sexta-feira, 23 de maio de 2008

Um filme, um cinema


Os filmes da série Indiana Jones nunca serão filmes comuns para mim. Isso influencia a leitura que eu faço deles e você não tem obrigação nenhuma de concordar comigo. Mas se vai ler essas impressões aqui do novo filme da série, a que assisti há umas poucas horas, é bom saber os detalhes antes. Acontece que "Os caçadores da Arca Perdida" foi o primeiro filme que eu vi num cinema de classe, desses de capital, cheios de carpetes, com sala de espera e aquele climão de catedral. Ao menos foram essas as primeiras impressões que eu tive ao entrar com meu amigo Ítalo, que morava em Recife já há alguns anos, no cine Veneza, ali na rua do Hospício, quase de frente às Pernambucanas, centrão da capital pernambucano, 1981 ou 82, por aí.

Não se esquece uma experiência dessas. Eu vinha do cinema-poeira de Parelhas, o velho Rex de guerra. O máximo que havia visto fora dele era o cinema da coronel Martiniano, em Caicó, um grandão cujo nome esqueci, e onde assisti a uma sessão que misturou desenhos animados da Pantera Cor-de-Rosa com episódios esparços de um desses seriados espaciais dos anos 60. Então, de passagem por Recife na casa do meu amigo Ítalo, eu me vejo naquele templo que era o Veneza (é triste dizer que ele, como todos os demais cinemas de rua, fechou). Ainda lembro aquele cheiro que parecia uma mistura de hortelã, eucalipto e pipoca. Como lembro dos vidros reluzentes que tapavam os nichos onde brilhavam os cartazes dos filmes, cada um mais atrativo do que o outro. E a tela? E o "primeiro andar"? E o som?

E o filme que conjugou todos esses fatores? Foi justamente o primeiro Indiana Jones, com aquela coloração nostálgica, aquele ritmo frenético, aquele senso de humor que consagrou o personagem e seus coadjuvantes, aquela fantasia que desde então já era a marca de Spielberg que eu guardaria como a minha preferida e aquele punhado de cenas antológicas, se você considerar que o pop bem reaproveitado também rende uma senhora antologia. A pedra gigante rolando na sua direção, o chão de serpentes se mexendo sob a brancura dos pés de Karen Allen, o herói que contrariava a imagem clássica e respondia com tiros à exibição do lutador oriental, o momento deliciosamente mentiroso em que ele escalava, por assim dizer, o fundo de um caminhão para enfrentar um adversário e por aí vai. Um filme, um cinema, uma novidade para sempre.

Para sempre mesmo, é de se dizer. Porque o herói, agora já meio sexagenário, é ressuscitado pra gente matar a saudade enquanto os produtores ficam ainda mais ricos. Que seja. Não gostei muito da volta de Rock Balboa, outro ícone pop da infância, e fiquei me perguntando os motivos depois de assistir ao novo Indiana e me divertir a cada cena, cada diálogo. Notei que Stallone retomou Rock Balboa com uma ênfase muito forte na autopiedade: é o outono do lutador, que tem saudades da glória pretérita e arrisca voltar ao ringue numa bem pouco crível luta com alguém mais jovem. Sobra pena e falta credibilidade. Já com Indiana Jones, o que vemos é muita auto-ironia e uma dose de fantasia que torna-se tanto melhor quanto mais inverossímel for. E aí o gênero de filme em que "Indiana" se inscreve o favorece um pouco, claro: o Rock original era mais dramático, uma história de superação, enquanto as aventuras do arqueólogo de Lucas e Spielberg são a essência do entretenimento auto-evocativo, como uma grande aventura que relembra, ao mesmo tempo em que satiriza, os antigos seriados do cinema classe C. Daí os ganchos: será que ele vai escapar disso ou daquilo? E tome fantasia.

Li críticos fazendo comparações, esperando que o "novo Indiana" fosse melhor que os outros. Li textos dizendo que a atualização que é feita é o emprego mais incisivo de efeitos de computador que não podiam ser usados no início da série, por não disponíveis. É verdade, tudo isso se nota na tela. Mas o barato de um novo Indiana Jones é anterior a isso: é ser, sim, mais do mesmo. Se isso é feito com mais ou menos computação, é o de menos. O que não pode faltar é aquela carga de inventividade que ignora qualquer noção de plausibilidade e faz da aventura um conjunto de situações-limites de que o herói sempre se safa - se possível, com uma piadinha irônica na ponta da língua. E se o novo filme traz de volta a "Marion" de Karen Allen - embora fora de forma e muito menos endiabrada que no primeiro - e reserva uma surpresa (nem tão surpreendente assim, mas não convém revelar) que sugere novos episódios no futuro, melhor.

Se o Veneza não existe mais, a gente lamenta, claro. Mas que bom que Indiana Jones está de volta, retocado ou não com botox e computador.

Um comentário:

ana sua mana disse...

estou louca pra assistir. como você, nunca esqueci do dia em que vi o primeiro, com meus primos de sp, e, imagine, também no cinema veneza, só que o veneza do rio (que tb era de rua e, infelizmente, fechou). e tá tudo muito bem, tá tudo muito bom, mas falta o senhor postar as fotos do niver de bernardo...