quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Maria Stuart



Filmes históricos e referências esparsas sempre me deixaram uma forte impressão sobre a figura de Maria Stuart, a escocesa católica que disputou com a protestante Elizabeth I, a bastarda filha de Ana Bolena, a coroa da Inglaterra. Nesta impressão, ela sempre surge arrebatadora, voluntariosa, sanguínea, fervente. Uma mulher que mal consegue se conter nos limites do próprio corpo e em nenhum momento, por um instante de vacilo que seja, condescendente com a própria condenação à morte pela adversária não menos firme.


Não é bem assim a Maria Stuart que surge no espetáculo teatral que fez sua estréia nacional no último final de semana no Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília. A rainha possessa e condenada feita pela atriz Julia Lemmertz, sob a direção de Antonio Gilberto, em remontagem do clássico “Maria Stuart”, do dramaturgo alemão Friederich Schiller, esforça-se para expressar essa tempestade interna que a consome mas, em cena, parece curvada demais ante o peso da autoridade autoconflagrada da Elizabeth divinamente interpretada por Clarice Niskier. Embora a rainha à morte seja título e tema da peça, sobressai muito mais a figura da outra, à margem das decisões e indecisões da vida.


É notável o fato de a Stuart de Lemmertz dar as costas para a platéia quase sempre nas cenas em que conversa com a Elizabeth de Niskier, o que só favorece a empatia do público com a protestante e contribui para apequenar ainda mais a presença da católica no palco. E é preciso dizer também que, como nas grandes obras de ficção construídas a partir de registros reais, o trecho mais forte da encenação é pura criação do seu autor. Elizabeth e Maria Stuart nunca se encontraram mas, ao promover o confronto ficcional, o texto permite a expressão em palavras, gestos e intenções de tudo o quanto havia de obstáculo entre as duas. Disso resulta que o espetáculo dispõe as duas soberanas qual espelho de idéias, posturas e sentimentos envolvidos com o drama histórico que protagonizaram.


A todo momento, é um prazer quase sensorial ouvir a tradução mais que poética de Manuel Bandeira para o texto original, numa prosa semiversejada que ora espeta, ora massageia, às vezes instiga, noutras traz revoltas ao coração auditivo do espectador. É um belo poema reflexivo sobre o poder e as formas como ele se manifesta, seus limites e seus intestinos, sua beleza trágica e sua feiúra desumana. Embora tenha começado a ser escrita no final do século XIX, “Maria Stuart” evoca na sua liturgia clássica sobre as serifas do poder acontecimentos absolutamente atuais, como o Iraque de Bush e afins. Afinal, temos ali um mandatário ungido de poder real determinando a morte de um igual, num caso que já então desafiava os critérios da Justiça. Enquanto Maria Stuart tenta, sem recorrer ao puro e simples pedido de piedade, corrigir uma rota que leva seu pescoço à moradia do cutelo mais impiedoso, Elizabeth perde-se entre jogos de dissimulação da própria responsabilidade e a necessidade de exercer o poder que de fato detém nas circunstâncias históricas em que vive.

Figurinos semicontemporâneos – mas de linhas ritualmente coerentes com o drama de palácios a que assistimos – têm o poder de evidenciar ainda mais o drama histórico que se passa diante de nós. O cenário é igualmente minimalista, com uma estrutura em madeira que ora define uma cela onde se afunda Stuart, ora é um piso elevado para erguer a majestade de Elizabeth, ora um patíbulo, ora uma mesa cerimonial onde a corte se confronta e se digladia em diálogos cortados a machadadas verbais. A luz também é um elemento forte na história, a partir do momento em que se inicia plenamente clara mesmo dando foco à cela onde está presa Maria Stuart. À medida que o espetáculo prossegue e o drama da soberana escocesa vai-se afunilando num beco sinuoso e sem saída, essa luz vai caindo, jogando por oposição suas sombras sobre espectros humanos torturados pelo processo em andamento – o que inclui Elizabeth, é claro. No último instante, essa história à parte contada pela luz coloca delicadamente seu ponto final no palco do teatro: em uma cena muda, ficamos com a imagem superposta dos rostos de Maria Stuart e Elizabeth, lado a lado, brancos, brilhantes, tão vencedores quanto derrotados, em meio à mais completa escuridão. É o fim do espetáculo e o início da reflexão de quem saiu de casa e absorveu ansioso aquele manancial de pensamentos lançados de 1799 para os dias atuais.


A temporada em Brasília continua até 15 de fevereiro, de quinta a sábado às 20h e aos domingos às 21h. O espetáculo tem três horas de duração com intervalo de 15 minutos. Às quintas e sextas dá pra conseguir ingressos na hora, apostando em desistências.

2 comentários:

Francisco Sobreira disse...

Tião,
A sua crítica nos instiga a conhecer a peça, que não deve vir para Natal. Para aqui só vêm essas bobagens com atores globais. Um abraço.

well disse...

tentei ingresso para a peça nessas 2 primeiras semanas... conseguir ingresso nesta terra culturalmente árida é sempre um suplício!
tenho excelentes recordações da montagem do gabriel vilela para o mesmo texto, no início dessa década (como o tempo voa!).
ainda não conheço e, apesar de não duvidar da qualidade da tradução do manuel bandeira para o texto, confesso um certo desconforto com essa meia tradução do título. por que não manter o 'mary stuart' original? ou então (melhor?) passar de uma vez para 'maria estuarte'?