segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Valhei-me, Toinho Alves!


Sexta-feira à noite eu fui mais uma vez tragado pela agenda cultural de Rejane. Mas dessa vez temo que o resultado não tenha sido muito estimulante, como foi quando ela me arrastou com os meninos para assistir ao show do grupo "Cabelo de Moça" no edifício sede da Caixa Econômica. É verdade que o programa dessa sexta-feira até que prometia: era o chamado "encontro dos pontos de cultura", que movimentou a Esplanada dos Ministérios durante o final de semana.


Para aquela noite estavam programados dois shows em palcos alternados. Um do Quinteto Violado e outro daquele senhor cearense, seu Raimundo Fagner, conhece? O Quinteto faz meio que parte da nossa história na travessia Natal-Brasília: pouco antes de mudar para cá, assistimos no velho TAM a uma baita e inesquecível apresentação da banda pernambucana, e vimos o mesmíssimo show pouco depois, já morando aqui, na Sala Villa Lobos do Teatro Nacional. Foi como se os caras do Quinteto tivessem acompanhado a gente no caminhão de mudança. E ajudou a nos adaptar, a sair um pouco da umidade salina de Natal para a secura àquela altura meio gelada de Brasília.


Quando ao cearense, caiu a ficha de que seria a primeira vez em que veria um show dele, apesar de me inscrever no vasto, nem um pouco homogêneo, uma vezes calmo, outras vezes passional grupo de ouvintes que o aprecia. Fagner, enfim. Os cearenses vão à loucura. Bora ver.


Tudo corria bem enquanto rolavam as cinco ou seis primeiras músicas do Quinteto. Uma nota antes de prosseguir: que falta faz a presença marcante, sertanaje, negra e verdadeiramente popular de Toinho Alves no palco do Quinteto. Assisti praticamente a todo o show lembrando dos aboios que o velho músico, falecido há pouco tempo, jogava no meio da seara sonora do Quinteto, fazendo da música do grupo algo ainda mais autêntico, tocante e rico.


Mas disse praticamente porque, a certa altura do show nem Toinho me livraria da arapuca que Rejane armou pra mim. Eis que, a tantas horas do show, um forró tocando fogo no pequeno mas animado público, um dos integrantes do Quinteto sugere que todo mundo avacalhe logo o negócio e transforme a platéia numa grande quadrilha junina. Rejane olhou pra mim, eu senti o impacto da olhada, entendi tudo e não disse nada. Mas fiz cara de "agora não vai dar". Ela apelou para a verbalização: "vamos". Eu: "Hoje vai dar não". Resisti, tentei correr, usei a tática de olhar pro lado como se não fosse comigo mas teve jeito não.


Rejane me arrastou para uma quadrilha junina no pé do palco do show do Quinteto. Pensando bem, devo agraceder à providência pelos músicos do Quinteto não terem chamado a quadrilha para subir ao palco de uma vez. Aí não sei o que teria acontecido. Só sei que fui jogado de um lado pro outro, obrigado a pular animadinho quando estava ainda cheio de trabalho na cabeça, mais parado do que estátua de leão em entrada de mansão mal-assombrada. E tinha que dar risada, me mostrar contente e animado como todos os demais. Era um constrangimento a minha cara destoando do resto da quadrilha. Mas Rejane estava irredutível.


O pior, o pior mesmo foi no final, quando o mesmíssimo músico do Quinteto - valhei-me, Toinho Alves! - resolveu, não contente com a quadrilha, sugerir que todo mundo continuasse de mãos dadas e formasse o que ele chamou de "onda gigante humana". Assim: todos de mãos dadas formando uma espécie de círculo humano em caracol. E aí, a um sinal dele, todo mundo tinha que se jogar para o centro do caracol, esbarrando no que quer que fosse. Quase que me afogo nessa onda: me vi empurrado abruptamente para o centro do furacão, digo, caracol, e, imediatamente em seguida, arrastado de volta como se estivesse mesmo em um mal revolto de gente levemente alterada pelo álcool e outros aditivos de noite de sexta-feira.


Falar a verdade: eu até aprecio uma ciranda pernambucana, daquelas de Dona Lia, onde a gente entra, dá aos mãos, e dança meio malemolente, num ritmozinho devagar, bom, parece que tá numa rede de varanda, aquele passo para trás que não tem risco de errar. Aí, sim. Mas quadrilha como a do Quinteto, nessa não caio mais.


Esqueci de dizer que era tanta gente na quadrilha que montaram até aquele "túnel" de casais onde a gente se agacha para passar por baixo: pois o túnel era tão grande que desconfiei que quando saísse dele estaria lá pras bandas do aeroporto, tendo entrado nele no gramado da Esplanada. Mas isso foi pouco: quando enfim saí do túnel e me surpreendi de ainda estar entre os prédios dos ministérios, tive que fazer com Rejane aquele telhadinho de mãos dadas e braços elevados para outros integrantes da quadrilha passarem. Pense no aperreio: se demorei tanto para atravessar, imagine o tempo que vou ter de permanecer com os braços levantados aqui...


Como já havia passado pelo pior, resolvi, encerrado o show do Quinteto, esperar para ver Fagner pela primeira vez num palco assim pertinho. E então relaxei da quadrilha apreciando o show, que me mostrou um Raimundão muito bem disposto em fim de carreira. Com aquela cara de estátua da ilha de Páscoa, Fagner me pareceu, fisicamente, um boneco meio desengonçado. Mas como aquele senhor se revitaliza quando empunha violão e, contando apenas com uma dupla de músicos equipados com sintetizador, sanfona e uma pungente guitarra, é capaz de produzir um show eletrizante. É isso, não se surpreendam: achei o show deste Fagner pós-tudo um troço meio rock and roll, meio o "Cê ao vivo" de Caetano. Som alto, pegada adolescente e cabelos brancos. O que é que eu posso esperar mais?


E Fagner ainda cantou uma das músicas de mau gosto de que eu gosto mais: "Retrovisor". Conhece? "Vejo a manhã de sol entrando em casa..."

4 comentários:

ana sua mana disse...

rejane consegue mesmo milagres: queria ver o senhor dançando quadrilha...
e parabéns pela bela casa. que lugar gostoso! pelas fotos e pelo que vc disse, já vi que os meninos - e vocês - estão adorando. que bom.

Anônimo disse...

KKKKK. Quem mandou casar com uma mulher jovem, serelepe. Você com esse ar de velho, cansado, bem que mereceu essa sacudida...
Também adorei a casa. Adoro casa!

bjs,

Vilma

Gustavo de Castro disse...

morri de rir com essa história...e quando encontrei hoje rejane comentei o fato. ela disse pelos meus arrastados no corredor: "sabia que era vc quem vinha andando". tião, cuidado com essa mulher!...

Francisco Sobreira disse...

Tião,
Ao mesmo tempo que tive uma sensação de pena do seu constrangimento, não pude deixar de achar engraçada a sua situação. Se estivesse lá, não haveria quem me obrigasse a participar daquilo. Talvez, quem sabe, a Nicole Kidman... Enfim, coisas da vida. Abraço.