, cumpri uma promessa que fiz a mim mesmo e, durante um mês, toda noite, por volta das 22h, saía de casa para dar comida aos gatos de rua. Na época, morava na 212 Norte - e por toda a Asa Norte o que tem de gato faminto nas quadras e entrequadras não é brincadeira. Pois bem: houve uma noite, noite de chuva, em que, passando por uma pracinha improvisada na esquina da 412 Norte (não estranhe: aqui tem esquina sim, só que um pouco diferente do convencional) senti um cheiro inesperado e inesquecível. Na hora, lembrei da tese dos espíritas e gostei da sensação. Mas não vi espírito nenhum. Se houve mediunidade, foí só olfativa mesmo. E não foi pouco. E se não veio de espírito propriamente dito, veio da alma da natureza mesmo. O que também nunca é pouco.

Um comentário:

Titina disse...

Muito bom!!