domingo, 3 de abril de 2011

Agora sim, a música do "gulira"


Hoje teve show do "Palavra Cantada" em Brasília. Eu estava lá com minha turma, rodeado por vinte entre dez famílias de classe média esclarecida. Nos divertimos bastante com as sacadas da dupla Sandra Pares e Paulo Tatit - sobretudo os pais, que a prosa musical da dupla se articula muito mais com a parte literal dos nossos cérebros crescidinhos do que com a metade direita dos infantes muitos anos à nossa frente, donos ainda que são de suas conexões supraverbais. Quer dizer: é visível que os pais adoram que os filhos adorem o jeito Palavra Cantada de apreciar música desde pequenininho.

Neste ponto, podem me caçar, podem me bater, podem até deixar-me sem um blog de poesia a mil pratas na internet, mas simpatizo um tantinho assim com Xuxa. É que por baixo da popularesca visão que se tem das antiproezas da loura, esse produto indistinto feito para as massas, desconfio de que haja na sua facilidade algo mais próximo à forma como se organizam e se manifestam os neurônios infantis. Exatamente aquela linguagem além (para ficar na crítica) e aquém (para admitir a surpresa) das palavras. Na sopa do neném há muito mais mistérios do que sonha o nosso reles nariz empinado (onde você guarda seu preconceito quando as crianças não estão olhando?). Devo estar errado, de maneira que não importa.

Importa que durante o show, diante de todo aquele bom gosto letrado - que eu também aprecio, afinal sou um pai tão esclarecido quanto os que compunham o restante do público - lembrei de outras eras, infâncias já remotas, minishowbussiness pretéritos. Claro: lembrei do tempo em que a Adriana Partimpim do pedaço podia ser um coquetel de excessos autoreferentes, uma paçoca pop-roqueira de terceira, um pastiche de tropicalismo retardatário. Eles mesmos, os cantantes da tal "música do gulira" como Bernardo me corrigiu quando tentei lhe desvirtuar as papilas auditivas em formação. Para mais esclarecimentos, veja no post de anteontem clicando aqui.

Já para conter o olhar de desaprovação diante do video em questão, não há o que fazer. Nem chamar Tarzan se usa mais, quando menos quebrar o disco no programa Flávio Cavalcanti. De qualquer maneira, se algum bom gosto há de ser salvo, que seja pela ótica documental. Autópsia audio-visual de uma era assassinada pelo nosso modernismo até então recolhido e agora subitamente destampado. O musical, extraído de algo que era bom pra danado justamente por ser desprendido como o diabo, é parte daquilo que se poderia chamar, em contexto internético atual, sem escândalo algum, de Plunct Plact Pum. Cheira mais clicando na setinha do youtube nosso de cada saudade. Tomando cuidado pra não acabar com um porre de gelo seco, dá pra sobreviver à experiência.

Um comentário:

febowill disse...

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