segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

O cineminha da garagem


Quem tem ou teve criança em casa, sabe que há umas situações em que você é obrigado a inventar as coisas mais esquisitas para distrair a atenção delas. Sim, porque a necessidade de atenção das crianças, hoje estou convencido, é uma das forças que move o mundo. Nâo adianta você tentar ler seu livro na rede enquanto simula que está conversando com ela, comentando alguma coisa que ela disse ou respondendo a uma de suas inúmeras e seriadas perguntas. Nada disso. Elas são espertas, hoje em dia parece que vem equipadas com detectores de desatenção: querem você todo pra elas. Fora com a concorrência. Livros, filmes, esses brinquedinhos que os adultos adoram são inimigos mortais das crianças. Quando é para você estar com elas, é para você estar com elas. Tente contrariar esse mandamento do mundo dos pais e filhos e prepare-se para a revanche: uma torrente de birra capaz de tirar a paciência de qualquer pessoa com mais de trinta e dois dentes.

Por isso, como dizia antes dessa prolongada explicação, muito frequentemente você é alertado por algum sistema interno que hoje em dia também parece ter sido instalado na sua mente no exato momento em você se tornou pai ou mãe. Aquele alarme silencioso mas incômodo, que só para de buzinar no seu juízo quando você levanta da rede (ou do sofá, ou da cama, conforme as preferências) e trata de inventar uma brincadeira que seus filhos não esperavam. Um parênteses, para quem gosta de arranjar perguntas que cortam o raciocínio do blogueiro apressado: e os tios, e as tias, por que não estão incluídos aqui? Muito simples: porque tios e tias são companhias circunstanciais das crianças. Quando muito, ficam com elas umas seis horas no sábado ou domingo ou feriado. São muito carinhosos, muito dados, quebram o maior galho para pais que os têm por perto - o que, infelizmente, não é o caso aqui em casa - mas, a bem da verdade, são seres que não estão expostos completamente aos raios de atenção que nossos filhinhos disparam certeiros em nossa direção.

Tudo isso é pra contar uma história caseira e banal para quem não está exposto àqueles raios, mas absolutamente importante para quem com eles convive. E foi assim que, sexta-feira passada, pela manhã, crianças a mil antes do turno vespertino escolar, vi-me obrigado a inventar alguma coisa para saciar a sede de atenção de Cecília e Bernardo, os dois franco-atiradores lá de casa. Como já estava todo mundo na garagem vazia, eu no fundo da rede tentando inutilmente ler meu best seller para pais burros e sem tempo para textos mais elevados, resolvi dar um jeito ali mesmo. E sapequei para os meus dois guerreiros mirins: - Que tal a gente fazer um cineminha na garagem?

Aprovação total e festiva, lógico. As crianças são as criaturas mais abertas do mundo. Topam tudo, desde que esse tudo gire em torno delas (se você conhece algum adulto que se enquadra neste perfil, compreenda, está diante de uma legítima síndrome de Peter Pan). Corri ao quarto, peguei aquele mini-DVD de oito polegadas, recolhi extensões, plugs e adaptadores, montei a engenhoca toda, botei a telinha do DVD em cima de uma cadeira grande e espalhei as cadeiras pequenas dos meninos diante do tal "cineminha". Voltei ao quarto em busca de qualquer coisa que não fosse tão batida - tem horas que a gente não suporta mais ver a cara da Barbie e nem o verde do Barney, muito menos os morangos da Hello Kitty - e deparei com, surpresa, "O Mágico de Oz". Será? - pensei. Bora ver - arrisquei.

O filme começou naquele sépia lindão e é obvio que em algum lugar Cecília, por ora muito mais tarimbada nessas coisas de filmes, desenhos e DVDs, deve ter feito um link entre a garota Dorothy e a Alice do País das Maravilhas que, Deus é justo e piedoso, já faz um bom tempo que ela não coloca no DVD player do quarto. Bernardo sentou logo na cadeirinha e prestou atenção. Cecília ainda se fez de difícil, mas a curiosidade matou o gato, todo mundo sabe, e logo estava no seu lugar no "cineminha" acompanhando as história da menina, do leão, do homem de lata e do espantalho em busca do tal mágico que atenderia ao desejo de cada um deles.

Eu, de longe, ainda me surpreendo com o poder de empatia de certas realizações como filmes, discos e livros. Pois de sexta-feira para cá, Cecília já assistiu ao "Mágico de Oz" umas oito vezes, sempre de olhos arregalados, expressão encantada de quem tem muito o que extrair daquela aventura pelo reino dos anões coloridos. Bernardo, devido à faixa etária, esse sim largou a história pelo meio e foi tratar de carrinhos, corridas e outras estrepolias mais estimulantes. Mas ela, não. Virou amiga de infância da menina Dorothy, do leão, do espantalho e do homem de lata, confirmando o fascínio que os clássicos exercem sobre muito mais do que uma geração, crianças incluídas. É bonito, espantoso e ao mesmo tempo impressionante ver como isso se processa, dentro da sua casa, sem que você planeje, prepare (coloquei o filme pela primeira vez sem dar nenhuma informação sobre ele; achando mesmo que era demais para uma menina de 4 anos), estimule ou simplesmente torça para que tal conjugação de fatores se dê.

Fiquei fã de "O Mágico de Oz" junto com minha filha. E aprendi o equivalente a uns cinco livros - os cinco livros que tantas vezes ela não me deixa ler - sobre a mágica das narrativas, o encantamento das histórias, o chamado das imagens, a força do cinema que perpassa nossas vidas, desde criancinha.

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