segunda-feira, 23 de novembro de 2009

No trampolim do tempo


Andei fazendo umas pesquisas para escrever o artigo desta semana do "Novo Jornal" - a coluna sai amanhã, mas antecipo aqui o tema - e quando vi estava era me divertindo com as mil e uma histórias da base aérea norte-americana instalada em Parnamirim durante a II Guerra Mundial - pois é, o tema é este, mas visto por uma ótica, digamos, mais atual. Enfim, a idéia era pescar informações sobre a vida natalense daqueles tempos para usar como subsídio no artigo, mas viciados em curiosidades são uma raça que não merece a menor consideração, vocês sabem. Como dizia, quando vi estava me divertindo com os detalhes da época, alguns dos quais usei no texto, outros tive que deixar de fora por questão de espaço.

Um exemplo é a história com agá minúsculo sobre como surgiu a hiperinflação de guerra nos tempos da dita cuja em Natal. Com a chegada daquele bando de ianques cheios dos dólares, era inevitável que os preços subissem qual foguete da ainda não existente Barreira do Inferno. Alta inflacionária ainda mais destacada quando a gente se lembra que a Natal daqueles tempos era quase uma aldeia, quando comparada à atual, com seus bem contadinhos 52 mil habitantes. Mas vamos à história da gênese dessa inflação deslumbrada, que, como disse, tive que deixar de fora do artigo: dizem que um soldado americano precisou comprar uma banana de um vendedor de rua - ele obviamente sem falar sequer um portunhol de terceira; o outro, coitado, mal falando português de salão. Então o americano teria, sabe-se lá como, dado um jeito de perguntar "quanto é a banana?"; ao que o vendedor de rua, apelando para linguagem universal dos dedões fazendo desenhos no ar - o mais básico dos dialetos de Dakar a Passa e Fica - levantou o indicador para cima, como a dizer "um". O americano não teve dúvida, meteu a mão no bolso e pagou a banada com um dolar - por baixo, cinco vezes o valor da mercadoria, no câmbio dos historiadores consultados. E foi assim que, da noite para o dia, blecautes incluídos, tudo em Natal passou a custar cinco vezes mais - desde que, claro, o interessado falasse aquela língua enrolada e imcompreensível.

Mas trouxe esse adendo ao artigo aqui para o Sopão com outro objetivo. Alguma coisa mais elevada do que essa piada economicamente incorreta. É que, inevitavelmente, esbarrei naquele célebre encontro dos presidentes do EUA e Brasil, Roosevelt e Getúlio, desfilando em jipe aberto em algum lugar entre a Cidade Alta e a Ribeira, em plena Natal temporariamente globalizada. E fiquei maturando: e se, por um desses artifícios caprichosos, tecnológicos e impossíveis da História com h maiúsculo, fosse possível às autoridades do mundo atual se teletransportar no tempo, como acontece em seriados de tevê? E se, por um artifício desses, Obama e Lula surgissem, como que por um milagre temporal, bem no lugar que Roosevelt e Vargas ocupavam no tal jipe?

O que pensariam natalenses e americanos daquela cena? Você se arriscaria a ir junto na máquina do tempo para tentar explicar à platéia quem eram aquelas pessoas, de onde vieram e como foram parar ali ("parar ali" é, note-se, uma expressão das mais ambíguas, que tanto quer dizer ali, no passado, quanto ali, nos cargos que eles ocupam no futuro, quer dizer, no presente)? Imagine o espanto dos brasileiros quando você afirmasse que, calma, também não é assim uma III Guerra Mundial - aquela dupla de caboclinhos no jipe eram apenas o presidente do Brasil e o presidente dos EUA. O que ia ter de gente indignada pelo fato de o presidente brasileiro ser aquele crioulo não tá escrito. Agora imagine o choque quando você disesse que o negão em questão não era o presidente do Brasil, mas o dos EUA. E que o outro, aquele com cara de auxiliar de borracharia, mas pelo menos branco, é que era o presidente do Brasil. Oh!

Pra gente ver do que a tal História é capaz, com seus caprichos e sua imprevisibilidade. Bom, para outras suposições, bem mais comezinhas, entre o que teria acontecido em Natal se a gente bagunçasse a História com base nos eventos que movimentaram "Parnamirim Field" nos anos da II Guerra, leia amanhã o artigo semanal no "Novo Jornal".

2 comentários:

ana sua mana disse...

sebá, li e gostei muito do artigo anterior, e tenho certeza que vou gostar do de amanhã tb. não disse antes pq ando muito, muito sem tempo (e louca pra conversar um pouco com o senhor quando o tempo deixar...). beijins.

Inácio França disse...

Tião,

estive em Natal nesse final de semana, depois de 5 horas pela tortuosa BR, para o aniversário de meus sobrinhos em Parnamirim, onde mora e trabalha minha irmã

Coincidência, bati um papo com um vereador de Parnamirim, um sujeito que está há 9 mandatos na Câmara Municipal (ou tem alguma virtude ou não tem nenhuma). Ele me contou que lembra do céu riscado pelas luzes dos holofotes que caçavam os caçam alemães. Dezenas de holofotes, segundo a lembrança de menino do vereador. Como a guerra era longe, aposto que para muitas crianças parnamirenses e natalenses da década de 40, as lembranças das noites de guerra são mágicas.

Serás citado "an pasant" no Caótico (www.caotico.com.br) numa atualização que vou botar no ar daqui a pouquinho.