quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Sentado à beira do caminho (2)

Esta é a primeira vez que venho a Acari com a possibilidade de usar a internet o dia inteiro, pelo tempo que quiser. Como sempre, estamos na casa da minha cunhada, Sandra, mas agora esta é uma residência plugada na rede. E isso faz toda diferença. Sabe aquela conversa de duas postagens abaixo, sobre o efeito que a BR faz, com seus ônibus e caminhões carregados, ao cortar Acari ao meio e instalar a cidade na plana estrada global? Pois é, com a internet em casa essa conexão fica ainda mais evidente.

Aos fatos: o chororô de Bernardo e Cecília me acordaram mais cedo, aí pelas seis e meia da matina. Sem conseguir emendar o sono, encarei o dia branco, frio e chuvoso, com aquele banho gelado e desaguei, serelepe e sem sequer tomar café, na leitura da edição eletrônica de hoje da Folha de S. Paulo. Você pode me considerar um sujeito deslumbrado, ignorante e distraído - mas a possibilidade de acordar numa cidade do Seridó e ler a FSP às seis e meia da matina sem precisar sair de casa não é, para mim, qualquer coisa não.

Mais do que o meu prazer pessoal em consumir informação (afinal, também se trata disso), há um significado maior: a presença de novos instrumentos à disposição de quem estiver interessado em alargar horizontes, ir além, fuçar o mundo. Hoje em dia, só é provinciano quem quer ou faz questão. O provincianismo, de tão sem lugar nesse mundo, precisa ser cultivado com toda a dedicação para fazer sentido.

Houve um tempo, quando eu eventualmente editava um caderno de variedades da Tribuna do Norte, em que repórteres se orgulhavam de sapecar o texto com a expressão "província" para se referir a Natal. Era um tal de "enquanto aqui na província", "na província isso e aquilo", "dia tal na província". Vício bobo de quem queria, no fundo (além de copiar Woden Madruga, que usava a expressão quando ela ainda não havia se banalizado) se excluir do que julgava provincianismo local (com redundância e tudo). E o leitor do caderno de variedades, coitado, era quem pagava por isso. Só não pagava porque eu revisava o texto todo para livrá-lo dessas vaidades disfarçadas.

Mas Natal é uma cidade que sempre gostou muito de falar mal de si mesmo - e não faz idéia do quanto perde com isso. Já os acarienses são o oposto: nunca vi um povo se adorar tanto. Jesus e seu blogue provam isso. Às vezes, essa auto-adoração até prejudica - e vira um provincianismo renitente, nestes tempos em que eu posso acordar com as galinhas e ler a FSP sem sair do conforto dessa cazona de pé direito alto aqui na rua da Matriz.

Um comentário:

Rosália disse...

Há dias esta postagem me incomoda. Então ter amor pela terra natal, cantar ao mundo seu torrão é ter estado mental atrasado? Sim, porque de tanto me incomodar ser chamada de "provincianista renitente" fui consultar o dicionário e lá estava a definição: "estado mental atrasado, refletido nas palavras ou ações do indivíduo pouco evoluído, das regiões rurais ou do interior". Em tempo, há anos vou a Acari e leio, não só a FSP na net, como também a BBC e outros sites de notícias e mesmo quando lá morava, não só eu, como vários amigos, tínhamos horizontes alargados por leitura. Exemplo Jesus, que tem poemas discutidos na Academia Paranaense de Letras.