quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Afasta de mim esse cálice


Caminhei por esquinas variadas do mundo blogueiro e, enfim, encontrei uma voz a fazer frente à comemoração unânime. Estou falando do tal do "cala a boca" que o rei espanhol, Juan Carlos, passou no meu herói, vocês sabem quem, o camarada Chávez.
Encontrei mais rápido até do que esperava. E o inesperado é que vem de um sujeito com quem convivi durante um bom período. Eu trabalhava na sucursal da Bandeirantes aqui em Brasília quando, um certo dia, a redação passou a ser frequentada por um mineiro de cabelos brancos, fala mansa e observações sempre apropriadas, inesperadas (já naquele tempo a unanimidade barrava observações divergentes) e instigantes. Era Mauro Santayana, a quem me acostumei a chamar de "professor".
Hoje, trabalhando na Câmara, de vez em quando vejo o professor pelos corredores ou na lanchonete. Ele nem me reconhece, claro, o que só comprova o meu talendo para me fazer quase sempre uma critura invisível.

Santayana é uma das poucas coisas que ainda valem a leitura do Jornal do Brasil. E foi no seu artigo que ele comentou o "cala a boca", no texto transcrito abaixo. É meio extenso para o espaço de uma postagem, mas vale a leitura. Vejam, vejam:

A arrogância colonialista
O presidente Hugo Chávez é descuidado e franco no que fala. Usa, em sua retórica antiimperialista, metáforas quase divertidas, como chamar Bush de diabo. Mas não exagerou ao qualificar o ex-primeiro-ministro espanhol José Maria Aznar de fascista. Aznar, produto típico da Opus Dei, que se reorganiza com novo alento na Espanha, sempre tratou a América Latina com desdém. Em 2002, em Madri, atreveu-se a dar ordens ao presidente Eduardo Duhalde, da Argentina, para que aceitasse e cumprisse as exigências do FMI. Reincidiu na grosseria, ao telefonar a Buenos Aires, logo depois, como um dono de fazenda telefona para seu capataz, a fim de determinar-lhe a assinatura imediata do acordo com o órgão.
Conforme disse o próprio ministro de Relações Exteriores da Espanha, Miguel Angel Moratinos, Aznar deu ordens ao embaixador da Espanha em Caracas para que apoiasse o golpe contra Chávez em 2002. Com o presidente eleito preso pelos golpistas, o embaixador foi o primeiro a cumprimentar o empresário Pedro Carmona, que, também com o entusiasmado aplauso do representante dos Estados Unidos, tomava posse do governo, para ser desalojado do Palácio de Miraflores horas depois.
Não se pode pedir a Chávez que trate bem o ex-primeiro ministro espanhol, embora talvez lhe tivesse sido melhor ignorá-lo no encontro de Santiago. Mas, como comentou, na edição de ontem de El País, o jornalista Peru Egurdide, há um crescente mal-estar na América Latina com a presença econômica espanhola, identificada como "segunda conquista". A Espanha opera hoje serviços como os bancários, de água, energia, telefonia e estradas, que não satisfazem os usuários. Ainda na noite de sexta-feira, em reunião fechada, Lula e Bachelet trataram do assunto com Zapatero, de forma veemente - longe dos jornalistas.
Mas se Chávez, mestiço venezuelano, homem do povo, fugiu à linguagem diplomática, o rei Juan Carlos foi imperial e grosseiro, ao dizer-lhe que se calasse. O rei, criado por Franco, tem deixado a majestade de lado para intervir cada vez mais na política espanhola - conforme o El País critica em seu editorial de ontem. Em razão disso, as reivindicações federalistas dos povos espanhóis (sobretudo dos catalães e dos bascos) se exacerbam e indicam uma tendência para a forma republicana de governo. Pequenos episódios revelam o conflito latente entre os espanhóis e seu rei. Já em 1981, quando do frustrado golpe contra o Parlamento Espanhol, o comportamento de sua majestade deixou dúvidas. Ele levou algumas horas antes de se definir pela legalidade democrática. Para muitos, o golpe chefiado por Millan del Bosch pretendia que todos os poderes fossem conferidos a Juan Carlos, em um franquismo coroado.
Os dirigentes latino-americanos tentarão, diplomaticamente, amenizar a repercussão do estrago, mas o "cala a boca" de Juan Carlos doeu em todos os homens honrados do continente. O rei atuou com intolerável arrogância, como se fossem os tempos de Carlos V ou Filipe II. A linguagem de Zapatero foi de outra natureza: pediu a Chávez que moderasse a linguagem. Como súdito em um regime monárquico, não pôde exigir de Juan Carlos o mesmo comportamento - o que seria lógico no incidente.
Durante os últimos anos de Franco, a oposição republicana espanhola se referia ao príncipe com certo desdém, considerando-o pouco inteligente. Na realidade, ele nada tinha de bobo, mas, sim, de astuto, vencendo outros pretendentes ao trono e assumindo a chefia do Estado. Agora, no entanto, merece que a América Latina lhe devolva, e com razão, a ofensa: é melhor que se cale.

4 comentários:

ana sua mana disse...

foi só ficar um dia sem internet na tv (hoje só consegui acessar em casa, na hora do almoço, deu pau na tv e só voltou agora, início da noite) que o senhor enche o sopão de novidades...ainda bem que amanhã é feriado, vou ter tempo pra ler tudo com calma. beijins pra família toda.

roberta ar disse...

Fiquei realmente afastada da cidade e, por isso, dos comentários no blog durante o tempo em que escrevi a monografia. Decidi escolher um tema um tanto nebuloso: a impossibilidade da verdade objetiva, na visão de Heidegger. Difícil, mas consegui terminar. Já eu, preciso arrumar tempo para ler o seu blog, vi que tem muito texto novo. Debruçarei com calma, como pedem os bons texto. Ah, a próxima novidade será o lançamento da revista em quadrinho do Biu, darei os detalhes em seguida.
Beijos em todos da casa. Saudade "arretada" (posso me apropriar do termo, não).

Francisco Sobreira disse...

Pô, Tião, você deixa este beradeiro de Canindé sem jeito, ao identificar uma certa relação entre Maigret e o Doutor Simões do meu livrinho "Palavras Manchadas de Sangue", um livro que fiz mais pra me divertir, mas que acabou agradando a pessoas como você. Agora, amigo, uma pequenina correção: Simenon era belga, assim como Poirot, o personagem de Agatha Christie. Abraço.

Marcya disse...

O Seu Mauro é figura... Gostei demais disso daí!