sexta-feira, 6 de junho de 2008

Dois cineastas e o registro de uma época



Desde que eu me entendo por gente que gosta de ir ao cinema, confundo Sidney Lumet com Sidney Pollack. O segundo morreu há pouco tempo e foi tema de obituários na imprensa inteira. O segundo, com mais de 80 anos de idade, é o diretor de um dos filmes mais badalados entre as estréias desta semana, "Antes que o diabo saiba que você está morto". No fundo, os filmes dos dois têm uma cara parecida. Digo isso só puxando pela memória - e recorrendo às impressões imediatas que os nomes dos filmes e dos diretores me trazem. Mas não acho que esteja enganado.

O primeiro dirigiu "Um dia de cão" (foto acima), o filme que é a cara dos anos 70, com aquele assalto que se transforma num estressante e midiático acontecimento urbano entre os arranha-céus de Nova York. Também é o cineasta por trás de filmes como "Rede de Intrigas", aquele outro tratado setentista sobre os excessos de poder das celebridades televisivas, e "O Veredicto", drama judiciário estrelado por Paul Newman. O segundo dirigiu "Tootsie", um primor de comédia que conseguiu se destacar na cinatografia norte-americana mesmo retomando o velho mote do filme sobre o homem que se veste de mulher, à sombra do perigoso paradigma que foi "Quanto mais quente melhor", a clássica comédia de Billy Wilder. Também é o cineasta por trás de filmes como "Os três dias do condor", ponta de lança de um certo gênero de espionagem muito praticado sob as sombras da guerra fria, "A firma", drama de tribunal adaptado para o cinema a partir do best seller de John Grisham, e "A Intérprete", suspense recheado de intrigas internacionais que serviu de veículo para a estrela Nicole Kidman, como o anterior serviu a Tom Cruise.

Fala a verdade: são ou não são filmes, temáticas, atmosferas cinematográficas parecidas? Não são diretores de filmes retirados da gaveta onde disputam vaidades os cineastas mais autorais, mas mesmo assim cresci indo ao cinema, vendo filmes por meio do velho videocassete e gostando dos filmes que eles fazem. Acho que, somados, vistos em conjunto ou sem grandes expectativas do ponto de vista da linguagem, tais filmes formam um painel de determinado segmento da humanidade em determinado momento e determinado local de sua existência. Se eu penso nos anos 70 ou 80, a imagem que surge na minha frente tem muito a ver com um filme de Sidney Lumet, quer dizer, Sidney Pollack - quer dizer, ambos. É como os velhos filmes brasileiros que o Canal Brasil reapresenta todo dia. Experimente ver um daqueles que passam numa manhã de sábado ou tarde de domingo e você verá ali, para além da precariedade da coisa filmada, um documento sobre um país e uma era - ambos muito mudados de lá para cá. E o cinema também serve para isso. Nem tudo é manifesto, estatuto estético ou revolução anunciada.

Um comentário:

carlão disse...

assisti dia de cão no cine rio grande, roendo as unhas até o fim. uma catarse.