sexta-feira, 5 de outubro de 2007

O Abraço Partido


"O Abraço Partido", de Daniel Burman, é o tipo do filme a que você termina de assistir com um sorrisinho irônico no canto da boca. Um leve esgar nem um pouco amargo - pelo contrário, um ar de riso que pretende apenas dizer que "a vida é bela apesar de tudo". Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim de 2004, o filme argentino gasta muito diálogo, muitas cenas de interior, uma rica fauna de personagens e quase nenhuma ação de fato para falar sobre identidade, nacionalidades, memória, futuro, crises comunitárias e sobretudo, quando menos se espera, intimidades.

Deixe eu desempacotar esse palavreado todo: é um daqueles filmes de situação meio cíclica, do tipo que dá voltas e voltas em torno do mesmo quadro, estudando personagens, tateando desentendimentos, enfiando dedos em feridas e ao mesmo tempo passando remedinhos caseiros. Isso tudo acontece dentro de uma galeria de lojas populares numa Buenos Aires mergulhada na crise econômica até o último fio de cabelo. Nessa galeria convivem judeus nem um pouco ortodoxos, coreanos remediados e latinos fodidos mas, enfim, prontos para o que der e vier. Pelo corredor de lojas minúsculas transita um fiapo de trama, aproveitado até o tutano: a difícil relação entre Ariel, sua mãe, dona de uma das lojas do lugar, e seu pai ausente, que deixou a família para lutar nas guerras israelenses da década de 70.

Em Ariel está grudada a sina do jovem sem perspectiva dos países em crise. Tudo o que ele quer é deixar para trás a pátria de origem, em troca de uma nova nacionalidade. Na perseguição dessa meta, ele renega tradições, esnoba genealogias, faz pouco caso de si mesmo. Um sentimento que contamina a galeria inteira, mas de outra maneira: o que vemos lá são coreanos, judeus e latinos que sustentam apenas aparentemente seus parcos repertórios simbólicos. Assim, o rabino dá as costas à comunidade falida para pregar num tempo em Miami Beach, da mesma maneira que a circuncisão das crianças virou um vídeo bolorento e a comida típica um mata-fome casual. Enfim, tudo parece mais um fim de feira de restos de tradição que os pobres habitantes da galeria exibem quando e como podem. O casal de coreanos é o exemplo acabado dos produtos de uma era que conjuga catástrofe financeira com comércio global e nenhum escrúpulo diante das culturas locais. Representante maior dessa era, o protagonista Ariel está prestes a cometer uma dupla traição: desprezar tanto a origem judaica quanto a nacionalidade argentina. Numa palavra, abrir mão do mais rico tipo de história - a pessoal. Talvez por que ainda seja jovem, ao contrário dos demais personagens que nem têm mais a que dar as costas.

Mas todo esse quadro de crise comunitária vai desaguar em impasses individuais que injetam força no filme e o fazem transcender à própria ansiedade e verborraria. O pai não se mandou da maneira como Ariel imagina e a mãe vai se revelando uma grande figura de mulher que o filho não consegue enxergar. Enquanto isso, as várias nacionalidades seguem convivendo como podem - muito bem - no interior da galeria. Um cenário que serve, obviamente, como microcosmo recriado de todo um país em fim de linha.

"O Abraço Partido", há muito disponível em DVD (eu é que pego os filmes com atraso de séculos), começa (e vai até o fim) com uma incômoda câmara titubeante que balança mas não cai, abusa dos diálogos (sempre preferi filmes onde se conversa menos), contém uma impaciência angustiante (talvez para expressar a urgência dos que, como Ariel, querem uma dupla nacionalidade para escapar da crise e do país terminal) e ainda provoca uma tremenda sensação de claustrofobia com suas cenas enfurnadas na galeria, quando não são externas noturnas - ou soturnas mesmo, apesar do humor recorrente (e negro, claro).

Mesmo assim, quando acabar a última cena, aquele sorrisinho vai aparecer sutilmente no seu rosto. O esgar meio irônico meio terno que comparece a título de conclusão. Mais do que comércio, estética ou conteúdo, considero cada vez mais que cinema é efeito. O que vale é o que o filme provoca - não necessariamente o que ele diz, o que ele discute ou o que ele retoca. É o que ele toca. "O Abraço Partido" tem o efeito de tirar uma poesia mínima e uma graça discreta do rastejante dia-a-dia de lugares em crise, seja Buenos Aires, São Paulo, Brasília, Recife ou Natal.

P.S: Se o sorrisinho não aparecer ao final da última cena, não se aflija. Espere pacientemente os créditos finais e você vai ganhar um belo número musical para guardar no porta-retratos da sua cinematografia de estimação.

Um comentário:

Francisco Sobreira disse...

Tião,
Vi esse filme na finada Sessão de Arte de um dos finados cinemas do Natal Shopping. Gostei, sem chegar à empolgação. Um abraço.